Foto: Cidade que queremos BH/Divulgação

Cenários para 2018: por uma ocupação real da política


O 'Nexo' convidou movimentos novos de diferentes orientações políticas para que projetassem cenários para 2018. Neste ensaio, o Muitas se apresenta e conta seus planos para o ano eleitoral

Renovação política tornou-se a pauta do momento no Brasil. Parece haver uma percepção comum de que reconectar os laços da política com a sociedade é tarefa urgente em um país com instituições em frangalhos. Este foi também o entendimento que nos motivou no longínquo ano de 2015, quando um grupo de pessoas independentes ou ligadas a movimentos de Belo Horizonte propôs ocupar as eleições com as pautas, as lutas, os corpos e os desejos que emergiram na cidade nos últimos anos.

A construção foi feita a partir de dezenas de encontros abertos em praças, parques, ocupações urbanas, universidades, escolas, pomares. A pauta: radicalizar a democracia, ocupar os espaços de poder para distribuir potência, levar pessoas comuns às instituições, fortalecer mulheres, pessoas negras e indígenas, e outros grupos subrepresentados na nossa falha democracia. Foi necessário muito trabalho de formiguinha, muito chão, para criar uma movimentação diversa e que fizesse jus aos desafios que o momento pedia: superar os limites da esquerda tradicional, construir agendas políticas a partir da diversidade e do protagonismo de grupos menos favorecidos.

Depois de um amplo debate, muitas reuniões com vários partidos e movimentos, fizemos a opção de limitar nossa atuação partidária ao PSOL. Isso não impede que a movimentação mantenha diálogos com outros partidos, nem limita as Muitas a uma atuação estritamente partidária. Além da afinidade programática, trata-se de uma ação estratégica, com vistas à soma de votos necessários para atingirmos o quociente eleitoral.

É preciso sinceridade para dizer que a entrada no partido não foi sem conflitos. O modo de operar dos movimentos espontâneos e autogeridos difere bastante da lógica interna dos partidos. Esse conflito é um desafio do nosso tempo, onde a forma partido exprime suas limitações, mas a legislação eleitoral brasileira enrijece bastante as maneiras de se apresentar às eleições.

Construir uma confluência de candidaturas cidadãs tampouco é fácil. A maioria das pessoas que se candidata tem muito mais a perder do que a ganhar. A política tradicional é viciada e entrar nela gera desconfiança. Quando as pessoas não querem ser políticos profissionais, perpetuarem-se no poder, tudo é ainda mais delicado. É preciso criar uma grande rede de apoio e confiança para suportar as candidaturas.

Depois de 18 meses de muito diálogo e muita escuta apresentamos, nas eleições de 2016, 12 candidaturas à Câmara de Vereadores de Belo Horizonte - que se somaram a outras 19 candidaturas da Frente de Esquerda BH Socialista. Essas candidaturas pactuaram princípios comuns, como a redução de privilégios, a radicalização democrática e a representatividade de gênero e étnico-racial. Fizemos uma campanha voluntária, colaborativa, com poucos recursos financeiros e muito engajamento.

A expressividade do resultado espantou a todas, inclusive a nós mesmas. Áurea Carolina, uma mulher negra, atuante em movimentos de juventudes e gênero, foi a vereadora mais votada da história de Belo Horizonte. Elegemos também Cida Falabella, diretora e atriz de teatro, engajada na cultura a partir de uma atuação na periferia da cidade.

É preciso sinceridade para dizer que a entrada no partido não foi sem conflitos. O modo de operar dos movimentos espontâneos e autogeridos difere bastante da lógica interna dos partidos. Esse conflito é um desafio do nosso tempo

Os mandatos das duas vereadoras formam a gabinetona: dois gabinetes de vereança onde as paredes foram derrubadas, que compartilham equipe e atuam de maneira conjunta. Os princípios dessa atuação foram sendo delineados aos poucos: uma política de amor, feminista e antirracista, a confluência máxima entre forças do campo progressista, a diversidade, a representatividade, a transparência, a busca pelo bem comum e pela radicalização da democracia, a desconstrução de privilégios de toda ordem.

Nesses 13 meses, o mandato coletivo visou estabelecer canais diretos de participação e acompanhamento por meio de mobilização social, educação popular, formação política e comunicação. Convocou a cidade para ocupar o plenário principal da Câmara Municipal. Realizou Zonas Megafônicas, debates políticos e ações culturais para megafonizar as lutas. Inventou os LabPops, oficinas temáticas para incidência sobre projetos de lei em tramitação e para proposição de novos projetos. Criou Grupos Fortalecedores, espaços temáticos de incidência direta sobre o mandato.

A gabinetona iniciou também um projeto de Teatro Legislativo, que mobilizou as pessoas a pensarem em soluções reais para temas complexos, como as abordagens policiais violentas. Foram realizadas prestações de contas em praça pública.

Mensalmente, 30% dos salários das vereadoras são destinados a uma chamada pública que visa reconhecer iniciativas sociais e culturais em Belo Horizonte.  Recentemente, foi lançada sua primeira edição. Foram recebidas 652 indicações que comporão uma cartografia comum da cidade. Dezoito iniciativas receberão apoio financeiro de R$ 5.000 cada uma.

Os primeiros projetos de lei foram apresentados no Dia da Consciência Negra e foram construídos de forma coletiva, aberta e em diálogo com a cidade, com participação e colaboração direta de comunidades tradicionais, quilombos, terreiros e integrantes dos movimentos negros e indígenas. Os projetos foram feitos sem pressa. As leis não podem ser elaboradas em gabinetes fechados, virar produtos de percepções particulares e personalistas ou servir para rankings de produtividade.

Os mandatos têm investido também em ações de transparência, com a publicação e justificativa dos votos das vereadoras e com a disponibilização de um mapa mensal que mostra como a equipe da gabinetona tem atuado na cidade.

O convite para este ensaio no Nexo foi no sentido de pensar as perspectivas para a renovação política em 2018. Optamos por demonstrar como uma prática política real vem sendo tecida, desde sua construção eleitoral até seus desdobramentos no parlamento.

Em 2018, lançaremos candidaturas à Câmara Federal e à Assembleia Legislativa de Minas Gerais, junto ao PSOL, e em confluência com companheiras de diversos outros Estados brasileiros, que começam a se reconhecer a partir do encontro que aconteceu em Belo Horizonte em dezembro de 2017, o #OcupaPolítica.

Levaremos às eleições de 2018 as perspectivas de radicalização democrática, de uma política feminista e de amor, de desconstrução de privilégios, a partir da nossa experiência concreta aqui relatada. Ousamos sonhar outro futuro, no qual se expandam as possibilidades de vida livre, feliz, integrada com a natureza, fundada nos interesses coletivos e na democracia cidadã.

Outra política é possível. Convidamos a todas que queiram somar nessa construção, que retomemos a política com amor e pé na porta.

Somos Muitas.

Áurea Carolina, Cida Falabella, Julia Moysés e Roberto Andrés são membros da movimentação Muitas

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