Foto: Bancada Ativista/Divulgação

Cenários para 2018: para além da renovação superficial da política


O ‘Nexo’ convidou movimentos novos de diferentes orientações políticas para que projetassem cenários para 2018. Neste ensaio, a Bancada Ativista conta seus planos para o ano eleitoral

É inegável que as eleições deste ano abrem uma oportunidade para a renovação da política brasileira, em um momento no qual todas e todos clamamos por mudanças profundas. Mas oportunistas e forças conservadoras já perceberam que renovação é a ideia da vez, e não perderam tempo em se apropriar dela. Por todo lado há quem defenda renovação apresentando pouca preocupação com mudar as coisas de verdade.

Com essa banalização da renovação, tornou-se vazio – para não dizer enganoso – falar sobre o assunto de forma genérica. O debate exige ir mais fundo, e discutir duas coisas que realmente tocam na ferida: qual exatamente é a renovação que queremos? E como a alcançaremos vendo 2018 como ponto de partida e não como ponto de chegada?

Há dois tipos de renovação política. O primeiro, que sozinho não muda nada, é a simples troca nos nomes das pessoas eleitas: gente que estava no poder não se reelege, e gente nova entra em seu lugar. Pode não parecer, mas isso acontece bastante no Brasil. No Congresso, por exemplo, a rotatividade média desde o fim da ditadura é de 49% por eleição - ou seja, a cada eleição apenas metade se reelege. Mas apesar dos nomes trocarem, o Congresso segue composto por cerca de 90% de homens, 80% de pessoas brancas, e um patrimônio declarado médio acima dos R$2 milhões para cada “representante do povo”. E continuamos também com deputados e senadores amarrados às dinâmicas políticas de sempre, que abrem mão de seus ideais com facilidade para fazer alianças por conveniência eleitoral ou para conseguir o apoio de outros parlamentares em suas atividades. Se é para renovar assim, mantendo tudo igual, perdemos menos tempo e energia deixando como está.

O segundo tipo de renovação é aquele que realmente muda os corpos que ocupam a política e tensiona a forma como as coisas são feitas. É eleger a mulher negra periférica, seja literalmente ou por meio da soma de muito mais mulheres, pessoas negras e representantes das periferias recebendo nosso voto. É eleger também diversos outros grupos que têm pouco ou nenhum espaço na política institucional e poderiam ser mencionados aqui, de LGBTs a indígenas, de jovens a pessoas com deficiência. É colocar lá dentro gente que tem um compromisso com o bem comum comprovado pela sua atuação fora dos espaços oficiais de poder, com experiência concreta em temas e causas importantes. É fazer tudo isso por meio de práticas que fujam dos vícios da política tradicional, com campanhas e mandatos marcados pela autonomia, transparência, abertura e participação. E, por fim, é ter um compromisso claro com atacar problemas históricos do nosso país que tantas vezes ficam de lado - a desigualdade social, a impunidade política, o racismo e machismo estruturais, e a destruição do meio ambiente.

Funcionaremos como um espaço de convergência de ativistas, movimentos e coletivos que, juntos, construirão candidaturas coletivas

A Bancada Ativista surgiu para enfrentar esse desafio.

Não se trata de um desafio pequeno, nem de um que conseguiremos superar sozinhos. Talvez seja o maior desafio que temos, e ele é enfrentado não só no Brasil como também mundo afora. Mas não temos dúvidas de que esse é o único caminho a ser seguido se queremos ver transformações verdadeiras na forma como a política é feita, e se queremos uma democracia na qual as pessoas se sintam verdadeiramente representadas.

Em 2016, a Bancada Ativista foi pioneira na construção de um movimento político independente para ajudar a eleger pessoas com sólida trajetória de atuação em diversas causas sociais, econômicas e políticas. Construímos uma campanha suprapartidária apoiando oito candidaturas a vereador na cidade de São Paulo, com a soma de esforços de centenas de pessoas. Uma das candidatas, Sâmia Bomfim, foi eleita, e um em cada cem votos na cidade veio para as nossas candidaturas. Na cidade de Belo Horizonte o movimento irmão Muitas, também pioneiro nessa jornada, alcançou êxito ainda maior e conseguiu eleger Áurea Carolina e Cida Falabella.

De lá pra cá, diversos outros movimentos focados na renovação política surgiram. Agora, para além de deixar claro qual tipo de renovação estamos defendendo e assim ajudar a separar o joio do trigo, precisamos construir estratégias de longo prazo – porque definitivamente não alcançaremos as mudanças que queremos ver na política apenas por meio das eleições de 2018, por mais importantes que elas sejam para colocar dentro do sistema pessoas que nos ajudarão a chegar lá.

Este ano iremos mais fundo nos esforços de desafiar a lógica do nosso sistema político do que fomos em 2016. Em vez de apenas apoiar candidaturas, funcionaremos como um espaço de convergência de ativistas, movimentos e coletivos que, juntos, construirão candidaturas coletivas unindo representantes de diversas causas em torno de um mesmo número na urna. O voto para a Bancada Ativista não elegerá uma pessoa, mas um grupo de pessoas com sólida trajetória de atuação na sociedade, que irão compor um mandato também coletivo. Esse voto elegerá um movimento de ocupação política, e lá dentro iremos juntos dar passos ainda maiores na defesa de pautas progressistas, com total abertura a quem quiser somar esforços e metodologias de participação que radicalizem a democracia.

Não temos a pretensão de disputar as eleições em nível nacional – seguiremos focados em São Paulo, desta vez expandindo a atuação para o estado. Acreditamos que política se faz de perto, que as mudanças de que precisamos exigem construção de base e conhecimento profundo da realidade local, e é em São Paulo que podemos oferecer nossa melhor contribuição. Temos certeza de que, se nós e outros movimentos fizermos boas campanha, nossas ideias e provocações se irão se espalhar pelo país.

A disputa pelos rumos da política no Brasil é árdua e longa, mas há cada vez mais gente disposta a arregaçar as mangas em defesa de uma democracia que trabalhe de fato para o bem comum. Precisamos de bancadas muito mais diversas e representativas no nosso sistema legislativo, e para isso precisamos também romper a bolha das pessoas que geralmente discutem esse problema, trazendo muito mais gente para a causa. As eleições de 2018 são um momento importante nessa jornada, então vamos aproveitá-las para fazer a diferença atuando de forma inovadora, e elegendo gente e ideias realmente novas. Em outubro, o chamado será Vote Ativista!

Pedro Telles, Daniela Teixeira, Luciana Minami e Carla Mayumi  são membros da Bancada Ativista - um movimento suprapartidário focado em eleger ativistas para o poder legislativo, formado por cidadãs e cidadãos de São Paulo com atuação em múltiplas causas sociais, econômicas, políticas e ambientais.

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