Foto: Livres

Cenários para 2018: ousadia para superar o cartel da velha política


O 'Nexo' convidou movimentos novos de diferentes orientações políticas para que projetassem cenários para 2018. Neste ensaio, o Livres se apresenta e conta seus planos para o ano eleitoral

Tanto se fala em renovação política em 2018 diante da avalanche de notícias de corrupção. Parece um caminho natural nas urnas, mas não é tão simples quanto parece. Basta ler pesquisas recentes de opinião.

A corrupção aparece entre os três principais problemas do país para os brasileiros e 60% reprovaram o trabalho de deputados e senadores, o recorde da série histórica, segundo o Datafolha divulgou em dezembro de 2017. Porém, pouco antes, em setembro, ao mesmo instituto 60% dos brasileiros, principalmente os mais carentes, admitiam a corrupção, a depender dos fins a que ela é associada.

Como, então, renovar o Congresso se para 59% das pessoas "tanto as qualidades quanto os defeitos dos políticos brasileiros são um retrato da população do país"?

Não se trata de um processo fácil. Demanda bastante atenção para a educação. Um investimento não somente financeiro, mas, sobretudo, intelectual e cívico. Precisamos amadurecer o eleitor, engajar o cidadão e reformar as nossas instituições democráticas.

Como desmontar um cartel?

Entendemos que liberdade individual, participação e transparência são três conceitos fundamentais para qualquer projeto transformador. Tentamos implantá-los na construção de uma renovação orgânica dentro do Partido Social Liberal (PSL), mas esbarramos na velha política. E, com isso, aprendemos bastante sobre o funcionamento do sistema partidário brasileiro.

Os partidos tradicionais funcionam como um cartel subsidiado. Em qualquer área de atuação, a lógica de um cartel é inibir a concorrência e concentrar privilégios. Nesse caso, de um lado, o cartel proíbe as candidaturas independentes e cria burocracia para bloquear a inovação e dificultar o surgimento de gente nova. Ao mesmo tempo, do outro lado, criam-se privilégios como o fundo partidário, que gerou legendas de aluguel e cabides de emprego para políticos tradicionais que, eventualmente, não passam no teste das urnas.

Com acesso a dinheiro público e praticamente nenhuma prestação de contas à sociedade, os partidos tradicionais apostam em um fechamento do sistema político em busca da sua própria preservação

E, assim, nós assistimos, nas últimas décadas, a uma proliferação de siglas partidárias desconhecidas e incapazes de se diferenciar entre si. A solução que o Congresso tentou arrumar foi uma combinação previsível que passa por cláusula de barreira e fundão eleitoral. Novamente, a mesma lógica: menos concorrência, mais privilégios.

Com acesso a dinheiro público e praticamente nenhuma prestação de contas à sociedade, os partidos tradicionais apostam em um fechamento do sistema político em busca da sua própria preservação. A nossa missão para 2018 é fugir da polarização ilusionista e começar a desmontar esse cartel.

Precisamos falar dos problemas reais do país. E também sobre a abolição dos fundos partidário e eleitoral, o barateamento das campanhas, a desburocratização da política e a liberação das candidaturas independentes; além de valorizar os bons exemplos. Como o caso de inovação e diminuição de burocracia da Câmara Municipal de João Pessoa (PB), que passou a validar assinaturas digitais para a subscrição de projetos de lei de iniciativa popular. Como podemos usar esse tipo de experiência para expandir o uso da tecnologia e facilitar a participação do cidadão?

As prioridades para uma agenda de convergência

Não podemos cruzar os braços e simplesmente esperar que o sistema mude sozinho. Agora que deixamos o PSL e viramos uma associação, vamos nos concentrar em dois eixos: formulação de propostas de políticas públicas e engajamento cívico.

Acreditamos que existe uma convergência possível entre as forças renovadoras do país em torno de uma agenda de priorização dos serviços essenciais e do enxugamento da máquina pública. Vamos trabalhar para construir essa agenda.

A cada dez escolas brasileiras, seis não têm acesso à rede de esgoto e três, à coleta de lixo. Esse é o mesmo país que, nas últimas décadas, destinou R$ 109 bilhões em subsídios para grandes empresas e mais de R$ 8 bilhões para estádios de futebol para a Copa do Mundo. O mesmo país dos auxílios-moradia para juízes e promotores e de tantas benesses para os políticos.

Promoveremos debates qualificados sobre essas necessidades, para formularmos propostas concretas. Por que manter um aparato estatal inchado em vez de focar no que realmente importa? Por que direcionar os recursos escassos da segurança pública para combater substâncias no lugar de centrar as energias para solucionar os mais de 60 mil homicídios que acontecem por ano? São questões fundamentais que precisam ser discutidas Brasil afora.

Construindo liberdade, da periferia até o Congresso

Vamos aproximar o pensamento liberal dos que mais precisam e, não à toa, ainda têm uma visão paternalista do Estado. Um dos braços para essas ações será o "Incuba Livres". Já tivemos uma experiência bem-sucedida na periferia de Recife, onde capacitamos 109 jovens no desenvolvimento de projetos de empreendedorismo social para gerar impacto em suas comunidades sem depender do governo.

Queremos ampliar a nossa militância formando lideranças liberais orgânicas e promovendo ativismo de causas ligadas à liberdade. Para gerar engajamento off-line e dar transparência, estamos lançando a plataforma "Mundo Livres", um experimento tecnológico participativo na tomada de decisões.

Em relação às próximas eleições, teremos uma estratégia descentralizada de candidaturas. Temos 14 lideranças bolsistas no RenovaBR, um programa de formação e aceleração política, com rigorosa seleção.

Sabemos dos enormes desafios pela frente. Não bastasse a tolerância à corrupção, sete em cada dez brasileiros ainda são contra privatizações. Isso é fruto de anos de uma mentalidade patrimonialista e intervencionista que gerou um modelo falido na prestação dos serviços mais básicos à população.

O nosso crescimento e de movimentos semelhantes, no entanto, nos deixam esperançosos. Em pouco mais de dois anos, formamos núcleos em quase 300 municípios, em todos os estados. Não é pouca coisa se levarmos em conta as barreiras a superar.

O cartel dos partidos tradicionais é poderoso, mas nós podemos começar a vencê-lo. Precisamos focar no que mais importa e agir, exercendo a cidadania e a liberdade. Não podemos assistir a tudo passivamente. O Brasil tem jeito, sim, se assumirmos a nossa missão e, sobretudo, se tivermos a ousadia de sermos livres.

 

Mano Ferreira é diretor nacional de comunicação do Livres, movimento político que defende o liberalismo econômico e social fundado em 2016

Paulo Gontijo é presidente do Livres

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