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Foto: Katiana Tortorelli

Cenários para 2018: Quem #MeRepresenta? Direitos humanos, diversidade e os mitos da renovação e da polarização


O 'Nexo' convidou movimentos novos de diferentes orientações políticas para que projetassem cenários para 2018. Neste ensaio, o #MeRepresenta conta seus planos para o ano eleitoral

Em um país onde as mulheres negras são maioria, homens brancos é que concentram o poder político. A imagem da democracia dirigida por uma pequena elite que decide sobre quem vive, morre e prospera só é possível por conta das regras do jogo político brasileiro que ao longo da história excluíram grupos minorizados. Mulheres, negros, LGBTs, indígenas e populações tradicionais ficam de fora, enquanto cada vez mais políticas sobre direitos humanos são sistematicamente retrocedidas e rifadas nos poderes legislativos, do nível municipal ao federal.

Ciente deste tenebroso cenário, o #MeRepresenta desenvolveu uma plataforma para as eleições municipais de 2016, a fim de aproximar eleitores e candidatos comprometidos com direitos humanos. A escolha do voto para o Legislativo é muito mais complicada do que para cargos do Executivo. Os eleitos estão sendo definidos agora, muito antes do dia das eleições, por lideranças partidárias de homens, brancos e oficialmente héteros. São esses homens que escolhem quais candidatos terão reais chances de serem eleitos, ao distribuírem seus recursos financeiros e de campanha. Se votamos sempre nos mesmos deputados e vereadores, é também porque não temos ferramentas para conhecer e comparar candidaturas e propostas, especialmente quanto aos direitos humanos.

Nossa aposta é que esta força política dos direitos humanos só tende a crescer em 2018. Quanto mais eleitores demonstrarem que o compromisso com os direitos humanos é crucial para o seu voto, mais candidatos que defendem essas pautas disputarão a política

Nas eleições de 2016, perguntamos a todas as candidaturas a vereador sua posição em relação a pautas de direitos humanos bastante contundentes, como aborto, desmilitarização da polícia, cotas raciais, respeito à identidade de gênero de pessoas trans. Em apenas dez dias no ar, provamos que a defesa dessas pautas de direitos humanos é um valor político inegociável para muitos eleitores e que a representatividade de grupos minorizados no poder importa.

Ao todo, 150 mil eleitores consultaram a plataforma um milhão de vezes para decidir seu voto em todo o Brasil, e deles, 70% eram mulheres. Entre as dez candidaturas mais visualizadas na plataforma, nove eram de mulheres, sendo três de mulheres negras e uma de mulher trans, enquanto o único homem desta lista era gay.

Direitos humanos não são uma potência política só entre os eleitores, mas também para as candidaturas que se comprometem abertamente com  essas pautas. Foram quase 1.000 candidaturas que espontaneamente se cadastraram na plataforma, de todos os 35 partidos, espalhados por 244 cidades e 24 estados do país.

Nossa aposta é que esta força política dos direitos humanos só tende a crescer em 2018. Quanto mais eleitores demonstrarem que o compromisso com os direitos humanos é crucial para o seu voto, mais candidatos que defendem essas pautas disputarão a política. Quanto mais dessas candidaturas estiverem disputando as estruturas internas dos partidos para que seus corpos e pautas ganhem espaço, mais o processo eleitoral tende a ganhar com essa maior representatividade. Mas para isso precisamos romper com dois grandes mitos que pairam sobre estas eleições: o da polarização e o da renovação.

Os direitos humanos ganham pouco com a polarização do debate político entre coxinhas e mortadelas. É senso comum agrupar partidos em correntes de pensamento consolidadas, numa polarização que empobrece as nuances e esquece que tanto a política quanto os partidos são feitos por pessoas em toda sua complexidade. Se na hora de votar no Legislativo é fundamental avaliar o partido e a coligação do candidato - porque o voto vai também para eles -, nesse momento pré-eleições é importante entender que os partidos têm em seus quadros pessoas mais ou menos alinhadas com essa cultura partidária e que talvez possamos contar com elas em nossa luta em pautas específicas de direitos humanos. Um forte indicativo disso é termos conseguido a participação espontânea na plataforma de candidatos de todos os 35 partidos nas últimas eleições.

O discurso de renovação política como grande solução para a crise de representatividade que estamos vivendo e que tem sido impulsionada por novos grupos de mobilização, de diferentes espectros políticos, não é sinônimo de mais direitos humanos ou de mais diversidade. Pelo contrário, mais uma vez essas pautas estão sendo rifadas em nome de um maior arco de governabilidade e alcance desses mesmos grupos. Renovar o quê? Para quem? E quem são os sujeitos dessa renovação? Compromisso com direitos humanos e representatividade de grupos minorizados precisam estar no centro do debate político de 2018 e não estão.

O #MeRepresenta não pretende renovar a política indicando candidaturas. Vamos continuar sendo uma ferramenta que faça essa ponte entre eleitores e candidaturas pró-direitos humanos, simplificando as regras do jogo político ainda excludente, avaliando partidos e coligações em relação ao seu compromisso com direitos humanos nas votações no legislativo e à sua diversidade interna, buscando transformar o que hoje é um desvalor em uma força política e eleitoral - nossos corpos e nossos direitos. 

 Ana Carolina Lourenço, Evorah Cardoso, Gui Mohallem e Marina Lima  são integrantes do coletivo #MeRepresenta, composto pelas Blogueiras Negras, a Fundação Cidadania Inteligente, a Rede Feminista de Juristas (DeFEMde) e o #VoteLGBT.

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