Foto: Mídia Ninja

A vida e a luta de Marielle Franco: não foi em vão


A quinta vereadora mais votada do Rio de Janeiro fazia uma política nova, diferente, feminina e feminista. Com afeto. Tecia um novo tecido social carioca, mais bonito, mais colorido

Quando entrei na Sala Inglesa da Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro na quinta-feira (15) de manhã, onde devíamos ficar à espera dos corpos de Marielle Franco e Anderson Pedro Gomes, encontrei uma sala cheia de mulheres negras. Muitas choravam. Outras lembravam de como estavam ali por Mari. Porque Mari as levou. Mulheres que trabalhavam para o mandato da vereadora Mari. Ativistas que acompanhavam a vereadora Mari desde a campanha em 2016 e participavam do mandato de muito perto.

Cheguei ali de mãos dadas com Julita Lemgruber, a maior especialista em segurança pública deste país. No caminho, minutos antes dessa entrada e entre lágrimas, ela me dizia: foi tudo em vão. “Quarenta anos dedicados à segurança pública e aos direitos humanos para hoje enterrar Marielle assim.”

Ao entrar na sala, eu entendi. Nada foi em vão, Julita. Marielle encheu aquele espaço de poder de mulheres negras periféricas. E trabalhava diariamente, com retidão ímpar e sorriso no rosto certo, para que outras como ela, para que todas como ela também ocupassem espaços assim. Marielle era tudo o que desejamos juntas na Cinelândia em 2015, onde as primeiras passeatas do que se chamou Primavera das Mulheres aconteceram e onde a candidatura de Mari deixou de ser sonho e virou adesivo nos nossos peitos. Ela fazia uma política nova, diferente, feminina e feminista. Com afeto. Tecia um novo tecido social carioca, mais bonito, mais colorido.

Era igualmente evidente o compromisso de Mari com ser o que somos. Ser todas nós. E levar todas nós com ela

Quem visitava Mari na Câmara nunca deixava de notar como sua presença, para além de suas palavras, causava estranhamento aos habituados à política de homens brancos, feita por eles e para eles. Ela era, no meio de infinitos ternos, aquele cabelo, aquele turbante, aquele vestido estampado de cores vibrantes, aquele batom que dava moldura ao sorriso. Já falei do sorriso? Ninguém que conheceu Marielle vai se esquecer do seu sorriso. Então desculpe se insisto no sorriso. Marielle era a representação de tudo o que sempre esteve ausente na política brasileira: a mulher, a mulher negra, a mulher negra favelada, a mulher negra favelada homossexual, a mulher negra favelada homossexual mãe na adolescência defensora de direitos humanos. E encarava a toxicidade da política do Rio de Janeiro sem jamais se esquecer do que era inegociável, sem parar de apontar os que sim o negociavam, sorrindo, sorrindo, sorrindo. E, principalmente, tomando aqueles corredores, aquelas salas e salões e os enchendo de mulheres como ela. Ou diferentes dela. De mulheres em toda a diversidade do que podemos ser.

Os resultados dessa campanha arrebatadora que a levou para a Câmara como a quinta vereadora mais votada da cidade e de um mandato transformador eram evidentes. Projetos de lei aprovados e escanteados, iniciativas encampadas ou travadas, sempre tendo a igualdade no centro da agenda. Era igualmente evidente o compromisso de Mari com ser o que somos. Ser todas nós. E levar todas nós com ela. Algo inédito, descomunal. Marielle estava fazendo o bem bem demais e o balcão de negócios da politicagem da cidade não estava feliz.

A essa altura, claro que demandamos resultados das instituições e queremos esclarecimentos. Mas, feminista que sou, interseccional e nada punitivista como Mari, sei o que preciso saber.

Sei que nos arrancaram Marielle com uma brutalidade inacreditável porque ela estava fazendo o que notei na Sala Inglesa: ocupando o poder com mulheres como ela e resistindo aos velhos e tortos modos de fazer política. Propondo modos novos. Modos nossos. Mas não tenho dúvidas: as raízes dessa flor são profundas em cada uma de nós e de nossos grandes aliados. Ceifaram Marielle. Mas brotarão Marielles em todo peito no mundo todo. E a tentativa de silenciar essa voz vai servir para o oposto. Ela será internacionalmente reconhecida, seremos todas Marielles. E Marielle estará sempre presente. Foi um crime político. Responderemos politicamente. Seguindo na trilha que era dela, na picada que ela abriu.

Sei também que temos que rechaçar a narrativa de que a execução de Marielle justifica avanços na militarização do enfrentamento do crime organizado e na intervenção federal em solo carioca. Nada disso funciona, sabemos. No mundo inteiro isso foi tentado. Jamais nada com esse caráter teve sucesso e qualquer um que seja honesto e bom com números há de concordar. Nem no Rio em inúmeras oportunidades anteriores, nem em nenhum outro contexto. Ao contrário, o assassinato de Mari é o resultado de um processo perverso de escolha pelo que não funciona no âmbito das políticas de segurança públicas. Processo esse cuja intervenção é um capítulo trágico e o fim da vida de Mari, outro.

Enfim, sei que nos despedimos de Mari e Anderson na mesma Cinelândia em que comemoramos sua vitória nas eleições. Cantamos “companheira me ajude que eu não posso andar só” com um nó no peito que nem sei. Palavras não dão conta. A escadaria da Câmara era uma cachoeira de lágrimas. Mas sei que nada termina ali. Sei que não foi em vão, Julita. Lembra do sorriso de Mari, Julita? Não vamos esquecer dele e nem deixar que ninguém o esqueça. E quem achou que nos venceria está errado. Tem que estar. É meu desejo. E Mari empossada me ensinou que desejos viram, sim, realidade.

Seguimos. Marielle presente. Hoje e sempre.

 

Manoela Miklos é doutora em relações internacionais, assessora do Programa para a Amérca Latina da Open Society Foundations, ativista feminista e idealizadora do movimento #AgoraÉQueSãoElas.

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