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A movimentação das redes nos primeiros dias de campanha


Início da propaganda de candidatos no rádio e TV mostrará se, a essa altura, meios tradicionais poderão reverter tendências que vêm sendo observadas na internet nos últimos meses

A estreia da propaganda gratuita em rádio e televisão, na sexta-feira (31), representa enfim o início da campanha eleitoral como tradicionalmente conhecida. Embora os blocos das candidaturas já estejam oficialmente na rua desde o último dia 16, é só agora que, como dizem alguns, muda o horário da novela, atraindo (espera-se) a atenção do eleitorado alheio ao extenso calendário pré-eleitoral que teve início em abril, com a desincompatibilização de cargos públicos dos hoje candidatos.

Em mais alguns dias, portanto, já será possível ter alguns indícios da resposta para a questão que tem pautado grande parte das análises e debates até agora: terão as redes sociais e a internet a capacidade de se contrapor aos meios tradicionais de campanha (justamente o tempo de TV, ao lado das alianças partidárias e suas máquinas eleitorais)? Ou, posto de outra forma, será possível a essa altura reverter as tendências que vêm sendo observadas nas redes ao longo dos últimos meses?

Até o momento, o debate sobre as eleições nas redes sociais tem cumprido, nesse sentido, o papel de uma “primária”, marcada pela disputa de hegemonias nos dois principais campos políticos, em geral identificados com as tradicionais “esquerda” e “direita”. O saldo provisório dessa disputa pré-eleitoral, refletido no mapa de interações produzido pela FGV-DAPP, com 2,35 milhões de retuítes relacionados às eleições coletados entre 22 e 28 de agosto, mostra algumas nuances que devem ser consideradas.

A primeira delas é o fato de que os candidatos que representam grupos hoje hegemônicos nos campos da direita e da esquerda — o ex-presidente Lula e o deputado Jair Bolsonaro — ainda enfrentam concorrências “internas”, sendo forçados a consolidar a base de apoio antes de ampliá-la. Na esquerda, a iminente substituição de Lula por Fernando Haddad não garante uma adesão automática desse campo ao atual vice. Marina Silva, Ciro Gomes e Guilherme Boulos esperam herdar parte desse espólio. Na direita, a força da estrutura de Geraldo Alckmin, além de Alvaro Dias e, em movimento mais recente, o crescimento de João Amoêdo nas redes ameaçam corroer pelas margens parte da base de Bolsonaro.

A segunda é o fato de que, neste mapa de interações — e recorrentemente ao longo das últimas semanas —, o maior grupo não se mostra alinhado a nenhum desses campos tradicionais ou mesmo a candidaturas. O que tem unido esse grupo de perfis fragmentado e com baixa coesão são reações críticas a episódios com Bolsonaro, sobretudo os relacionados a questões de gênero e à flexibilização do porte de armas.

As estratégias de campanha digital, pelo observado até o momento, têm reforçado o cenário exposto acima. Enquanto PT e Bolsonaro buscam reforçar bases consolidadas, seus concorrentes têm investido em alcançar novos públicos. No Facebook, entre os dias 16 e 31 de agosto, apenas Henrique Meirelles, Amoêdo, Boulos e Marina haviam impulsionado posts na plataforma. Por outro lado, conteúdos patrocinados por terceiros (tanto positivos como negativos) tinham como público-alvo usuários interessados em Lula, em primeiro lugar, e em Bolsonaro, em segundo.

O desafio das próximas semanas será alterar esse cenário consolidado das redes sociais por meio da propaganda eleitoral em TV e rádio, sobretudo no caso de Alckmin, Lula (ou Haddad) e Meirelles. Enquanto isso, Bolsonaro, o candidato mais bem colocado nas redes nos últimos meses, buscará sustentar sua dianteira resistindo aos ataques de concorrentes. O resultado desse embate entre meios tradicionais e redes sociais será, tudo indica, um dos grandes definidores daqueles que irão ao segundo turno.

Amaro Grassi é mestre em sociologia e coordenador de pesquisa na FGV-DAPP.

Ana Freitas é mestre em estudos da América Latina e pesquisadora na FGV-DAPP.

Bárbara Silva é especialista em análise de políticas públicas e pesquisadora na FGV-DAPP.

 

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