Foto: Gustavo Diehl/Creative Commons

A inclusão social na universidade induz a excelência acadêmica


As políticas de ampliação de acesso e de permanência no ensino superior público são fundamentais para o desenvolvimento do ensino e da pesquisa no Brasil

O novo reitor da Universidade de São Paulo, Vahan Agopyan, em entrevista ao UOL Educação, apresentou o que pensa sobre políticas de acesso e permanência na universidade. Segundo ele, as políticas de ampliação do acesso, como cotas e bonificações, levariam à universidade estudantes com deficiências escolares. As políticas de permanência, por sua vez, seriam assistencialistas e escapariam do escopo e da vocação da universidade, motivo pelo qual deveriam ser financiadas e geridas pelo Estado. Entende-se melhor essas afirmações ao se considerar o que, para o reitor, a universidade deve valorizar. Em entrevista à Associação dos Docentes da USP, ele afirmou que a universidade deve atrair os melhores talentos para o seu corpo discente e deve buscar incessantemente a excelência acadêmica.

Agopyan não recusa essas políticas cuja finalidade é aumentar as chances de indivíduos de grupos tradicionalmente distantes da universidade pública diplomarem-se. Por isso, o que está em discussão é um modo de conceber a coexistência de dois objetivos que a sociedade projeta sobre suas universidades: a inclusão social e a busca da excelência acadêmica.

Muitas pessoas na universidade e fora dela entendem que esses objetivos se opõem e se negam. Afinal, como se pode deduzir das declarações do reitor, cotas e bonificações forçariam a universidade a selecionar, em vez dos melhores talentos, alunos com deficiências na escolarização básica e que, ademais, demandam políticas de permanência. Sendo assim, aos que defendemos a possibilidade da coexistência desses objetivos, cabe-nos problematizar essa suposta contradição.

Comecemos com uma pergunta: as políticas de ampliação do acesso à universidade pública levam à queda da qualidade acadêmica do corpo discente? Os estudos que demonstram resultados acadêmicos positivos de cotistas já deveriam ter sido assumidos como uma resposta suficiente: não! Podemos ir além, entretanto, e argumentar que a própria pergunta induz a um mau entendimento dos caminhos complexos que produzem a distância cultural entre estudantes e universidade.

É um grande equívoco reduzir às cotas e bonificações a produção da distância cultural dos estudantes em relação à universidade. Esse é um problema anterior à introdução das políticas de inclusão e muito mais amplo do que elas

Não é preciso haver cotas e bonificações para que sejam aprovados na universidade alunos com notas baixas no vestibular. Tampouco essas medidas levam necessariamente à seleção de alunos com notas baixas. Isso porque nosso modelo de vestibular regula a seleção dos discentes pela concorrência entre os candidatos a cada carreira. Cotas e bonificações ajustam-se a essa lógica sem alterá-la. Por isso, nos cursos com nota de corte alta, podem ser aprovados alunos cotistas ou bonificados com notas equivalentes ou até maiores que as de alunos que entram pela ampla concorrência em cursos de nota de corte mais baixa.

Além disso, alunos com boas notas no vestibular podem ser culturalmente distantes da universidade. Isso porque as provas de seleção exigem os conhecimentos transmitidos pela escola básica, enquanto a universidade exige, além desses conhecimentos, outros que não estão na cultura escolar - e o faz tão mais intensamente quanto maior é a distância entre as áreas universitárias de saber e as disciplinas escolares. Como a cultura geral demandada e valorizada na universidade está além da cultura escolar, não é raro, então, que o primeiro ano seja vivido como choque e como a descoberta de que os saberes adquiridos na escola básica são insuficientes para o êxito nos cursos universitários. Por essa razão, há nas universidades legiões de ex-bons alunos, estudantes que vivem o ingresso no ensino superior como a primeira experiência acadêmica negativa, ainda que, por vezes, possam ter tido boas notas no vestibular.

É um grande equívoco, portanto, reduzir às cotas e bonificações a produção da distância cultural dos estudantes em relação à universidade. Esse é um problema anterior à introdução das políticas de inclusão e muito mais amplo do que elas. Nossas universidades, entretanto, não têm dedicado a devida atenção a ele. Quando o fazem, tendem a localizar sua causa nas “deficiências” dos estudantes, raramente colocando em questão a pertinência de seus currículos e de suas práticas pedagógicas.

Passemos a outra pergunta: as políticas de permanência são assistencialistas, fugindo do escopo e da vocação da universidade? Novamente, a resposta é não. Na universidade, políticas como moradia estudantil, alimentação, transporte, bolsas auxílio, serviços médicos, psicológicos e psiquiátricos só podem ser políticas acadêmicas. O objetivo delas deve ser um só: criar condições (não só materiais) para que os estudantes dediquem tempo e energia às atividades fim da universidade (ensino, pesquisa e extensão), obtendo êxito.

Em um momento como o atual, de restrição orçamentária e de demanda por ampliação dessas medidas, é justo que as universidades reivindiquem aportes adicionais de recurso para financiar políticas de permanência. Entretanto, é a universidade que deve geri-las, por mais complexas e desafiadoras que elas sejam. Como as necessidades dos estudantes são multidimensionais e variáveis, um desafio central para a gestão das políticas de permanência é produzir arranjos adequados de serviços diferentes, mobilizando equipes multiprofissionais. É preciso esforço de coordenação para que essas políticas estejam orientadas para a produção de resultados acadêmicos. Sem essa coordenação, ela podem se autonomizar e cada serviço provido pode ser tratado como um fim em si. Quem, se não a universidade, pode assegurar esse sentido para elas?

Em um país excludente como o Brasil, conceber a incompatibilidade entre inclusão e busca de excelência paralisa a universidade em enganos. A universidade ganha com a inclusão, pois a excelência acadêmica se desenvolve com a diversificação de experiências e de percepções do que são nossas necessidades. A sociedade ganha com a inclusão, pois pode ter profissionais de alto nível mais diversificados socialmente, em vez de apenas ver reproduzidas elites autorreferenciadas.

Mauricio Ernica é professor da Faculdade de Educação da Unicamp. Enquanto cursou ciências sociais na USP, morou, como hóspede, no Crusp (Conjunto Residencial da USP) e se alimentou no bandejão. É mestre em antropologia social pela Unicamp e doutor em linguística aplicada e estudos da linguagem pela PUC-SP. Coordenou o Programa de Moradia Estudantil da Unicamp.

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