2018: uma eleição marcada pelas redes e disputas de rejeições


Uma análise sobre o comportamento dos presidenciáveis e a divisão de polos políticos na internet durante a campanha do primeiro turno

Os últimos dias do primeiro turno das eleições traziam ainda muitas incertezas quanto aos resultados que sairiam das urnas, mas pelo menos duas características marcantes desse processo eleitoral certamente atípico já se mostravam consolidadas. Em primeiro lugar, o protagonismo inédito das redes sociais na circulação da informação e, logo, no processo de formação das preferências do eleitorado; e, em segundo, o sentimento de rejeição que orientou os campos políticos no sentido de “evitar o pior”, muito mais do que na defesa de projetos bem definidos. Estamos falando, portanto, de uma eleição sobre redes (em sua organização) e rejeições (como sentimento predominante).

No começo de setembro, alguns dias após o início oficial da propaganda eleitoral gratuita, um dos primeiros artigos da parceria entre FGV-DAPP e Nexo trazia a questão que pautava boa parte das análises políticas: na balança entre TV e redes sociais, qual meio teria mais peso na definição dos rumos da eleição? Parece não restar mais dúvida sobre isso. A eleição foi definida, até o momento, por um processo de circulação massiva de notícias, informações (nem sempre verdadeiras) e de mensagens de campanha por meios digitais como Facebook, Twitter e, sobretudo, WhatsApp, como bem mostrou o podcast Durma com Essa da última quinta-feira (4). A propaganda eleitoral, por sua vez, foi incapaz de alterar de forma significativa a posição dos candidatos que apostaram nessa linha de campanha, como Geraldo Alckmin (PSDB).

 

É possível, por outro lado, atribuir um papel relevante ao tempo de TV na estratégia petista de tornar o candidato Fernando Haddad (PT) conhecido do eleitorado em tempo relativamente curto — o que se provou bem-sucedido. Observa-se também que eventos televisionados, como entrevistas e debates (ou a cobertura do ataque a Jair Bolsonaro, do PSL, por exemplo), tendem a pautar fortemente o debate nas redes. Essas redes, por sua vez, exercem uma “mediação” da repercussão desse tipo de conteúdo, por meio de uma forma de curadoria e edição de vídeos para circulação na web. Levantamento feito pela FGV-DAPP mostrou como mais da metade das visualizações de vídeos no YouTube sobre os candidatos esteve relacionada a eventos transmitidos pela TV.

 

A segunda característica decisiva desta eleição, a distribuição de preferências orientada mais pela rejeição do que pela adesão, fica evidenciada pelos campos políticos observados nas últimas semanas. O mapa de interações sem robôs sobre os presidenciáveis no Twitter durante a semana final das eleições (26 de setembro a 2 de outubro) mostra os dois polos de apoio a Bolsonaro e Haddad bastante coesos, porém minoritários. Enquanto o grupo de apoiadores do candidato do PSL é formado por cerca de 18,6% dos perfis, os usuários alinhados ao candidato do PT respondem por 16,6%. Isso significa que a maioria dos perfis envolvidos no intenso debate sobre as eleições não se mostra claramente alinhada a esses dois campos, e sim unificada em torno de pautas específicas, conformando “coalizões” pontuais, em geral unindo-se na rejeição a um dos polos mais fortes e seus programas políticos.

 

No maior grupo formado no mapa de interações acima, colorido em rosa (com 46,8% dos perfis), a pauta mais comum vinha sendo de oposição a Bolsonaro, refletida de forma mais clara na campanha do #elenão e na rejeição à sua plataforma de segurança pública e discursos sobre minorias. Por outro lado, os grupos menores formados no entorno dos apoiadores do candidato do PSL, e coloridos em amarelo (10% dos perfis) e laranja (4%), manifestavam repúdio mais explícito ao PT, ora focando no aspecto da corrupção, ora na crítica ao programa econômico manifestado por seu candidato.

Se confirmado o segundo turno (a coluna foi escrita antes da eleição), portanto, ainda será preciso observar o balanço entre tempo de propaganda eleitoral na TV — igual para os dois candidatos — e as redes sociais, terreno no qual Bolsonaro larga na frente, a se julgar pelo desempenho até agora. Mas, além do meio da comunicação política, terá grande importância a mensagem transmitida, isto é, a capacidade de romper a alta rejeição que acomete os dois candidatos e seus programas de governo, atraindo adesão de setores resistentes ao cenário de polarização. Tudo indica que veremos, outra vez, as redes como lugar privilegiado da disputa de narrativas. Espera-se que ao menos o duelo de rejeições dê lugar a uma disputa de teor mais positivo.

Amaro Grassi é mestre em sociologia e coordenador de pesquisa na FGV-DAPP.

Ana Freitas é mestre em estudos da América Latina e pesquisadora na FGV-DAPP.

 

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