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Foto: Reprodução /Youtube

Racismo, sexismo e a (in)visibilidade de figuras escondidas


O reconhecimento dos feitos extraordinários de mulheres e homens negros, para além do que é permitido contar, é fruto de um trabalho de escavação que traz à superfície o que foi perversamente soterrado

O filme “Figuras escondidas”, curiosamente traduzido para o Brasil como “Estrelas além do tempo”, vem suscitando uma torrente de críticas, arregimentando expressivo público e reposicionando o debate em torno do racismo e do sexismo nos EUA e no mundo.

Se do ponto de vista formal é um filme bem comportado, sem grandes inovações técnicas e de concepção (nem só de transgressões técnicas vive o cinema, vale dizer), “Figuras escondidas” consegue cumprir magistralmente uma função primordial da grande tela: oferecer elementos com os quais possamos reelaborar e ressignificar o mundo, papel que conferiu ao cinema o epíteto de grande invenção da vida moderna.

Para Stanley Cavell, o cinema “não nos dá a ver um ‘outro mundo’, o que faz é facultar, a todos nós, visões de nosso próprio mundo, o qual, por alguns momentos, ele nos convida a deixar”. No mesmo diapasão, o jornalista e crítico de filmes, Sérgio Rizzo, afirma que: “o cinema adquire maior relevância social quando parte de situações que os espectadores conhecem muito bem, por vivência direta ou indireta, e acrescenta a elas não só a visão de contexto que permite compreendê-las um pouco melhor, mas também um olhar sobre a realidade capaz de revelar nuances que muitas vezes escapam à percepção cotidiana, já acostumada com o que é preciso revelar outra vez”.

Estruturado em narrativa fílmica simples, sem resultar em pieguismo, “Figuras escondidas”, dirigido pelo cineasta Theodore Melfi, revela parte da história de três mulheres negras, personagens decisivas para a conquista espacial americana na década de 1960, momento em que a corrida entre EUA e União Soviética atingia um estrondoso ápice.

Naquela época, a Nasa exigia de seu quadro funcional um padrão de excelência de altíssimo nível, quase inatingível, o que resultava num time impecável proveniente dos campos da matemática, física, astrofísica, engenharia e astronomia. Integrava esse time três mulheres negras extraordinárias, exímias matemáticas: Katherine G. Johnson (Taraji P. Henson), Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe). Como pessoas extraordinárias, essas três mulheres inovaram, abrindo novas sendas para a exploração espacial por meio de cálculos arrojados que só elas poderiam fazer. Katherine foi peça chave para que John Glen se tornasse o primeiro astronauta norte-americano a orbitar na Terra. Como se vê, essas figuras notáveis desbravaram territórios inóspitos à presença de mulheres, especialmente as negras. 

Com três indicações importantíssimas ao Oscar - melhor filme, melhor atriz coadjuvante (Octavia Spencer) e melhor roteiro adaptado -, “Figuras escondidas” evidencia a incongruência de um país dilacerado pela segregação racial: ao mesmo tempo em que eram as melhores matemáticas da Nasa, essas mulheres viviam no cotidiano da instituição as barreiras e exclusões perversas do racismo.

O filme é pontilhado de episódios que nos enredam em situações dramáticas experimentadas por mulheres negras ontem e hoje, lá e cá. Na cena de abertura, as três funcionárias da Nasa são paradas por uma viatura, dirigida por um policial branco, o que dá indícios das agruras que elas terão que enfrentar ao longo da trama: a peregrinação diária que Katherine Johnson tinha que encarar para usar o banheiro reservado para negros, com distância quase telescópica do seu posto de trabalho, é uma das cenas mais emblemáticas. A propósito, são nessas cenas que o filme pede licença poética para um momento de catarse, não vividos por Katherine na vida real.

Embora o filme esteja mais inclinado para a história de Katherine, as conquistas de Dorothy Vaughan e Mary Jackson são retratadas de modo que não a eliminar desequilíbrios narrativos acentuados. Vaughan, a primeira supervisora negra da instituição, comandava um grupo de mulheres negras, que passou a trabalhar na programação de computadores na Naca/Nasa, onde ficou por 28 anos. A história de Jackson também é legendária porque se formou em matemática e ciências físicas no Hampton Institute em 1942, que até então só aceitava homens brancos. Mary se tornou a primeira engenheira mulher e negra da Nasa.

Escavando figuras e histórias escondidas

Deste relato advém uma pergunta que não quer calar: como foi possível manter invisibilizadas histórias de tamanha importância?

De forma singela, “Figuras escondidas” demonstra, por meio de histórias de vida entremeadas por relatos de amor, família e trabalho, como se constrói territórios com alamedas povoadas por homens brancos e arbustos bem cortados por discursos que promovem o “laço social”. Para alcançar esse feito, foi necessário um trabalho exaustivo de corte, poda, talhe das referências indesejáveis para que permanecessem caladas no painel das referências. Portanto, o que subsiste desse exercício de silenciamento não permanece por muito tempo como material inerte e, em algum momento, histórias como as das três matemáticas negras irrompem. Mas essa irrupção nunca ocorre espontaneamente. O reconhecimento dos feitos extraordinários de mulheres e homens negros, para além do que é permitido contar, é fruto de um trabalho de escavação que traz à superfície o que foi perversamente soterrado.

Para o psicanalista Didier-Weill, “o significante não detém somente o poder de anular o sentido do código, como nos imprevistos, ele é também a pedra angular que pode ser substituída pelo rebotalho, pela escória: no lugar onde o real não teve acesso ao simbólico jaz, prescrito, o significante pode voltar e recuperar aquilo que, um dia, deixou cair”. 

“Figuras escondidas” retorna à década de 1960 para recuperar aquilo que um dia a Nasa, os EUA e o mundo deixaram cair. Esse retorno, no campo da narrativa fílmica, constitui, sem sombra de dúvida, um ato de coragem que expõe e confronta o racismo e seus efeitos deletérios. Escavemos, portanto!

 

Rosane Borges é jornalista, professora colaboradora do Celacc (Centro de Estudos Latino-Americanos em Comunicação e Cultura) e da Universidade São Judas Tadeu. Pós-doutoranda em Ciências da Comunicação, pesquisadora na área de comunicação, educação, relações raciais e de gênero.

Walber Pinto é jornalista e militante do movimento negro.

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