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Foto: The Women's Library collection/Wikimedia Common

Por que o 8 de março é imprescindível para a emancipação das mulheres?


Os sentidos políticos do Dia Internacional das Mulheres estão em permanente disputa e transformação por conta da própria complexidade das lutas feministas

A cada ano, os processos de construção de ações coletivas das mulheres em torno do dia 8 de março desencadeiam novas possibilidades de organização e projeção das lutas feministas pelo mundo. A afirmação da data é um recurso político que ativa uma profusão de conversas, encontros e articulações entre mulheres nos mais diversos meios e espaços e produz, a partir dessa movimentação, toda a rede de manifestações, intervenções, eventos e campanhas que fazem de março um período especial de reflexão sobre as realidades das mulheres e acúmulo de forças contra as opressões.

Surgido originalmente com base nas reivindicações de mulheres ocidentais por direito ao voto, acesso à educação e melhores condições de trabalho no contexto industrial do início do século 20, o Dia Internacional das Mulheres foi instituído em 1977 pela Organização das Nações Unidas no marco de formulação de uma agenda igualitária no sistema global de direitos humanos. Apesar desse histórico, o 8 de março foi rapidamente despolitizado no senso comum por investidas de mercado como uma celebração idealizada da mulher – no singular – para exploração de estereótipos de feminilidade em apelos de consumo. Mas, para além da apropriação capitalista, os sentidos políticos do 8 de março estão em permanente disputa e transformação por conta da própria complexidade das lutas feministas.

A emergência dos feminismos interseccionais, que pautam o reconhecimento das múltiplas experiências e formas de pertencimento das mulheres em função das dimensões de raça, etnia, identidade de gênero, orientação sexual, idade, origem socioeconômica, território, religião, deficiência, entre outras, é a principal inflexão das lutas sociais contemporâneas. Trata-se de uma abordagem que traz a interseccionalidade das diferenças para o centro de análise e ação política, sendo, ao mesmo tempo, antipatriarcal, anticolonial, anticapitalista e antirracista. Para compreender os problemas que afetam as mulheres, nesse registro, é preciso considerar as especificidades de pessoas e grupos que vivem situações de injustiça dentro das estruturas de poder.

Não basta, por exemplo, saber que a violência machista extrapola as relações afetivas e envolve fatores socioculturais – uma percepção importante que vem do lema “o pessoal �� político” –, mas há que se visibilizar como as mulheres são desigualmente atingidas por essa violência para enfrentá-la. O fato de que mulheres negras são as principais vítimas de homicídios femininos no Brasil e que houve aumento dos assassinatos de mulheres negras e queda dos assassinatos de mulheres brancas entre 2003 e 2013, conforme atesta o Mapa da Violência 2015, é uma demonstração contundente dessa questão. Padrão semelhante de mortes se dá para homens jovens na lógica do mesmo sistema de gênero e raça que funda a sociedade brasileira. O fim do genocídio da população negra no país, portanto, deve ser também incorporado como uma bandeira feminista. Assim, os caminhos de emancipação coletiva das mulheres passam necessariamente pela integração das lutas antissistêmicas.

Aqui e ali, as mulheres estão na linha de frente da resistência contra o golpe

Pouco a pouco a perspectiva interseccional tem se consolidado no 8 de março. Na medida em que a data catalisa processos de resistência das mulheres ao longo do tempo e no espaço, utilizando linguagens criativas e tecnologias de comunicação, torna-se muito mais do que um divisor no calendário. É uma matriz de realizações feministas com efeitos duradouros. Em 2017, avança em âmbito planetário com a marca do 8M, um chamado de greve geral das mulheres que denuncia a dominação cotidiana pelo trabalho, remunerado ou não. Trata-se de uma resposta à intensificação das políticas de austeridade, ao acirramento da devastação dos bens comuns e à arrancada das condutas de ódio contra as diferenças, cujas consequências massacram as maiorias, que são as populações mais vulneráveis, com peso redobrado sobre as mulheres. É que as mulheres suportam o mundo com sua energia mantenedora da vida, sobrecarregadas com as tarefas de cuidado e outras sequelas da divisão sexual do trabalho.

Em escala local, por toda parte, o 8 de março se multiplica em reação às ameaças aos direitos das mulheres e em busca de outras sociedades possíveis. Na cidade de Belo Horizonte, por exemplo, a construção de um ato unificado em 2017 por organizações, coletivos, movimentos e ativistas autônomas, depois de anos de fragmentação, sinaliza a urgência de confluência das lutas feministas para contrapor uma conjuntura nacional altamente regressiva. A captura das instituições por setores antidemocráticos no Brasil está acelerando um processo global de degradação das promessas de cidadania e se materializa na retirada de investimentos em políticas sociais, na ultraliberalização econômica, na mercantilização dos serviços públicos e na aniquilação dos sistemas de garantias trabalhistas e previdenciárias. Aqui e ali, as mulheres estão na linha de frente da resistência contra o golpe.

Protestar por nenhuma a menos e nenhum direito a menos, em tempos tão perigosos para as maiorias, é desafiar os grandes poderes com circuitos livres de produção de conhecimento, expressão artística, proteção ambiental e experimentação democrática. As mulheres fazem isso desde sempre e desenvolvem suas capacidades políticas quando estão juntas e se percebem sujeitas singulares e coletivas. O 8 de março, há décadas, contribui nessa direção como um motor de expansão das lutas feministas em uma chave cada vez mais inclusiva.

Áurea Carolina é feminista negra interseccional, educadora popular, cientista política e vereadora em Belo Horizonte pelo PSOL.

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