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Foto: Artemisia/Reprodução

Os negócios de impacto social: construindo um novo capitalismo no Brasil


As empresas não substituem o Estado, mas qualificam e complementam a ação estatal ao garantir acesso com mais qualidade a serviços e produtos para quem mais precisa: a população brasileira de baixa renda

Porta de entrada para serviços médicos destinados a 70% dos brasileiros, o SUS (Sistema Único de Saúde) tem se mostrado ineficiente diante do imenso contingente de pacientes. Quando o tema é educação, os números mostram que 47% da população do país tem alfabetização básica e 27% são analfabetos funcionais. Quando analisamos o setor de habitação, encontramos 40 milhões de pessoas vivendo em moradias inadequadas, residindo em favelas e loteamentos clandestinos. Nesses locais, são realizadas reformas precárias, sem informações técnicas e sem acesso a material adequado. Transformar esse mercado improvisado e desorganizado, além de representar contribuição de grande magnitude, tem um potencial econômico particularmente expressivo.

Em resposta a esses problemas que afligem principalmente a população de menor renda, empreendedores têm apresentado soluções inovadoras para preencher lacunas da saúde, educação, habitação, serviços financeiros e tecnologia assistiva, entre outros setores. São pessoas motivadas por uma genuína intenção de transformar – para melhor – a realidade do país.

Ao mesmo tempo, essa nova geração de empreendedores de impacto social tem construído startups lucrativas. Em comum, os negócios de impacto social mais promissores do país têm o processo de aceleração da Artemisia – organização pioneira no Brasil no fomento e disseminação desse modelo que compreende empresas que oferecem, de forma intencional, soluções escaláveis para problemas sociais que afligem a população de baixa renda.

o Brasil possui todas as credenciais para se tornar um polo mundial de negócios inovadores capazes de resolver problemas sociais

Com 12 anos de atuação, a Artemisia vive um momento de consolidação desse modelo no Brasil. Ao longo dessa trajetória, apoiamos mais de 300 iniciativas e, especificamente no programa da Aceleradora, desde 2011 foram 91 negócios de impacto social acelerados. Desses, 48% receberam investimentos que, no total, somam R$ 65,6 milhões, sendo que 87% dos negócios que passaram pela Aceleradora permanecem ativos. E o resultado mais importante: esses negócios impactaram a vida de mais de 27 milhões de pessoas.  A cada ano, estamos mais convencidos de que o Brasil possui todas as credenciais para se tornar um polo mundial de negócios inovadores capazes de resolver problemas sociais, destinados à população de menor renda.

Longe de ser uma utopia, a inovação social em modelos de negócios oferece abundância para resolver problemas sociais em larga escala. O movimento que está acontecendo no setor de saúde é um bom exemplo: entre junho de 2015 e junho de 2016, aproximadamente 1,6 milhão de brasileiros deixaram de ter planos de saúde, segundo a ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar). Quem perdeu o emprego e, portanto, o acesso a plano de saúde privado, por exemplo, não se contentará em depender do SUS. O atendimento público está longe de prover saúde de qualidade à população, já que o atendimento é precário, há hospitais sucateados, filas intermináveis e falta de leitos – só para citar alguns desafios. Na busca por alternativas – que não passam pela contratação de um novo plano – esse brasileiro encontrará as clínicas populares como Dr. Agora, empresa acelerada pela Artemisia. Nesse modelo, o consumidor paga R$ 89 por uma consulta de um clínico geral; o empreendedor, por sua vez, ganha na escala.

No setor da educação, os negócios acelerados pela Artemisia mostram que é possível melhorar a qualidade do ensino, investindo em um mercado potencial estimado em R$ 60 bilhões, de acordo com o estudo “Oportunidades em educação para negócios voltados à população de baixa renda no Brasil”. A pesquisa mostrou que o mercado brasileiro de ensino está entre os dez maiores do mundo, sendo que cerca de 85% dos alunos das crianças brasileiras estão estudando em escolas públicas. Isso faz com que muitos desses negócios tenham potencial para vender para o governo. O que potencializa ainda mais o impacto social do negócio.

A Geekie se destaca nesse cenário. O negócio de impacto social nasceu com a missão de ajudar a transformar a educação no país. Com este direcionamento, oferece produtos de forma acessível para estudantes de baixa renda. São aplicativos web e mobile que permitem adaptar o ensino ao perfil de cada aluno, oferecendo as ferramentas necessárias para desenvolver o potencial. O negócio já alcançou mais de 5 mil escolas públicas e privadas de todo país e impactou 5 milhões de estudantes – sendo que 1 milhão são de escolas públicas.

Os negócios de impacto social estão ganhando força e provando que é possível ter modelos lucrativos e, ao mesmo tempo,  ampliar o acesso a uma vida mais plena, próspera e feliz a todos; acesso a uma vida com dignidade e poder de escolha. Esses negócios não têm como prerrogativa substituir o papel do Estado, mas qualificam e complementam a ação estatal ao garantir acesso com mais qualidade aos serviços/produtos para quem mais precisa: a população brasileira de baixa renda.

Claro que há grandes desafios no caminho dos empreendedores de impacto social, mas há grandes vias para continuar consolidando esse ecossistema. Para a construção de um setor forte é necessária a atuação das grandes empresas e dos empreendedores. O olhar da colaboração propõe um desafio mais complexo. Porém, um desafio que vale a pena ser enfrentado, em especial porque os negócios de impacto social provam que é possível ganhar dinheiro e fazer a diferença no mundo. A Artemisia, com conhecimento de causa, sabe que os negócios de impacto social estão construindo um novo Brasil e um novo capitalismo.  

Maure Pessanha é coempreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no Brasil no fomento e disseminação de negócios de impacto social.

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