Ir direto ao conteúdo
O diálogo, a empatia e a consciência: uma carta de Lázaro para Yasmin
Foto: Ana Carolina Barros/Flickr Marcha Mundial das Mulheres

O diálogo, a empatia e a consciência: uma carta de Lázaro para Yasmin

Yasmin Thayná escreveu em sua coluna do ‘Nexo’ desta semana uma carta ao ator Lázaro Ramos em que ela conversa sobre a cobrança que sofrem atores e atrizes negros. E ele mandou esta resposta:

    Querida Yasmin,

    Não sei se em minha resposta a sua carta conseguirei ser tão eloquente, informativo, carinhoso e generoso como você. Fui surpreendido por suas palavras num dia em que refletia muito sobre os rumos de nossas vidas, da minha carreira e também sobre os próximos passos que darei e que daremos coletivamente. Às vezes a gente é visto como uma referência, sabemos que isto é importante, mas é impossível não nos perguntarmos: teremos força pra lidar com tantas expectativas? Outra grande dúvida que me aflige é o quanto dessa caminhada por direitos iguais é suportável pela força que temos para enfrentar a dureza da luta e o quanto são os afagos que recebemos. Sim, eu acredito que as lutas por direitos e por igualdade são suportáveis também pelo pouco de afago que se recebe, porque sem isso o grito não dura muito tempo, não temos força suficiente para chegar até a real transformação.

    Sei também que nem todos têm a possibilidade de bradar por direitos. E os que vislumbram essa possibilidade se encarregam por encarar esta luta. Ser representante de uma voz também é uma benção e por isso se faz necessário resistir às expectativas e frustrações.

    Tudo o que você escreveu fez muito sentido para mim, mas acho que essa carta fala com mais gente. Ela é para todo mundo que pensa o que é ter uma ação militante, para todos os jovens que estão começando uma nova história e construindo seus destinos. A conversa na PUC com os membros do coletivo negro e todos os outros presentes foi muito emocionante. Não foi um diálogo reto, não foi um diálogo cheio de certezas, mas me senti à vontade e acolhido para falar sobre minhas alegrias e dores. Eram muitos olhos, muitos ouvidos – e vieram muitas perguntas inteligentes que me fizeram rever algumas certezas. Isso foi lindo e importante. E eu desde já agradeço.

    Agradeço também por sua existência, Yasmin Thayná. E por seu filme “Kbela”. Você é parte de uma geração muito especial que vem mostrando com trabalho, talento e, sim, também com militância, que a gente precisa escrever uma nova história para o nosso país, que a gente precisa escutar as novas vozes. Seu filme me emocionou profundamente. Te quero perto, te quero perto no “Espelho”, estou e sempre estarei entre o público que acompanha os trabalhos que você fizer. E torço por você. Aliás, não só por você, mas por todos esses artistas que têm criado uma nova narrativa para esse mundo tão viciado.

    Não poderia me despedir sem dizer que sua carta fez com que eu tivesse mais forças para encarar esse desafio que é a publicação de um livro (“Na Minha Pele”). Um livro que demorou dez anos para ser feito e me deixou inúmeras vezes amedrontado, sem saber que reação despertaria no leitor. Porque nesse texto estão vômitos, dores e alegrias muito particulares – e vê-los expostos, causa-me sempre algum pavor.

    Sua carta me deu forças porque entendi que esses medos são meus, sim, mas não apenas meus. Por outro lado, somos muitos. Portanto, eu não sou o dono da verdade, mas posso propor diálogos, não é mesmo? Essa coisa tão em falta e ao mesmo tempo tão fundamental.

    Obrigado, Yasmin. E continuemos dialogando, porque escrever uma nova história não é fácil. O único caminho não é o das certezas absolutas e o das polarizações. O diálogo, a empatia e a consciência são passos importantíssimos.

    Lázaro Ramos é ator, apresentador de TV, escritor e diretor. Entre os filmes que estrelou estão “Madame Satã” (2002) e “Cidade Baixa” (2005). Interpreta o protagonista da série “Mister Brau”, da Globo. No Canal Brasil, apresenta o programa de entrevistas Espelho

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

    Mais recentes

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!