Foto: Eric/Flickr

O berço do crime e o crime no berço


Já existe evidência de que o estresse tóxico na primeira infância pode comprometer estruturas cerebrais importantes. Mas também há farta evidência científica de que políticas públicas podem ser bastante eficazes em proteger a criança do estresse tóxico e fortalecer seu lado emocional e cognitivo

Crimes bárbaros e ondas de violência sempre assustam e comovem a sociedade. Ao vermos imagens de detentos em rebelião no sistema prisional, é comum pensarmos em como se tornaram adultos violentos. Muitos deles, há menos de 25 anos, eram adoráveis e indefesos bebês... O que aconteceu nesse meio tempo que os levou a ingressar no mundo do crime? Entre os muitos fatores que contribuem para responder a essa pergunta, se destacam eventos que ocorrem desde muito cedo na vida dos indivíduos, durante a chamada primeira infância.

Grande parte das características humanas é particularmente maleável nos primeiros seis anos de vida. Hoje, sabemos que o ambiente em que a criança cresce influencia fortemente a formação dos circuitos neuronais e a expressão dos genes, definindo de modo considerável vários aspectos de seu comportamento futuro. Os estímulos e experiências vividos nessa fase contribuem para o fortalecimento das sinapses que parecem mais necessárias à adaptação do indivíduo e para o enfraquecimento e eventual poda das sinapses menos utilizadas.

Crianças que vivem em permanente estado de tensão tendem a manter ativado seu sistema de alerta e desenvolvem mais lentamente outras capacidades pouco relacionadas à sobrevivência imediata. Este tipo de situação, chamado de estresse tóxico, é tido como um dos principais obstáculos ao desenvolvimento infantil e seus principais fatores de risco podem estar no ambiente familiar e social da criança pequena, tais como agressão e maus-tratos ao bebê, violência doméstica, ambiente excessivamente barulhento e agitado, envolvimento de familiares com álcool e drogas, carência alimentar, entre outros.

Já existe evidência de que o estresse tóxico na primeira infância pode comprometer estruturas cerebrais importantes. Na região das amígdalas, por exemplo, há hipertrofia e hiperatividade em crianças nessas condições. Essa região está intimamente associada com as respostas emocionais a situações de tensão, tais como medo e raiva. Outra região que parece ser afetada pelo estresse tóxico é o córtex pré-frontal. Essa região do cérebro está ligada ao desenvolvimento do autocontrole. Pessoas com baixo autocontrole geralmente têm maior dificuldade em cumprir regras e supervalorizam o prazer imediato em comparação ao bem-estar futuro. Assim, um autocontrole muito baixo pode aumentar a probabilidade de a pessoa se envolver em atividades criminosas.

A boa notícia é que também há farta evidência científica de que políticas públicas podem ser bastante eficazes em proteger a criança do estresse tóxico e fortalecer seu lado emocional e cognitivo. De um lado, países que apostaram em escolas infantis de qualidade, com atenção individualizada e foco na construção de relações afetuosas e estimulação adequada (cognitiva, social e emocional), produziram não apenas grandes benefícios para a criança já durante sua infância, como também reduziram o envolvimento com violência e criminalidade na vida adulta. Exemplos bem-sucedidos já estudados incluem as pré-escolas americanas Perry School e Abecedarian, o programa Chicago Child-Parent Care Centers, entre outros. Nesses casos, as taxas de encarceramento na idade adulta foram de 30% a 50% menores na comparação com adultos que não haviam participado desses programas quando crianças. O envolvimento com drogas e álcool na idade adulta também foi drasticamente menor. Destacam-se ainda propostas curriculares inovadoras, tais como o Tools of the Mind e Amigos do Zippy – este último já implementado no Brasil –, que buscam conciliar o aprendizado social e emocional e o desenvolvimento cognitivo. Interessante ressaltar que esses currículos já foram implementados e testados em diferentes culturas, havendo evidência científica de êxito.

Por outro lado, os pais e responsáveis pelas crianças também podem ajudar. Diversos programas de visitação domiciliar com foco na estimulação e ensino de boas práticas para os pais têm se mostrado eficazes para a melhoria do ambiente familiar da criança pequena. Iniciativas como a Açev Foundation (Turquia) e a Family-Nurse Partnership (UK) enfatizam a importância da crença dos pais no potencial de seus filhos e do empoderamento das mães no domicílio, como facilitadores do desenvolvimento infantil saudável. Nesses programas, os pais são especialmente incentivados para estar atentos às iniciativas de interação social do bebê, como sorrir de volta quando o bebê sorri ou espichar uma conversa, estimulando a imaginação e o raciocínio. Que os pais tenham confiança em seus filhos é, então, um ingrediente essencial na formação de vínculo entre eles e de um ambiente tranquilo em que a criança se sinta confiante para explorar suas potencialidades. A junção de visitação domiciliar com o foco educacional é outra possibilidade que tem se mostrado promissora. Apoiado na bem-sucedida experiência pioneira de um programa jamaicano em que os pais eram ensinados a seguir um currículo de atividades de estimulação psicossocial com seus filhos, o Projeto de Estimulação na Primeira Infância, coordenado pela professora Alexandra Brentani, da USP (Universidade de São Paulo), foi recentemente adotado na periferia da cidade de São Paulo e já mostra alguns resultados positivos sobre o desenvolvimento infantil, especialmente para as crianças das famílias mais vulneráveis.

Desse modo, o contexto nacional apresenta diversos riscos, mas também oportunidades. Ao mesmo tempo em que existe um sentimento coletivo de que a agressividade e a propensão à violação das regras têm crescido, movimentos importantes surgiram nos últimos tempos com o intuito de proteger e estimular as crianças desde o seu nascimento. A recente aprovação do Marco Legal da Primeira Infância e programas voltados ao desenvolvimento infantil, tais como o Primeiríssima Infância e Primeira Infância Melhor, mostram que existe forte articulação de setores da sociedade para ampliar políticas de atenção à primeira infância que superem o foco puramente assistencial e que contribuam para que essa nova geração de brasileiros, hoje ainda bebês, não se envolva com a criminalidade daqui a alguns anos.

Luiz Guilherme Scorzafave é economista, professor de economia da USP e coordenador do Lepes (Laboratório de Estudos e Pesquisa em Economia Social), vinculado ao NCPI (Núcleo Ciência Pela Infância).

Daniel Santos é economista, professor da USP e coordenador do Lepes (Laboratório de Estudos e Pesquisa em Economia Social), vinculado ao NCPI (Núcleo Ciência Pela Infância).

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