Foto: Marco Gomes/Flickr

Cidade linda, coisa feia


O gesto do atual prefeito, opressor e violento, simboliza um projeto que quer apagar a possibilidade de construirmos uma cidade democrática, criativa, alegre, sem medo, afetiva com sua gente

Era final de 2014. Durante a escolha dos espaços e muros que seriam grafitados nos mais de cinco quilômetros de extensão do que viria ser o imenso painel da Avenida 23 de Maio, um grafiteiro, já de grande expressão, optou por um espaço menor e de menos visibilidade do que aquele que lhe fora previamente separado. Todos os organizadores da ação, pela prefeitura, espantamo-nos. Quando o questionamos e insistimos no espaço maior, sua negativa foi enfática: ele fazia questão daquele quinhão, pequeno e marginal, pois fora ali, cerca de alguns anos antes, que havia apanhado e sido preso pela Polícia Militar quando grafitava. Agora, seria também ali que usaria seu spray, livre e orgulhoso, com a mesma PM lhe protegendo e garantindo o seu espaço de artista.

Essa cena, forte e marcante, resume a importância política e simbólica do grafite na cidade de São Paulo e a relevância artística, cultural e social da política pública de valorização dessa arte urbana, implementada nos últimos anos, e que tem nos murais da 23 de Maio seu maior emblema.

A força da arte urbana paulistana

São Paulo é mundialmente reconhecida pela potência de sua arte urbana. E o que a faz assim são as suas próprias características de cidade, positivas e negativas. A vastidão de espaços carentes de cor. A criatividade que emerge do fluxo territorial e do caos urbano. Os artistas imersos na profusão de influências, misturas e tendências. A força da periferia, e da arte periférica, aquela que se impõe pela necessidade, que precisa gritar sua voz, onde seja escutada, sem pedir licença. A rebeldia. A iconoclastia. A desigualdade e a fobia. A tensão cotidiana de uma cidade sem horizonte ou ponto de fuga, que, em vez de escoar, concentra e aquece em pressão as sensações, sentimentos, pensamentos e opiniões, convertidos em expressão simbólica nua e crua. Nas ruas. A paisagem urbana, erigida sob o império  da propriedade, e que requer, como imperativo, tudo aquilo que é público. Como respiro e única alternativa: a arte pública.

Nos últimos quatro anos, quando o espaço e a convivência públicas ditaram, como premissa, as políticas da prefeitura, o grafite tinha que ser considerado. E foi. Por ideia e iniciativa pessoal do prefeito Fernando Haddad, foi proposta uma ação que entregasse para o grafite, como plataforma e veículo de expressão, uma das principais avenidas da cidade. O objetivo era dar visibilidade a essa arte fundamental, para a qual São Paulo é vocacionada, e fez os grandes nomes brasileiros que ganharam o mundo. Arte que, apesar disso, foi, historicamente, marginalizada, hostilizada e criminalizada pelo poder público. Era preciso valorizar artisticamente esse gênero, que já ganha o respeito, os museus e as bienais internacionais, e que ainda carece de reconhecimento estético no Brasil. Mas, também, havia a intenção clara de tornar a cidade mais bonita, colorida, arejada, capaz de proporcionar uma experiência de fruição sensorial, estética, de mais conforto, qualidade de vida e de prazer àqueles que trafegam em seus espaços e vias. Cidade linda é cidade que sabe onde está sua beleza. E no grafite, ela é arrebatadora.

A Secretaria Municipal de Cultura, à época, liderou a ação, juntamente com as pastas responsáveis por transportes, segurança pública, subprefeituras e várias outras. Uma ação a ser obrigatoriamente construída pelos próprios grafiteiros, com sua curadoria e execução. Nada de cima para baixo. O papel da prefeitura foi oferecer as condições para que os grafiteiros trabalhassem como quisessem, sem interferência no conteúdo, com as melhores condições e sem nenhuma amarra. Inúmeras reuniões aconteceram, com variados grupos de grafiteiros, diretamente com o prefeito e os secretários municipais, para conceber o conceito e o alcance da ação.  Foram mais de 200 artistas participantes do processo, de todas as regiões da cidade, e 70 murais pintados nos mais de 15 mil metros quadrados de extensão urbana. O investimento foi de R$ 1 milhão, uma cifra pequena, se considerados o número de artistas envolvidos, o ativo turístico gerado (São Paulo ganhou o maior museu a céu aberto da América Latina!), o impulso na economia criativa local (inclusive, com a vinda imediata de artistas de outras regiões do Brasil e de outros países) e a valorização dos logradouros beneficiados com as intervenções. Além disso, o grafite paulistano saiu das páginas policiais para as páginas de cultura dos jornais.

Cidade feia

Com a recente operação, espantosamente intitulada “Cidade Linda”, o atual prefeito João Doria Jr. cometeu um ato autoritário, ignorante culturalmente e desrespeitoso com a coisa pública.

Ao “limpar” os painéis da 23 de Maio, o novo prefeito comete dois absurdos: por um lado, deixa a cidade mais feia, cinzenta e sem personalidade; por outro, ataca a arte de rua e o trabalho de centenas de grafiteiros que, em diálogo com a prefeitura, construíram democraticamente aquele painel: decidindo, eles próprios, cada espaço a ser grafitado. Doria também demonstra profundo desconhecimento sobre a relevância estética da arte de rua, expressão marcante da cultura das grandes cidades no mundo inteiro. Tampouco reconhece o potencial desse tipo de ação como vetor da economia da cultura paulistana. Parece ignorar que São Paulo saiu da economia industrial para ter uma das mais pujantes economia de serviços, com sua rica gastronomia, museus, noite, turismo. Uma economia que depende fortemente da cultura para se desenvolver.

Nessa operação, há uma visão ultrapassada e elitista do “lugar”, entre muitas aspas, de se produzir e consumir arte. Para Doria, o que se faz fora dos ambientes tradicionais e equipamentos culturais não é arte, mas sujeira. Chama de “linda” uma cidade de paredes cinzas, que apaga as marcas identitárias de sua cultura.

Por fim, o prefeito Doria, este que se elegeu com o discurso da excelência na gestão, comete um ato operacionalmente equivocado, do ponto de vista administrativo, e extremamente oneroso aos cofres públicos. Joga fora o investimento público de R$ 1 milhão, gasta mais dinheiro com água e tinta cinza, e mobiliza desastradamente efetivos e efetivos de funcionários para apagar as obras de artes – de nomes como Osgemeos, Nunca, Kobra, Tikka e Crânio – valiosíssimas mundo afora. 

O gesto do atual prefeito, opressor e violento, simboliza um projeto que quer apagar a possibilidade de construirmos uma cidade democrática, criativa, alegre, sem medo, afetiva com sua gente. Nada é mais autoritário do que um governo tentando apagar o que de bom para a cidade e para as pessoas fizeram os governos anteriores. Especialmente no campo simbólico e das artes. Numa cidade linda como São Paulo, o gesto de seu prefeito foi feio, muito feio.

 

 

Juca Ferreira, sociólogo, foi ministro da Cultura e secretário municipal de Cultura de São Paulo.

Guilherme Varella, advogado e gestor cultural, foi secretário de Políticas Culturais do Ministério da Cultura e chefe de Gabinete da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

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