Foto: Vanessa Curci

A Cultura não é a crise, é a saída


Em vez de ter na cultura uma força para abarcar sua proporção continental e combater desigualdades históricas, o Brasil vive um momento de destruição de sua própria identidade

O país vive uma profunda crise. A cada dia mais desempregados, mais gente nas ruas e mais denúncias de corrupção e abuso de poder. Seria um momento importante para uma sociedade saudável buscar sua história, sua cultura, suas raízes.

O que se vê no Brasil em 2017 é justamente o contrário. Vivemos um momento de criminalização dos artistas, acusações públicas infundadas e uma enxurrada de retaliações.

É difícil isolar o drástico congelamento no começo do ano de mais de 43% da verba da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo dos acontecimentos recentes nas outras esferas de poder. O pífio orçamento da área foi um dos mais cortados por uma evidente motivação política. Teatros, orquestras e espaços culturais foram fechados pelo governo do estado de São Paulo. Um dos primeiros alvos do ataque promovido pelo governo federal foi o Ministério da Cultura.

A cultura nas três esferas públicas está sofrendo um desmanche. “Aqui tudo parece que era ainda construção, e já é ruína”. Um retrocesso como há muito não se via. Uma volta ao passado, tão cheia de raízes do Brasil que parece que a desconstrução é nosso “Destino Manifesto”. Existe no momento mais que um distanciamento profundo entre representantes políticos e artistas – existe um enfrentamento direto.

Na cidade de São Paulo, a Secretaria de Cultura vem cortando a linha de diálogo com a classe artística. Em poucos meses, alterou sem consulta o edital da Lei de Fomento à Dança. A falta de apoio entre a classe foi tamanha que o novo edital teve que ser prorrogado seguidas vezes para conseguir inscritos – enquanto a última edição havia batido recorde de inscrições. Os pedidos da classe para voltar atrás são ignorados assim como pareceres contrários às mudanças no edital previsto em lei. Não é um ato isolado. Outras rupturas ocorreram no diálogo entre a secretaria e artistas como o caso grave denunciado no Programa Vai em que selecionados pelo edital foram alterados posteriormente pela secretaria, o que gerou uma carta de repúdio da comissão de avaliação. Os confrontos seguiram em importantes projetos de formação como Piá e Vocacional. O ponto máximo foi a famosa gravação em que o secretário ameaça “quebrar a cara” de um gestor cultural da periferia e anuncia que vai usar a polícia para acabar com a programação da Casa de Cultura Ermelino Matarazzo. A resposta veio com a ocupação da secretaria e um ambiente a cada dia mais agressivo.

No governo do estado de São Paulo fechamentos e cortes atingiram em cheio a Banda Sinfônica, a Jazz Sinfônica, o Theatro São Pedro e o fechamento de várias das famosas Oficinas Culturais, espalhadas por todo o interior. Isso tem consequências profundas, ao interromper ações de formação e criação culturais, um estrago de décadas. Involução em um estado que ainda tinha muito para crescer.

Essa situação se repete em versões até mais drásticas por todo país. O Rio de Janeiro vive praticamente um estado de calamidade com o fechamento de diversos teatros, editais congelados e o Theatro Municipal sem pagamento.

Em Brasília, o Ministério da Cultura a cada dia mais cumpre uma função decorativa, com uma rotatividade na sua gestão absolutamente alheia à urgência de suas questões. Depois de ser quase extinto, foi rifado para líderes de partidos em troca de apoio político, em negociações partidárias que ocorreram muito longe dos canais de discussão com a classe artística. Em pouco mais de um ano, chegamos ao quarto ministro sem vínculo com a área e intervenções autoritárias em processos de decisão que envolviam as entidades.

Mesmo os incríveis resultados da Ancine para o cinema brasileiro (com crescentes bilheterias e pluralidade de produções) não privaram o setor de uma caça às bruxas macarthista.

A desinformação e as falsas-verdades tentam abalar ainda mais a já conflituosa relação que o brasileiro tem com sua cultura. Não bastasse ter programas, editais e leis cancelados sem justificativa, artistas ainda são alvo de acusações sensacionalistas, sem respeito aos fatos. Justamente no momento em que percebemos que as grandes somas correm para muito longe das artes, em contas escondidas, malas e jatinhos particulares – justamente dos que atacam a cultura. 

Em vez de ter na cultura uma força para abarcar sua proporção continental e combater desigualdades históricas, o Brasil vive um momento de destruição de sua própria identidade. Interrompe projetos de formação, desfaz corpos estáveis e desrespeita leis que se tornaram referência internacional. Isso vai custar caro ao país. É um prejuízo direto à população que deixará marcas profundas.

Através de nossa cultura refletimos sobre nossa história, sobre quem somos e quem podemos ser. O potencial cultural brasileiro é gigantesco. Temos uma efervescência que reflete nossa história, nossas misturas e múltiplas influências. Mas infelizmente nossa identidade está carregada de um potencial autodestrutivo de iguais proporções. Como um narciso às avessas, o brasileiro ataca o reflexo apresentado e hoje usa a cultura como bode expiatório de um país em clima de guerra. Mata o mensageiro para não escutar a mensagem.

São profundas as consequências históricas de momentos como esses. Momentos trágicos da história da humanidade foram marcados pela criminalização da cultura. Atacá-la não é atingir uma categoria, é atingir o país. Em espaços de encontro, troca e criação é que formulamos possíveis futuros, celebramos o presente, significamos o passado.

A cultura pode nos ajudar a transformar esses tristes tempos que vivemos e apanha muito por isso. É hora de resistência.

Pedro Granato é diretor, autor e professor de teatro. Presidente do MOTIN – Movimento dos Teatros Independentes e do teatro Pequeno Ato.

ESTAVA ERRADO: A primeira versão publicada deste texto não contemplava as últimas edições do autor a seu ensaio. A versão corrigida foi publicada às 12h33 do dia 25 de junho.

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