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Foto: Handout/Reuters/ 02.03.2016

Por que devemos exigir uma maior presença de mulheres na produção científica brasileira?


Em um ambiente em que o conhecimento que é valorizado e reconhecido é aquele produzido apenas por um grupo homogêneo e seleto de homens, coloca-se em xeque o próprio avanço da ciência

No dia 22 de abril, milhares de pessoas saíram nas ruas no mundo todo pela “Marcha da Ciência”, com o objetivo de reafirmar o papel vital da ciência na democracia e protestar contra os constantes cortes que têm sido feitos em pesquisas científicas. No Brasil especificamente, o cenário não nos é favorável: cortes de bolsas têm sido feitos pela CAPES desde 2015 e o atual governo parece não enxergar o desenvolvimento científico como prioridade no país. O cenário de investimento na academia brasileira se agrava mais ainda quando analisamos a distribuição de bolsas e incentivos à pesquisa de acordo com marcadores de gênero e raça.

Em um levantamento de dados feito pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) em 2015, foi observado de que forma tem ocorrido o investimento em pesquisa no Brasil de acordo com modalidade, área e gênero dos acadêmicos a partir dos anos 2000. Nota-se que apesar de mulheres receberem mais bolsas para pós-doutorado, doutorado, mestrado e iniciação científica que homens, no período estudado, as bolsas referentes ao estímulo à inovação para competitividade e produtividade em pesquisa foram, majoritariamente, distribuídas para homens (51% e 64%, respectivamente). Aqui vale dizer que essas duas modalidades de bolsas são destinadas aos “pesquisadores que se destaquem entre seus pares” segundo critérios normativos do próprio CNPq, de forma que o incentivo oferecido pela bolsa possa valorizar a produção científica desses acadêmicos.

No que se diz de publicações, segundo a pesquisadora Moema Guedes (“Bolsas e bolsistas de produtividade do CNPq: uma análise de gênero”), mulheres ocupam apenas 23% entre os pesquisadores na categoria 1A do CNPq, e esse número diminui mais ainda quando observamos o número de professoras titulares nas grandes instituições de ensino brasileiras. Soma-se a isso o fato de que, segundo os dados do CNPq, as áreas que mais recebem investimento de pesquisa são aquelas destinadas às ciências exatas e engenharia, duas áreas que ainda possuem pouquíssima representatividade feminina, apesar desta ter aumentado nos últimos anos mesmo que de forma insuficiente.

Ainda, quando se analisa a porcentagem de mulheres em cargos de poder, nos deparamos com uma escancarada diferença: enquanto elas ocupam apenas 37% dos cargos de liderança no setor privado, no setor público esse dado é menor ainda, com apenas 21,7%. Quando colocadas em perspectiva, todas essas informações revelam uma realidade na qual apesar de estarem inseridas no ensino superior em maior quantidade e desenvolverem pesquisas, as mulheres não parecem alcançar os grandes níveis de poder ou terem um reconhecimento proporcional à sua inserção científica. Por que isso ocorre?

As hipóteses para esse definhamento da presença das mulheres no decorrer da carreira, especialmente na pesquisa, são várias. Autores como Pierre Bourdieu, no livro “A Dominação Masculina” de 1999, vão dizer que tanto o sistema de ensino quanto a cultura se originam de uma estrutura que hierarquiza o masculino em relação ao feminino, de modo que ficam configuradas dominações simbólicas permanentes, sendo reproduzidas inconscientemente nas relações sociais.

a criação de conhecimento pressupõe a circulação e debate de ideias em nível simétrico

Outras hipóteses dizem respeito a ainda predominante ideologia de que a mulher é a responsável principal pelo cuidado dos filhos e do lar, devendo deixar em segundo plano seus planos profissionais ou então os reajustando às exigências da vida doméstica — o que geralmente implica na impossibilidade de exercer com plenitude suas ambições profissionais. Por fim, existem também discussões a respeito da falta de incentivo para que mulheres, desde sua infância, se interessem por ciência e tecnologia, algo simbolizado, por exemplo, pelo tipo de conteúdo que é oferecido às meninas: uma socialização que envolve brinquedos que incentivam um papel social relacionado à vida doméstica, como bonecas e "casinhas", enquanto meninos são incentivados à descoberta do mundo com brinquedos de aventura e que envolvem mecânicas complexas.

Apesar do já desfavorável cenário à presença feminina nos altos cargos acadêmicos, as perspectivas de melhora ainda se mostram distantes. Ações recentes do governo de retirar o status de ministério e tornar secretarias os órgãos que desenvolvem políticas para mulheres, igualdade racial, LGBTs e direitos humanos poderiam levar a uma perda ainda maior de recursos e importância dessas pautas no cenário nacional. Todo esse contexto se torna mais inóspito para as mulheres cientistas quando fazemos um recorte de raça para analisar a quantidade de mulheres negras que realizam pesquisas na área das ciências exatas: estas correspondem ao vergonhoso número de pouco mais de 5.000 (5,5% do universo de ciências exatas), segundo o CNPq.

É necessário manter em mente que movimentos como a “Marcha da Ciência” são de suma importância para reafirmar o valor de pesquisas acadêmicas para o desenvolvimento democrático. Mas essa afirmação, por si só, não é suficiente. Essa pauta deve caminhar lado a lado com aquelas que apoiam a diversidade do corpo de pesquisadores.

A produção nesse campo deveria espelhar o pluralismo crescente — mesmo que ainda manco — da academia. E a importância de um cenário científico mais plural está na própria concepção do que significa fazer ciência: a criação de conhecimento pressupõe a circulação e debate de ideias em nível simétrico. Assim, um ambiente que prioriza valorizar o conhecimento produzido por um grupo homogêneo e seleto — composto por homens brancos — ameaça a simetria, colocando em xeque o progresso científico. Se um grupo se apropria da produção reconhecida de conhecimento, as ideias que poderiam provocar rupturas correm um maior risco de serem deslegitimadas, algo que, invariavelmente, gera a construção de conhecimentos enviesados.

Bruna Castanheira de Freitas é pesquisadora no Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV e doutoranda no Instituto de Economia da UFRJ em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento.

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