Foto: Randall Hill/Reuters - 15.02.2016

Trump e sua difícil relação com a imprensa norte-americana


Ao declarar que a imprensa lhe é propositadamente desfavorável e partidária de Clinton, Trump comete tanto um acerto quanto um erro

O recém-eleito presidente Donald J. Trump coleciona desafetos por suas posições polêmicas e muitas vezes radicais. E entre os que mais exaltam os ânimos do republicano está nada mais que a grande imprensa norte-americana.

O eleitor se deparou ao longo da campanha de 2016 com acalorados debates na televisão, e não apenas de partidários de Trump contra os de Hillary Clinton, mas muitas vezes contra os próprios âncoras. Denúncias de discriminação, assédio sexual e manobras fiscais no mínimo duvidosas pipocavam a todo tempo na cobertura jornalística, principalmente na reta final da corrida presidencial, o que despertou a ira de Trump.

Além de preparar uma lista de veículos banidos dos eventos oficiais da campanha, o republicano rebateu publicamente a imprensa em diversas ocasiões. E, claro, não deixou de lado suas habilidades de showman. Em um comício na cidade de West Palm Beach, em outubro, Trump chegou a comparar jornalistas aos lobistas e às entidades financeiras por conta da suposta agenda política em favor da adversária democrata.

São inúmeros os casos anedóticos desta relação difícil de Trump com a grande imprensa norte-americana. Só que lhe é necessário um olhar mais atento. Ao declarar que a imprensa lhe é propositadamente desfavorável e partidária de Clinton, Trump comete tanto um acerto quanto um erro.

O acerto é que, de fato, os meios de comunicação massivamente o rejeitaram em favor de Clinton, e isto é perceptível pela quantidade de apoios editoriais recebidos por ambos os candidatos nesta campanha. A adesão explícita de jornais e revistas a candidatos não é uma novidade na política norte-americana, mas o curioso é a desigualdade na distribuição dos apoios editoriais na eleição de 2016. Segundo o American Presidency Project, dos 100 maiores jornais diários do país, 57 recomendaram voto a Clinton enquanto somente 2 o fizeram a Trump. Até o relativamente desconhecido candidato libertário Gary Johnson, que obteve 5 apoios, superou o republicano.

A rejeição de Trump foi tão ampla que mesmo jornais considerados conservadores o abandonaram: o “The Arizona Republic” apoiou os Democratas pela primeira vez em 126 anos. Este só é um exemplo dentre vários. O mau desempenho é ainda mais notável se comparado à disputa de 2012, quando o republicano Mitt Romney obteve suporte de 35 editoriais contra 41 do democrata Barack Obama.

Houve um abismo inédito entre os apoios editoriais dados aos candidatos em 2016.

Isto ocorreu pela fidelidade da imprensa a Clinton, como afirmou seu oponente? Não exatamente, e é neste aspecto que Trump erra. Os grandes meios de comunicação na verdade tendem a rejeitar posições radicais fora da política mainstream, como as defendidas por ele, e isto ocorre por algumas razões.

Trump é um claro ponto fora da curva e isto não é bem recepcionado por uma imprensa competitiva e dotada de senso de dever público

A primeira delas é a disputa por leitores. O mercado norte-americano é composto principalmente por grupos de mídia privados e competitivos, que observaram ao longo do tempo que a polarização não é um bom negócio. Adotar posições centristas típicas do jogo político tradicional nos Estados Unidos é a melhor forma de maximizar a satisfação dos leitores, lógica semelhante às estratégias dos Partidos Democrata e Republicano para atrair votantes.

Trump rompeu com as linhas tradicionais de seus correligionários ao propor políticas inusitadas e por vezes eticamente questionáveis e isto trouxe para si a desconfiança dos atores políticos estabelecidos, a exemplo da grande imprensa.

Outra razão do rechaço a Trump está na cultura jornalística norte-americana. O jornalismo no país é altamente profissionalizado e busca projetar uma visão de dever público na preservação do interesse geral do país, enxergando a si próprio como uma voz independente no cenário político. As polêmicas políticas e, importante não esquecer, as dúvidas sobre sua integridade moral puseram Trump e a imprensa em rota de colisão.

Assim como a imprensa nos Estados Unidos não foi simplesmente partidária de Clinton, seria superficial afirmar que Trump foi rejeitado apenas por propostas descabidas ou denúncias. Trump é um claro ponto fora da curva na política tradicional norte-americana e isto não é bem recepcionado por uma imprensa competitiva e dotada de senso de dever público.

O fato agora é que Trump deixou a posição de candidato excêntrico e será o 45º presidente dos Estados Unidos. Resta observar como a difícil relação entre o republicano e os meios de comunicação se desenrolará nos próximos meses. Trump tem demonstrado que ainda não superou o tratamento que lhe foi dado pela imprensa ao afirmar recentemente que a cobertura jornalística é “revoltante” e “desonesta”.

Se por um lado a grande imprensa poderá manter sua posição de pretensa garantidora do interesse público ao fazer marcação cerrada em Trump, ela também poderá optar pelo pragmatismo de normalizá-lo para preservar o acesso aos bastidores e novidades diretamente da Casa Branca. Trump agora é uma realidade inesperada e resta à imprensa decidir como lidará com ela.

Leandro Almeida Lima é internacionalista e mestrando em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Já cobriu política doméstica e externa norte-americana no Observatório Político dos Estados Unidos (OPEU).

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