Foto: Carlo Allegri/Reuters - 14.06.2016

Massacre de gays na Flórida: quando é melhor atirar no espelho do que se enxergar


‘Não vemos as coisas como são. Vemos as coisas como somos’

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A epígrafe é um empréstimo que vem do neurobiólogo chileno Humberto Maturana, 87. Crítico do realismo matemático, crença que diz que há uma realidade preexistente regida por princípios matemáticos, ele é criador da "Teoria do Conhecimento". Dentre outras reflexões, a teoria diz que os estímulos externos, que surgem a todo momento, nos influenciam. Mais que isso: estamos sempre respondendo a eles, nos renovando e sofrendo mudanças.

Do ponto de vista da sexualidade, a maioria dos indivíduos não entende a maior parte das expressões que provém dos gêneros humanos, mas unicamente o que consegue ver. Isso quer dizer que só se muda se modificamos o olhar sobre o que vemos, basicamente a partir de novos estímulos que recebemos.

Se, por exemplo, não conhecemos pessoas verdadeiramente assexuadas na família, no trabalho ou no nosso grupo de amigos, não quer dizer que elas não existam. Somente a partir do momento que temos acesso a mais informações sobre a assexualidade podemos, ou não, apurar nossa inteligência e ampliar conhecimentos a respeito dessa expressão sexual que abrange 1% dos adultos em todo o planeta. Sabemos muito pouco sobre nós, e, principalmente, sobre os outros.

O massacre de 49 frequentadores da boate Pulse, em Orlando, nos Estados Unidos, neste mês de junho, reacendeu a discussão sobre homofobia e homossexualidade enrustida ou sobre o medo de tolerar a diferença, conhecer-se e assumir-se. O assassino Omar Mateen, norte-americano, filho de afegãos, não só era cliente da casa, de clientela preponderantemente homossexual, como trocava mensagens com homens homossexuais em aplicativos de encontros e/ou de sexo. Além disso, segundo sua ex-mulher, Sitora Yusifiy, ele era "violento" e possuía "tendências homossexuais".

O quadro é muito claro até este momento. Mateen lutava contra sua orientação sexual e tudo o que a enfatizasse, como se ele precisasse ter atirado no espelho para não precisar mais se enxergar, para não ter de lidar com esse sentimento voraz, desconhecido ou pouco discutido em casa ou, ao contrário, destituído de valor. Até que ponto reprimir uma orientação sexual é prejudicial ao indivíduo e ao coletivo foi a pergunta que muita gente se fez depois desse episódio.

sexualidade reprimida muitas vezes é reflexo de uma família com dificuldade em elaborar questões relativas ao assunto

Ele reforçou uma preocupação recorrente principalmente em núcleos familiares: como lidar com um filho homossexual em conflito ou "no armário até dentro de casa"? As indagações estão diretamente ligadas à maneira como abordar o assunto, como responder se ele propuser a conversa, se há tratamento, reencaminhamento de orientação ou mesmo propostas de punição. Vamos por partes.

Primeiramente, o movimento precisa vir do filho. A sexualidade é dele, e não da família. A ideia é ampará-lo caso ele peça uma orientação, apoiá-lo se pressionado pela sociedade a deixar de ser o que é. Cada pessoa tem sua própria estrada a percorrer, e no mundo ideal o indivíduo deveria ter em casa todos os instrumentos necessários para esse caminhar. Sabe-se, porém, que sexualidade reprimida muitas vezes é reflexo de uma família com dificuldade em elaborar questões relativas ao assunto. As causas são multifatoriais, e não restrita a dogmas religiosos, como se supõe.

A nossa cultura se assenta numa estrutura de poder heteronormativa francamente favorável ao homem heterossexual cisgênero e branco, modelo defendido, inclusive, por algumas minorias. De um jeito ou de outro, todas as outras variações representam grupos minoritários, mesmo que, por exemplo, as mulheres sejam numericamente maioria. Assumir-se homossexual para si é, portanto, complicado já na largada, porque se sabe de antemão que o vento não será a favor. Isso tem um preço, e é alto.

"Sair do armário" é um processo de integração, mas, sem a menor dúvida, promove um movimento com tempos diferentes para cada indivíduo. Depende dos apoios que ele adquire ao longo desse percurso, a começar de si. Se seu filho(a) chamar você no canto e lhe disser que sofre porque é homossexual, transexual, bissexual ou assexual, eu diria que sua primeira iniciativa seria a de aliviar o sofrimento dele ou dela.

Se for uma dor intrínseca, oferecer alguns amparos objetivos, como abraço ou pedir ajuda a algum psicoterapeuta. No entanto, se ele ou ela disser que sofre por causa da rejeição de um grupo ao seu comportamento, quem, a rigor, precisaria de remédio, abraço e reflexão seriam esses indivíduos que o(a) julgam. Ele ou ela precisam saber que podem contar com você se caírem ou forem empurrados para algum precipício moralista.

Todo mundo quer abraço. Tanto Mateen quanto os indivíduos que ele matou

Ressalte-se, aqui, que a realidade/verdade é o discurso que construímos. E da construção vem a ciência. E da ciência vem a cura. E da cura a indústria química. E as drogarias. E a Igreja, a família, o Estado. A construção de discurso/interesse de um grupo (econômico, em grande parte) não implica que há algo ou alguém a ser curado em sua expressão de sexualidade. O que eu não sei é apenas a respeito de uma ideia de caminho diferente do meu. Não um desvio, um erro, uma doença.

Ser homossexual, porém, significa que a pessoa, sim, enfrentará desafios que terão atenuantes diretamente relacionados à situação em que ela estiver inserida, desde o tipo de educação recebida ao respeito profissional que obteve. Mesmo que no Brasil seja permitido o casamento civil de pessoas do mesmo sexo, iniciativa do Poder Judiciário, o último relatório sobre o assassinato de homossexuais, divulgado pelo Grupo Gay da Bahia, mais antiga entidade do gênero do Brasil, indicou que 318 gays foram mortos em 2015 em todo o país. Um a cada 28 horas, aproximadamente. Muitos porque simplesmente são, veja você, gays.

Os Estados onde ocorreram mais casos em números absolutos foram São Paulo (55 assassinatos) e Bahia (33). No entanto, se for comparada com a população total, Mato Grosso do Sul foi considerado o estado mais homofóbico: 6,49 homicídios para cada um milhão de pessoas, seguido do Amazonas, com 6,45. Manaus foi considerada a capital mais "homofóbica" de 2015, com 23 assassinatos - 11,3 mortes para cada milhão de habitantes, seguida de Porto Velho, cinco mortes. Uma travesti e um gay brasileiros foram assassinadas no exterior: Espanha e Estados Unidos. Foram incluídos também cinco suicídios de homossexuais masculinos.

O Brasil também é campeão mundial em assassinatos de travestis e transexuais. Cinquenta por cento das pessoas trans mortas eram brasileiras em 2015. Por milhão de habitantes, ficamos em quarto lugar, depois de Honduras, Nova Caledônia e Guiana. Vale ressaltar que o preconceito e a discriminação contra transgêneros são conhecidos como transfobia, mas isso é assunto para outro artigo.

Como se vê, há uma fatura a ser paga por ser o que se é. Creio, porém, que se o assassino da boate Pulse conhecesse melhor Humberto Maturana, talvez, e só talvez, não pensasse em matar 49 pessoas da mesma espécie. Todo mundo quer abraço. Tanto Mateen quanto os indivíduos que ele matou. Quando o abraço não vem (é trocado por pólvora) é porque algo aconteceu ou não poderia ter acontecido. E, assim, ninguém ganhou salvo-conduto para transitar nos dias felizes daquele clube.

João Luiz Vieira é jornalista, roteirista, autor de teatro, educador sexual (sexólogo) e coordenador de dois livros sobre sexualidade: "Sexo com Todas as Letras" (e-galáxia, fora de catálogo) e "Kama Sutra Brasileiro" (Editora Planeta).