Foto: Klaus Mitteldorf

Do rap ao rap: Emicida de 2015 não é o Racionais de 1990... nem o Brasil


O problema de 'fazer sucesso' e ao mesmo tempo 'ser contra o sistema', amplamente tematizado pelo Racionais, é visto pela nova geração como questão superada

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. A maior parte de nossos conteúdos são exclusivos para assinantes, mas esta seção é de acesso livre sempre. Aproveite para experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

O disco "Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa", lançado em agosto, parece confirmar Emicida como principal nome do rap nacional, depois de 25 anos de centralidade absoluta do grupo Racionais MC’s. A hipótese aponta para mais que uma simples mudança de protagonista. Ela fala sobre as transformações do rap no Brasil, que se inscrevem no arco histórico do ciclo de redemocratização.

Patrocinado pelo programa Natura Musical e com participações de Vanessa da Mata e Caetano Veloso, Sobre Crianças... traz raps poderosos como “Mãe” e “Boa Esperança” além de achados como a sacudida “Mufete” e a dulcíssima “Amoras”. A aproximação com a MPB e o patrocínio de empresas não são fatos inéditos no rap nacional. Mas se em Marcelo D2 ou Rappin Hood o flerte com o samba e outros gêneros brasileiros eram quase experiências laboratoriais (“à procura da batida perfeita”), em Emicida o trânsito entre estilos tem fluência e naturalidade. Quanto à parceria com a Natura, trata-se de apenas mais uma das muitas iniciativas da Laboratório Fantasma, empresa criada por Emicida e seu irmão Evandro Fióti. Atuando como selo, editora, produtora e grife de moda, a firma se consolida como o mais bem-sucedido negócio na história do hip-hop nacional e um case no mercado musical brasileiro, em plena reconfiguração pós-declínio da indústria do disco.

Lembremos então do primeiro disco do Racionais, Holocausto Urbano, lançado poucos meses depois da posse de Fernando Collor, em 1990. O enfrentamento de classe e de raça que Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue e KL Jay propunham em músicas como “Pânico na Zona Sul”, “Racistas Otários” e “Hey Boy”, e sua recusa renitente aos brilhos da mídia e do mercado traziam uma novidade política e estética sem precedentes. O rap nada tinha do caráter conciliatório que sustentou o grande projeto modernista de construção de uma Cultura Brasileira, inspiração para a Bossa-Nova, a Tropicália e a MPB do anos 70/80. Já em 2001, José Miguel Wisnik via o rap do Racionais como “um acontecimento forte e significativamente fora do esquadro popular-nacionalista”.

O grupo produzia na ressaca dos anos de ditadura, quando a militância de base ligada ao sindicalismo ou às organizações eclesiásticas arrefecera, deixando as camadas pobres da população ainda mais expostas à violência policial, como atestam os sucessivos e tristemente notórios episódios que marcaram época (Carandiru, Candelária, Vigário Geral, entre outros). Em tempos de hiperinflação, altos índices de desemprego e congelamento de salários, o discurso triunfalista do mercado e as teologias da prosperidade invadiam todas as esferas da vida social. No rap “Fim de Semana no Parque”, de 1993, dedicado “a toda comunidade pobre da Zona Sul”, a prosa era firme e o conflito era franco: “Olha só aquele clube que da hora/ Olha o pretinho vendo tudo do lado de fora” [...] “Olha quanto boy, olha quanta mina/ Afoga essa vaca dentro da piscina”.

Em 1997, já no Brasil do Plano Real, o disco Sobrevivendo no inferno vendeu mais de um milhão de cópias. Desejado ou não, o sucesso comercial veio – trazendo consigo novas contradições, sobre as quais o grupo refletiria no lançamento seguinte, Nada como um dia após o outro dia, de 2002. “Negro drama/ Entre o sucesso e a lama”, diz uma das canções mais fortes do álbum. O longo silêncio que se seguiria até o disco seguinte, que só viriaem 2014, é indício de que o grupo passava por importantes questionamentos.

Em 2012, Mano Brown afirmou: “O Brasil vive um momento novo e nós temos que saber atuar em cima desse momento. Está sobrando um pouco mais de dinheiro, a informação está chegando mais rápido”.

Em 2012, Mano Brown afirmou: “O Brasil vive um momento novo e nós temos que saber atuar em cima desse momento. Está sobrando um pouco mais de dinheiro, a informação está chegando mais rápido”.

No período que corresponde aos dois mandatos de Lula e ao primeiro governo Dilma, os integrantes do Racionais atuaram separadamente em vários projetos que quebravam alguns dos principais paradigmas estabelecidos na trajetória do grupo, tais como o patrocínio de grandes empresas, a aparição em programas da TV Globo e a exploração de projetos estéticos mais leves e festivos. A liberdade acordada para a atuação individual dos membros era bem maior daquela que se permitia o grupo.

Desde 2012, a profissionalização da gestão da carreira do Racionais vem sendo conduzida pela brilhante Eliane Dias, esposa de Mano Brown. Aconselhada pela empresária Paula Lavigne, que demonstrara interesse em produzir o trabalho dos rappers, Eliane contratou uma assessoria de imprensa e lançou o site oficial do grupo – iniciativas até então inéditas e que impactaram o lançamento de Cores & Valores, em novembro de 2014.

No disco novo, a proliferação de metáforas e o abuso de aliterações e trava-línguas rítmicos fazem com que as letras percam a dimensão narrativa mais imediata, padrão que atravessara toda a produção do grupo até então. A ausência de “histórias em linha reta” também resulta em faixas bem mais curtas. O saldo é uma certa aproximação estética com o trabalho de Emicidae, sobretudo, um notável reposicionamento no que diz respeito aos mecanismos do mercado da música, que, por sua vez, são muito diferentes dos que operavam nos primeiros anos de carreira do Racionais (basta lembrar que não havia internet e que as grandes gravadoras reinavam absolutas).

Nos quinze anos que separam Emicida de Mano Brown, pelo menos duas coisas mudaram no Brasil: a maior escolaridade e o maior acesso a bens de consumo, ambas potencializadas pela democratização da internet de banda larga e da tecnologia em geral. A maioria dos rappers da geração de Emicida tem diploma de curso técnico ou universitário e muitas vezes começou no rap em festivais de música promovidos nos colégios, acessando a internet em lan-houses ou em computadores pessoais para ouvir, produzir e divulgar música. A grande desenvoltura no trato com a mídia e com as noções de “carreira” e “mercado” se devem, ao menos em parte, a essas novas configurações. Em comparação, nenhum dos quatro integrantes do Racionais concluiu o ensino médio, e apenas com muita dificuldade podia acessar os meios técnicos do sistema da música.

A noção de indústria da música hoje é bem diversa daquela que vigorou entre os anos 60 e os anos 90. Como toda produção cultural, o rap carrega ambiguidades, movendo-se no mundo enquanto o mundo se move.

A noção de indústria da música hoje é bem diversa daquela que vigorou entre os anos 60 e os anos 90. Como toda produção cultural, o rap carrega ambiguidades, movendo-se no mundo enquanto o mundo se move.

O problema de “fazer sucesso” e ao mesmo tempo “ser contra o sistema”, amplamente tematizado pelo Racionais, é visto pela nova geração como questão superada. Emicida defende o “direito de fazer sucesso” desde o hit “Triunfo”, que o lançou em 2008. No disco novo, aventura-se para além do registro característico do rap e solta a voz em melodias com alturas – algo que outro rapper, Criolo, já vinha fazendo e que é, quase que por definição, um recurso musical conciliador (por oposição à aspereza do canto-falado). A aproximação com Criolo é eloquente. Os dois lançaram DVD juntos, produzido por Paula Lavigne – confirmação do trânsito intenso de ambos no “mundo da MPB”, contando com a colaboração estreita de artistas e produtores, além da benção de medalhões como Milton Nascimento, Caetano Veloso e Chico Buarque. Numa palavra, Emicida e Criolo inseriram o rap na “linha evolutiva” da música popular brasileira – estética e politicamente.

O musicólogo Carlos Sandroni propôs uma provocadora comparação entre MPB e uma sigla sonoramente próxima: MDB, cuja transformação em PMDB representou um momento de diluição de sua força enquanto partido de oposição, tornando-se uma espécie de saco de gatos. Com o fim da ditadura, também a sigla MPB perdeu sua unidade político-estética e tornou-se pouco mais do que uma etiqueta de mercado.

De maneira correlata, o primeiro grande ciclo do rap no Brasil, com o Racionais como vetor, parece ter alcançado um ponto de inflexão. Ao se inserir como “música negra no mercado hegemônico”, na expressão do crítico Walter Garcia, o rap dá um passo importante e arriscado: passa a circular e pautar com mais força a produção de outros gêneros musicais, ao mesmo tempo que dilui sua unidade político-estética.

É nessa nova configuração que Emicida se afirma como grande protagonista da cena nacional. Não longe de completar dez anos de carreira, já mostrou que é um artista sólido e que veio para ficar. Mas não se espere a mesma carga de enfrentamento político que o grupo de Mano Brown imprimiu nos anos 90. O Brasil mudou – o mercado da música e o rap também.Ricardo Teperman é músico e antropólogo, doutorando no departamento de Antropologia da USP e autor de Se Liga no Som - as transformações do rap no Brasil (ClaroEnigma, 2015).