A naturalização do racismo e as ideias distorcidas sobre ele

As forças do retrocesso agem em todas as frentes, da violência física ao desonesto debate intelectual

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O assassinato inclassificável do congolês Moïse Kabagambe e o apoio massivo a discursos que pregam a ideia de racismo reverso, ou que pretendem desqualificar a luta contra a discriminação, são sombras que pairam sobre nossos tempos na tentativa de naturalizar e legitimar o racismo. São mais uma manobra de racistas de plantão, que muitas vezes se disfarçam de pessoas bem-intencionadas, para retrocedermos na conquista de direitos e igualdade social. As forças do retrocesso agem em todas as frentes, da violência física ao debate intelectual — este, no entanto, desprovido de qualquer honestidade, recorrendo a proposições preconceituosas do senso comum e dando-lhe um verniz acadêmico para confundir os desavisados.

Existem muitas ideias distorcidas quando se fala sobre racismo. Uma delas é achar que o termo “racismo” é apenas um sinônimo simples de “preconceito”, quando, na verdade, refere-se a uma estrutura de poder que escravizou e matou milhões de pessoas negras nos últimos séculos. E que continua a oprimir, a segregar e a matar.

É preciso entender que o racismo é mais do que preconceito. É um sistema de poder que oprime estruturalmente. Portanto, é pueril falar em racismo reverso, pois, para os negros, é atualmente impossível estabelecer um sistema de opressão igual ao que os vitimou ao longo da história. Em suma, racismo e preconceito racial são coisas diferentes, mas propositalmente confundidas por quem quer deslegitimar a luta por direitos.

O racismo secular vivenciado pela humanidade criou uma tensão racial entre negros e brancos que existe até hoje. O racismo, por exemplo, criou mecanismos sociais e ideológicos que permitiram a escravidão de africanos e seus descendentes durante séculos. E que nos dias atuais atrasa a conquista da igualdade por meio da negação de direitos: mulheres e homens negros têm menos acesso à educação, serviços públicos e empregos. Recebem salários menores e são menos promovidos em suas carreiras. E são as principais vítimas da violência urbana no Brasil e no mundo.

Existem muitas ideias distorcidas quando se fala sobre racismo. Uma delas é achar que o termo racismo é apenas um sinônimo simples de ‘preconceito’, quando, na verdade, refere-se a uma estrutura de poder

O assassinato de Moïse, por exemplo, demonstra que o racismo no Brasil é profundo e repleto de nuances. Foi uma tragédia que nos envergonha enquanto país. Moïse saiu do Congo fugindo da violência e da fome. Mas foi no Brasil que encontrou a morte. É uma cruel ironia. Ou não tão ironia assim. Pois o fato é uma pequena amostra do que acontecia corriqueiramente no período escravista, quando pessoas de vários países africanos eram traficadas para o Brasil, onde eram escravizadas e, muitas vezes, torturadas e mortas.

O estado do Rio de Janeiro precisa oferecer amparo à família do congolês - o mínimo que se pode fazer em respeito à sua memória. Recentemente, a prefeitura formalizou a concessão de dois quiosques da Barra da Tijuca à família de Moïse. A proposta é que o espaço seja transformado em um memorial e ponto de transmissão da cultura de países africanos. Que esse memorial cumpra a sua função de preservar na nossa memória essa barbárie. Pois o assassinato de Moïse mostra nosso fracasso como nação. Agora, devemos, no mínimo, honrar sua memória para que a luta por justiça e contra o racismo nunca esmoreça.

O racismo não dá descanso. E tenta se impor a todo momento, em todos os espaços. Desta vez, uma loja do aeroporto de Salvador foi flagrada por um turista vendendo estatuetas representando mulheres e homens negros escravizados. Racismo puro, sem o menor pudor e com o maior descaramento. Como pode uma loja, localizada numa das cidades mais negras do mundo, na cidade que mais participou do tráfico de escravizados no Brasil, vender produtos que homenageiam um passado tão trágico? Embora as peças tenham sido retiradas da vitrine, o estrago já feito é irreparável.

Me pergunto qual é o real nível de intolerância do brasileiro em relação ao racismo. Porque me parece que existe uma conivência velada, que se manifesta aqui e ali frequentemente, seja em atos de violência ou em episódios mais sutis, de falas e discursos intelectualmente duvidosos. O fato é que estamos passando por um teste, no qual corremos um grande risco de sermos reprovados.

Ireuda Silva é mãe, palestrante, ativista social, racial e de gênero e vereadora de Salvador (Republicanos). Iniciou sua carreira no mundo empresarial, foi coordenadora da Iurd TV, canal da Igreja Universal do Reino de Deus, durante 18 anos e criou o projeto Mulheres Notáveis, que se dedica a promover a autoestima e a autoafirmação da mulher. Atualmente, é graduanda em gestão pública e está no segundo mandato como vereadora, após ter sido reeleita com 12.098 votos (a mulher mais votada da Bahia). Na Câmara Municipal de Salvador, é presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher e vice-presidente da Comissão de Reparação. Criou a campanha carnavalesca, reconhecida internacionalmente, “Meu corpo não é sua fantasia”, que visa alertar para o assédio sexual e a violência contra a mulher.

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