Vidas femininas importam: a luta das mulheres na pandemia

Os índices de violência doméstica e feminicídio aumentaram durante a crise sanitária. Agora, mais do que nunca, surge a necessidade de encamparmos um movimento permanente pelas vidas das mulheres

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“Não serei livre enquanto alguma mulher for prisioneira, mesmo que as correntes dela sejam diferentes das minhas”. Essa frase da escritora e ativista norte-americana Audre Lorde expressa uma solidariedade que ainda nos falta muito nos dias de hoje. Embora os problemas enfrentados pelas mulheres nunca tenham sido tão debatidos, será que de fato estamos fazendo algo consistente, fora de nossas bolhas, para mudar a realidade?

Quando milhares de mulheres operárias, há mais de 100 anos, decidiram ir às ruas em vários países, fazer assembleias e paralisar atividades, elas sonhavam com um mundo onde a vida humana não fosse precificada a partir do nosso gênero. Muita coisa mudou de lá para cá: conquistamos o direito ao voto, ampliamos nosso acesso à educação, ao trabalho, a espaços de poder, e melhoramos nossas condições de vida. A despeito de tantos avanços, o Dia Internacional da Mulher, lembrado em 8 de março, permanece carregado de significado, por uma série de razões cada vez mais óbvias a todos nós.

Nunca vivemos um momento tão difícil. Para além dos mais de 270 mil mortos e dos milhões de desempregados, a pandemia do novo coronavírus intensificou vários problemas sociais contra os quais lutamos há muito tempo no Brasil. Vou falar aqui sobre a questão da mulher, que por si só já rende debates sob diferentes perspectivas.

Num primeiro aspecto, o isolamento social aproximou ainda mais as mulheres de companheiros agressores. O índice de violência doméstica disparou em 2020, bem como o de feminicídios, que aumentaram cerca de 2% já no primeiro semestre do ano. Além dos assassinatos de mulheres por motivações de gênero, há outro tipo de feminicídio, paulatino, indireto e silencioso. Pesquisas mostram que grande parcela das vítimas de violência doméstica desenvolve problemas psicológicos e emocionais, como depressão e ansiedade, levando, por exemplo, ao suicídio.

A violência doméstica também é a principal causa de quadros depressivos e de suicídio entre as mulheres, conforme o Boletim Epidemiológico de Tentativas e Óbitos por Suicídio no Brasil. Outra pesquisa mostra que a violência doméstica e o estupro são a sexta causa de morte em mulheres de 15 a 44 anos.

Para que a luta das mulheres seja viável, o poder público tem papel fundamental na elaboração de políticas que vão de punições mais rigorosas até disseminação de informações

Além disso, as mulheres imersas nesse contexto tóxico também podem desenvolver comportamento agressivo, alimentando um círculo vicioso de violência cujo desfecho é quase sempre trágico para elas. Está acontecendo um feminicídio silencioso para o qual precisamos olhar e pensar políticas que vão além da punição aos agressores. É preciso cuidar das vítimas.

Vamos falar agora sobre empregabilidade. Pesquisa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgada nesta semana revelou uma realidade que já era conhecida. Mesmo sendo hoje mais instruídas que os homens, as mulheres ainda têm dificuldades de chegar a cargos de chefia. Apenas 37,4% dos cargos gerenciais em 2019 eram ocupados por mulheres.

A desigualdade é ainda mais profunda quando se trata de mulheres negras. Olhando através da questão racial, mulheres negras com crianças de até 3 anos tiveram um nível de ocupação de 49,7% em 2019. Entre mulheres brancas, o percentual ficou em 62,6%.

Conforme os dados acima, as mulheres negras constituem um subgrupo muito mais discriminado, sendo o principal alvo da violência. Segundo levantamento do G1, 75% das mulheres assassinadas no Brasil, no primeiro semestre de 2020, eram negras. Outra aferição, feita pela Rede de Observatórios da Saúde, mostrou que as mulheres negras sofreram 73% dos casos de violência sexual no Brasil em 2017. Tudo isso revela as várias faces e nuances do machismo e do racismo, principalmente quando caminham juntos.

Quando assumimos o mandato na Câmara de Salvador, resgatamos o Prêmio Maria Felipa, que homenageia mulheres negras que se destacam na luta contra o racismo e o machismo. A honraria é concedida por ocasião do Dia Internacional da Mulher Latina e Caribenha e do Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra (25 de julho).

Levantar a bandeira da mulher é dever de todos. Os homens precisam ser aliados na luta, uma vez que é por causa deles que existe a desigualdade de gênero. Para que isso seja viável, o poder público tem papel fundamental na elaboração de políticas que vão de punições mais rigorosas até disseminação de informações. Aqui na capital baiana, lançamos a campanha “Meu corpo não é sua fantasia”, que passou por todos os circuitos do carnaval alertando para o assédio sexual e a violência contra a mulher. Em 2021, o projeto foi realizado de forma online, considerando a pandemia do novo coronavírus. Neste ano, estamos também com a campanha “Marias, salvem suas vidas!”, com foco específico no feminicídio.

Porém, iniciativas como essas devem perdurar o ano todo, atuando no cotidiano das pessoas, promovendo a reflexão e a solidariedade. No ano passado, o assassinato de George Floyd nos Estados Unidos deflagrou mundialmente o movimento “Vidas negras importam”. Agora, mais do que nunca, surge a necessidade de encamparmos um movimento permanente pelas vidas femininas.

Pergunto: até quando aceitaremos que o mundo seja tão injusto? Lutar contra as desigualdades é um dever de todos nós enquanto cidadãos e cidadãs e membros de uma sociedade civilizada, que avançou muito nos últimos séculos em diversos aspectos. Só assim continuaremos andando para frente, mesmo que o caminho seja pedregoso.

Ireuda Silva é mãe, palestrante, ativista social, racial e de gênero e vereadora de Salvador (Republicanos). Iniciou sua carreira no mundo empresarial, foi coordenadora da Iurd TV, canal da Igreja Universal do Reino de Deus, durante 18 anos e criou o projeto Mulheres Notáveis, que se dedica a promover a autoestima e a autoafirmação da mulher. Atualmente, é graduanda em gestão pública e está no segundo mandato como vereadora, após ter sido reeleita com 12.098 votos (a mulher mais votada da Bahia). Na Câmara Municipal de Salvador, é presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher e vice-presidente da Comissão de Reparação. Criou a campanha carnavalesca, reconhecida internacionalmente, “Meu corpo não é sua fantasia”, que visa alertar para o assédio sexual e a violência contra a mulher.

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