Referências negras: os nomes que o racismo nos obriga a esquecer

Preservar a memória é fundamental para a construção de uma história justa e para desconstruir o racismo estrutural

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O ser humano nem sempre teve o costume de preservar a memória, mesmo quando ela esteve relacionada a fatos e figuras de grande relevância. Costumo dizer que a memória precede a história. Se a memória for distorcida, altera-se a interpretação do presente e modifica-se o futuro. Neste Dia da Consciência Negra, retorno a este espaço para defender a preservação da memória na luta contra o racismo em suas mais diversas facetas.

Trata-se de uma estratégia inversa ao que a discriminação racial vem fazendo nos últimos séculos: apagar da memória da sociedade eventos e nomes ligados a pessoas negras, de modo a perpetuar um sistema excludente, em que a exclusão é baseada na cor da pele. Quantos escritores, artistas, inventores, cientistas, ativistas, políticos e professores negros, muitos dos quais mulheres, foram sendo esquecidos ao longo da história? No período escravista, negros e negras morriam espancados, morriam de exaustão, de fome e doenças contraídas devido às más condições em que viviam. Depois, ampliou-se o assassinato simbólico, com a incineração histórica de suas trajetórias, de seus trabalhos e nomes.

Preservar a memória é fundamental para a construção de uma história justa e para desconstruir o racismo estrutural. Sendo assim, é fundamental resgatar os nomes de importantes figuras negras que contribuíram para o progresso da humanidade, em diferentes épocas e aspectos: intelectuais, cientistas, professores, ativistas - homens e mulheres negras que abriram caminhos, mas que foram apagados pela historiografia oficial branca. Além disso, é preciso preservar na memória social fatos marcantes relacionados aos negros, tanto os bons e os ruins. Entendemos que esse apagamento é uma maneira perversa de reduzir a importância dos negros na construção da sociedade.

A estratégia da discriminação racial é apagar da memória da sociedade eventos e nomes ligados a pessoas negras, de modo a perpetuar um sistema excludente, em que a exclusão é baseada na cor da pele

Graças aos nossos esforços, hoje em dia tem se falado cada vez mais no nome de Maria Felipa, marisqueira da Ilha de Itaparica que contribuiu para o processo de independência da Bahia e do Brasil, no século 19. No entanto, só agora estamos resgatando o nome de Maria Firmina dos Reis, considerada a primeira romancista negra do Brasil. Nascida em 1822, em São Luís, Maranhão, é autora de vários livros, entre eles o clássico “Úrsula”, que começou a ser reeditado recentemente. Ainda no universo literário, devemos enaltecer a trajetória de Luiz Gama, poeta baiano, escravizado ainda menino, e que, através de seu ativismo e sua obra literária, lutou ferrenhamente contra a escravidão.

Além disso, pouca gente sabe que o semáforo aprimorado, tão importante para organizar o trânsito das cidades modernas, foi inventado por Garret Morgan, inventor afro-americano nascido em 1877. E que Lewis Latimer, também norte-americano, inventou as lâmpadas elétricas duradouras.

Entretanto, quase todos os nossos ídolos históricos famosos são homens brancos, muitos dos quais aristocratas que ajudaram a manter as engrenagens do sistema escravista. Zumbi dos Palmares hoje é símbolo de resistência e de luta contra a opressão e o racismo. Não é apenas uma figura histórica, mas se mantém como uma referência de atitude diante daqueles que querem nos calar e nos manter relegados a uma vida de exclusão e marginalidade. Mas, apesar dessa importância, queremos mais do que nunca resgatar e enaltecer outras referências, tanto para promover reparação quanto para diluir o racismo que insiste em se incrustar na estrutura da sociedade. Queremos que a criança negra se sinta representada nas aulas e nos livros de história do Brasil, pois a representatividade legitima a nossa existência e é o caminho para a construção da igualdade.

Os negros e as negras continuam a sofrer apagamento, seja em grandes projetos voltados ao bem comum, seja nas estatísticas e nos noticiários policiais. Nestes, quase sempre, são reduzidos a números, e seus nomes sequer importam. Portanto, espero que este seja o dia em que assumiremos um compromisso com nosso passado, nosso país e com quem somos, no sentido de preservar a memória do nosso tempo. E de valorizar o esforço daqueles que nos fizeram chegar até aqui e que não estão mais entre nós.

Ireuda Silva é mãe, palestrante, ativista social, racial e de gênero e vereadora de Salvador (Republicanos). Iniciou sua carreira no mundo empresarial, foi coordenadora da Iurd TV, canal da Igreja Universal do Reino de Deus, durante 18 anos e criou o projeto Mulheres Notáveis, que se dedica a promover a autoestima e a autoafirmação da mulher. Atualmente, é graduanda em gestão pública e está no segundo mandato como vereadora, após ter sido reeleita com 12.098 votos (a mulher mais votada da Bahia). Na Câmara Municipal de Salvador, é presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher e vice-presidente da Comissão de Reparação. Criou a campanha carnavalesca, reconhecida internacionalmente, “Meu corpo não é sua fantasia”, que visa alertar para o assédio sexual e a violência contra a mulher.

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