Os impactos da pandemia na população trans

A atual crise sanitária e econômica está fazendo a sociedade experimentar uma realidade que sempre fez parte do dia a dia das travestis

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Antes da pandemia de covid-19, era essa a realidade das travestis e mulheres transexuais no Brasil: 90% na prostituição, 4% em empregos formais, 72% não possuíam ensino médio, 56% não tinham concluído o ensino fundamental, 0,02% frequentavam alguma universidade. O Brasil liderava o ranking mundial de país que mais mata travestis e transexuais, sendo que 80% dos casos de assassinatos ocorreram com violência hiperbolizada, ou seja, com requintes de crueldade. Esses números – apresentados pelo dossiê anual publicado pela Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) – desenham o quadro de extrema vulnerabilidade social a que a população trans no Brasil estava exposta em 2019. Em março de 2020, explodiu a pandemia, a qual trouxe consigo um aprofundamento da crise econômica no país. A pergunta que agora faço é: quais estão sendo os impactos das atuais crises sanitária e econômica entre nós travestis e transexuais, para quem as políticas públicas sempre foram negadas?

Durante a pandemia, esperava-se que o número de assassinatos de transexuais iria diminuir pelo fato de o isolamento social ter formatado a realidade de diversos estados e municípios. No entanto, o que se verificou foi justamente o contrário. Segundo o dossiê divulgado pela Antra, tivemos, entre 2008 e 2019, em média 122 assassinatos de pessoas trans por ano, mas em 2020, ano em que se inicia a pandemia, o número de assassinatos de transexuais mostrou-se 43% acima da média. Infelizmente aumentaram não apenas os homicídios, mas também o número de suicídios e de violência doméstica. Nesse ponto, é importante resgatar outro dado assustador: no primeiro semestre da pandemia houve aumento de 45% no índice de violência doméstica, comparado ao mesmo período do ano anterior, contra a população trans.

Para explicar este último número, é necessário evidenciar um aspecto que caracteriza grande parte das vivências trans: a violência de gênero normalmente se inicia dentro das próprias famílias. Uma pesquisa realizada pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), divulgada em 2015, revelou que 5,8% das travestis de Belo Horizonte saíram de casa com idade inferior a 12 anos, sendo o preconceito e a violência da família elementos motivadores para ruptura de laços familiares. A pandemia, nesse sentido, ao trazer a necessidade de as pessoas terem que ficar em casa em quarentena, significou para muitas transexuais ter que conviver por mais tempo e dividir espaço com muitos familiares intolerantes, preconceituosos – fato que resultou no aumento não somente da violência doméstica, mas também dos danos à saúde mental das pessoas trans.

Durante a pandemia, esperava-se que o número de assassinatos de transexuais iria diminuir. No entanto, o que se verificou foi justamente o contrário

É importante destacar, no entanto, que a pandemia está fazendo a sociedade experimentar uma realidade que sempre fez parte do dia a dia das travestis. Ter medo do espaço público, ficar presa em casa, viver em distanciamento social, ter receio de conversar com pessoas, usar álcool gel são práticas cotidianamente utilizadas por nós, travestis, cuja realidade é caracterizada pela total exclusão social. Sempre foi raro encontrar travestis transitando no espaço público pela manhã, pois sabemos os riscos de morrer ao sair de casa. É importante nos atentarmos ao fato de que a maioria absoluta dos crimes contra travestis ocorrem em locais públicos (entre os 175 assassinatos contra mulheres trans registrados em 2020, 124 ocorreram em espaços públicos).

Uma das principais consequências do contexto pandêmico na sociedade brasileira em geral foi a crise econômica. Uma pesquisa realizada pela Serasa em parceria com a Opinion Box, por exemplo, revelou que 40% dos brasileiros tiveram queda na renda. A crise não se agudizou no primeiro ano da covid-19 devido às (poucas) medidas emergenciais adotadas pelo governo federal. Para as mulheres travestis e transexuais, entretanto, tais medidas configuraram-se como uma realidade distante, inalcançável. Isso porque, de acordo com o dossiê da Antra, cerca de 70% da população de travestis e mulheres trans do país não conseguiram acesso às políticas emergenciais do Estado, devido à situação de extrema vulnerabilidade social em que se encontram. A precarização das vidas trans é tamanha que infelizmente muitas travestis não têm documentos, moradia e acesso aos equipamentos públicos. Esse cenário aviltante obrigou as transexuais a continuar prostituindo-se nas ruas e, por consequência, a ficar mais expostas ao vírus. Para tentar combater essa realidade, idealizei pela Transvest, ação social que coordeno em Belo Horizonte, a Renda Mínima Trans, projeto que distribuiu nos últimos 15 meses, via financiamento coletivo, R$ 100 para 150 trans e R$ 200 para 50 travestis idosas da cidade. Além disso, temos arrecadado e distribuído cestas básicas e produtos de higiene pessoal para a comunidade trans.

O descaso do Estado brasileiro em relação à população trans é tão grande que o Ministério da Saúde não tem dados sobre quantas travestis e transexuais morreram ou foram contaminadas pela covid-19. As fichas de registros da doença nos hospitais possuem dezenas de campos a serem preenchidos, porém nenhum deles informa o gênero do paciente. Tal apagamento dá continuidade e endossa um projeto histórico de sociedade que está em curso no Brasil, o qual busca silenciar, ignorar e violentar corpos, sexualidades e identidades dissidentes. Neste país de descasos, de apagamentos e de preconceitos odiosos, sabemos que a pandemia está longe de se encerrar e que os seus impactos repercutirão, sobretudo entre os mais pobres, na próxima década. Iniciei este texto com uma pergunta e termino com outra: se antes da pandemia a expectativa de vida de uma travesti no Brasil não superava 35 anos, qual será essa expectativa de vida na crise econômica profunda do pós-pandemia?

Duda Salabert é mãe, professora de literatura, vegana e vereadora por Belo Horizonte pelo PDT. Em 2018 tornou-se a primeira transexual do país a se candidatar ao Senado Federal pelo país, terminando as eleições como a quarta mulher mais votada da história de Minas Gerais. Em 2020 foi eleita para o cargo de vereadora como a pessoa mais votada da história da capital mineira.

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