O avanço da representação negra na política

O destaque dado às pautas raciais em anos recentes demonstra um reposicionamento social que está para além das eleições. Cada vez mais, negras e negros compreendem a importância de conectar suas demandas imediatas com a afirmação de identidade

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Faz pouco mais de três meses que fui eleito vereador em Porto Alegre, com uma candidatura construída por diversos coletivos e ativistas. Felizmente, este triunfo foi além de nós: outras quatro mulheres negras também foram eleitas com votações expressivas. Para estabelecermos uma comparação, nos cinco pleitos anteriores, a capital gaúcha havia eleito apenas três vereadores negros na primeira chamada e, em toda sua história, apenas uma mulher negra conseguiu tal feito. O resultado é emblemático e compõe o quadro nacional de ampliação da representação negra na política, fenômeno que se expressou, principalmente, no Legislativo das capitais brasileiras e com a vitória de mulheres negras. As razões desse avanço é o que pretendo discutir. Meu argumento principal é que esse crescente protagonismo negro nas eleições é a expressão, no âmbito da disputa do poder político-institucional, de um processo estrutural de reposicionamento da luta antirracista em nosso país, fenômeno que abrange diferentes áreas das relações sociais. Apesar de ser uma mudança em curso, sendo as eleições a “fotografia” de uma conjuntura, as raízes profundas da luta antirracista tornam o processo sólido e asseguram seu caráter transformador. Não é à toa que o movimento de mulheres negras está na vanguarda. Há 30 anos, são elas que pautam a agenda política negra, e hoje novas lideranças surgem à medida que referências com décadas de atuação ganham espaço em segmentos mais amplos da sociedade. E é essa ampliação de alcance que guiará minha reflexão.

Por décadas o movimento negro se deparou com a discussão sobre o porquê de negros não elegerem negros. Clóvis Moura elaborou uma resposta polêmica, mas que convocava à reflexão: por mais justo e coerente que fosse o projeto político antirracista, havia um fosso entre o movimento e a maior parte dos nossos, situação que ele resumia como a divisão entre a fração letrada e plebeia da população negra.

Observando esse quadro com o olhar retrospectivo que a história nos proporciona, penso que a luta de décadas recentes diminuiu essa distância. Por um lado, por meio da afirmação do próprio projeto histórico negro: mostrar a necessidade das ações afirmativas ficou mais simples à medida que milhares de jovens negros ingressaram nas universidades e experimentaram a possibilidade de ascender socialmente por meio do estudo. Por outro lado, o que Moura chamava de fração plebeia construiu suas próprias formas de comunicação e luta política: o caso singular é o rap, que desde fins da década de 1980 é a maior expressão da luta por sobrevivência nas periferias brasileiras e segue influenciando criticamente milhões de consciências.

Se é verdade que o bolsonarismo é um fenômeno que não será dissipado sem um longo enfrentamento, também está provado que o movimento negro não será desestruturado nessa situação reacionária que vivemos

Cito esses dois exemplos, pois, combinados, eles expressam o curto circuito que a luta antirracista impôs sobre a dinâmica do mito da democracia racial, a ideologia magna da elite brasileira desde o pós-abolição. Alguns dados da pesquisa encomendada pelo Google sobre a consciência racial, em parceira com o Datafolha e a Consultoria Mindset, nos ajudam a visualizar esse quadro. Em 2019, 73% das pessoas negras das classes D e E – o que compreendo como extratos da classe trabalhadora – consideravam importante votar em candidaturas negras. Nesse mesmo segmento, 85% conceituavam positivamente o Dia Nacional da Consciência Negra e 63% se afirmavam como “ativista antirracista”. A pesquisa também destaca três temas relevantes para o povo negro: a inserção no mercado de trabalho, o racismo estrutural e o feminismo negro.

O que defino como reposicionamento social da luta antirracista se apoia no fato de que, cada vez mais, negras e negros compreendem a importância de conectar suas demandas imediatas com a afirmação da identidade racial. E o que complexifica o fenômeno é que este movimento também possui o potencial de despertar a solidariedade não-negra. A experiência eleitoral nos oferece um bom exemplo, pois foi muito comum encontrarmos pessoas brancas querendo votar em candidaturas negras como um ato de protesto. Não pretendemos fazer uma luta contra outra metade da população, pelo contrário, precisamos de aliados.

Nesse contexto, o racismo passa a se configurar como ideologia de reação das elites. Ao final do primeiro governo Lula, Sueli Carneiro nos alertou sobre a orquestração de uma resposta ao “racismo negro”, ou seja, a constituição de um movimento contrário ao avanço da luta por igualdade racial. Já diante de uma crise econômica e social sem precedentes, coube ao bolsonarismo oxigenar o instinto de sobrevivência do mito falacioso da democracia racial.

O presidente e seus asseclas afirmam constantemente que a nação está acima de divisões de raça, etnia, classe, gênero ou sexualidade. Não é à toa que indígenas e quilombolas são seus alvos preferenciais desde o início do mandato. Mais recentemente, o vice-presidente Hamilton Mourão disse que no Brasil não existe racismo. No entanto, enquanto proferem esse discurso reacionário, coordenam o maior programa de contrarreformas trabalhistas e sociais da nossa história, recolocam o país no Mapa da Fome e nos dirigem ao caos negligenciando o combate à pandemia.

Sabemos que é antiga a estratégia de, em meio às crises, diluir o conflito racial no amplo espectro dos “problemas sociais”. No entanto, ante a mudança de perfil da luta antirracista, nos resta saber se essa estratégia se sustentará. Se é verdade que o bolsonarismo é um fenômeno que não será dissipado sem um longo enfrentamento, também está provado que o movimento negro não será desestruturado nessa situação reacionária que vivemos. Nesse sentido, o papel das novas lideranças negras no parlamento está para muito além da tarefa de representação. Caberá a nós reafirmar um projeto político de sociedade. Após os séculos de escravização, a luta negra contribuiu para humanizar minimamente o nosso país. Neste novo contexto, a nossa responsabilidade é similar. Parafraseando Djonga: se eles têm medo do novo, devemos ser a chama que acende o farol!

Matheus Gomes tem 29 anos e é vereador de Porto Alegre pelo PSOL. Atua desde os 17 anos no movimento negro, estudantil e periférico, e atualmente tem inserção em diferentes coletivos e entidades, como o Afronte, o Nós Por Nós Solidariedade e Movimento Negro Unificado. É licenciado e mestrando em história pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), onde pesquisa a participação negra e periférica nas Jornadas de Junho de 2013. Em 2020, foi eleito vereador com a quinta maior votação da capital gaúcha.

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