Natal para todos e a luta contra o fantasma da fome

A alimentação é um direito de todos os brasileiros, garantido pela Constituição. É dever do Estado e da sociedade lutar para que cada vez menos pessoas passem fome em nosso país

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Com a proximidade do Natal e, consequentemente, do costumeiro crescimento do consumo nesse período, lembramos que milhões de brasileiras e brasileiros não apenas não poderão presentear um ente querido como sequer terão comida à mesa. De acordo com dados da Rede Penssan (Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional), 19 milhões de pessoas passam fome hoje no país, enquanto 55% das famílias estão em situação de insegurança alimentar. Diante desse quadro dramático, não podemos fugir da nossa responsabilidade, e aqui incluo tanto o poder público quanto a sociedade em geral, na qual ainda carece a consciência de um espírito fraterno.

De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a fome no Brasil cresceu 27,6% entre 2018 e 2020, retornando ao nível de 2004. Isso mostra que houve um retrocesso muito grande nesse âmbito, fruto da crise econômica que perdura há anos e agravado pela pandemia do novo coronavírus. Nesse grupo estão milhões de mães de família, já que as mulheres estão no grupo daqueles que mais sofreram com o desemprego, amargando perdas difíceis de serem reparadas com o tempo.

Com a proximidade do Natal, lembramos que milhões de brasileiras e brasileiros não apenas não poderão presentear um ente querido como sequer terão comida à mesa

Além disso, a vulnerabilidade das mulheres negras ao desemprego é 50% maior. Como já apontei em outras ocasiões, pesquisa do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) mostra que a cada 1 ponto percentual a mais na taxa de desemprego, as mulheres negras sofrem, em média, aumento de 1,5 ponto percentual. Por outro lado, elas têm mostrado um grande potencial para contornar as dificuldades: na última década, o volume de mulheres à frente dos pequenos negócios cresceu 18%, enquanto o dos homens teve um aumento de apenas 8%, de acordo com pesquisa realizada pelo Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas).

Apesar disso, a situação é desanimadora. Dados divulgados pela revista piauí mostram que habitantes de 17 capitais brasileiras que recebem um salário mínimo gastaram 58,35% do valor líquido com a alimentação. No entanto, considerando que o mínimo é R$ 1.100, o valor deveria ser cinco vezes maior (R$ 5.886) para garantir condições mínimas de vida a uma família com dois adultos e duas crianças.

Outro fator considerável que tem disparado os índices relacionados à fome e à insegurança alimentar é a inflação. Tudo indica que o índice encerrará o ano de 2021 acima de 10%, segundo a última projeção do Banco Central, fazendo com que o preço da cesta básica disparasse nos últimos 12 meses. Resultaram nas dolorosas cenas de pessoas levando para casa restos descartados por açougues, ossos e carnes apodrecidas. Você consegue imaginar como será o Natal delas? O que passará por suas mentes enquanto você ceia ao lado de sua família?

A alimentação é um direito de todos os brasileiros, garantido pela Constituição Federal. Isso já é o suficiente para termos em mente que é dever do Estado e da sociedade, munida de espírito fraterno, lutar para que cada vez menos pessoas passem fome em nosso país. Em um primeiro momento, fortalecer e ampliar os programas sociais atualmente existentes é de suma importância. Resolver o problema da miséria extrema é o primeiro passo para se implementar políticas sociais a longo prazo.

Ireuda Silva é mãe, palestrante, ativista social, racial e de gênero e vereadora de Salvador (Republicanos). Iniciou sua carreira no mundo empresarial, foi coordenadora da Iurd TV, canal da Igreja Universal do Reino de Deus, durante 18 anos e criou o projeto Mulheres Notáveis, que se dedica a promover a autoestima e a autoafirmação da mulher. Atualmente, é graduanda em gestão pública e está no segundo mandato como vereadora, após ter sido reeleita com 12.098 votos (a mulher mais votada da Bahia). Na Câmara Municipal de Salvador, é presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher e vice-presidente da Comissão de Reparação. Criou a campanha carnavalesca, reconhecida internacionalmente, “Meu corpo não é sua fantasia”, que visa alertar para o assédio sexual e a violência contra a mulher.

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