Hora de abolir o ceticismo à ciência e a ignorância política

A corrida pelas vacinas contra a covid-19 nos lembra de que o Brasil precisa rever suas prioridades. O investimento em universidades e centros de pesquisa salva vidas e contribui, a longo prazo, para a retomada da nossa economia

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Foram mais de 200 mil vidas perdidas, milhares de desempregados e a sensação diária de incerteza. Presenciamos campanhas contra a ciência promovidas pelo próprio presidente da República, que estrelou um show de horrores nesta pandemia, incentivando as aglomerações e dispensando o uso de máscaras. Assistimos de perto nossos vizinhos da América Latina, como Argentina e Chile, países com economia inferior à nossa, imunizando sua população enquanto nosso presidente desfrutava de um abarrotado litoral paulista em véspera de ano novo.

O Brasil teve uma performance desastrosa no combate à pandemia. Contudo e felizmente, mesmo nesse cenário atabalhoado, em que muitas vezes a vacina deixou de ter laboratório e passou a ter partido, o governo brasileiro finalmente começa a agir em favor da vida, colocando em prática o plano nacional de vacinação.

Publicada nesta semana, uma medida provisória do governo federal, anunciada em rede nacional pelo Ministério da Saúde, permitirá contratos sem licitação para a aquisição de vacinas e insumos hospitalares. As compras poderão ser feitas até mesmo antes de a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) conceder o registro definitivo. Mas, como quase tudo no governo Bolsonaro, a medida traz um recado prejudicial: ela cria a obrigação de que o profissional de saúde, na hora da vacinação, informe ao paciente que o imunizante não tem registro regular na Anvisa, somente de uso excepcional autorizado pela agência. O que parece ser uma ação responsável, pode se tornar uma forma de inibir o interesse pela vacinação. Um erro perigoso que pode custar ainda mais vidas.

Vale lembrar que qualquer imunizante usado em território brasileiro passa por uma análise criteriosa da Anvisa. No caso da Coronavac, vacina produzida pelo laboratório chinês Sinovac em parceria com o Instituto Butantan, e do imunizante da Universidade de Oxford/AstraZeneca, produzida em parceria com a Fiocruz, a Anvisa já declarou que pretende fazer a análise do uso emergencial em até 10 dias, a partir do dia 8 de janeiro, data em que as empresas apresentaram o pedido de registro emergencial. Ou seja, não existe meia segurança ou meia eficácia. Qualquer que seja a vacina dispensada no Brasil, ela será segura e a Anvisa atestará sua segurança. Esse deve ser o recado do governo. Ele não pode deixar a população receosa ou com medo de tomar uma vacina. Não podemos voltar a tempos em que a ciência assustava as pessoas.

No início do século 20, com a grande disseminação de doenças infectocontagiosas, o médico Oswaldo Cruz iniciou uma série de medidas sanitaristas, entre elas a sugestão de que o então presidente da época, Francisco de Paula Rodrigues Alves, sancionasse a Lei da Vacina Obrigatória, para conter o avanço da varíola. No entanto, a obrigatoriedade, a falta de conhecimento e o ceticismo geraram grande revolta na população. No estado de Goiás, por exemplo, houve quem acreditasse que a vacina faria com que as pessoas tivessem filhos com características bovinas. Outros acreditavam que a ciência estava contrariando os projetos de Deus para a vida das pessoas.

O sarampo, por exemplo, era tratado como eliminado no Brasil, mas em 2018 voltou a oferecer perigo para a população. Não podemos correr esse risco com a covid-19

Não podemos, de forma alguma, voltar às trevas, como ocorreu na década de 1990, com o movimento antivacina. Àquela época, o médico britânico Andrew Wakefield publicou um estudo apontando uma possível relação entre a vacina tríplice viral e o desenvolvimento do autismo. A notícia se propagou pelo Reino Unido, gerando medo na população, e se espalhou por todo o mundo. Apesar de a publicação já ter sido desmentida infinitas vezes e muitos estudos comprovarem que a teoria apresentada por Wakefield foi fraudada para exibir o resultado que ele pretendia, o movimento antivacina segue ganhando adeptos até hoje e crescendo cada dia mais.

Em levantamento realizado pela OMS (Organização Mundial de Saúde) e publicado em julho de 2020, o Brasil aparece como um dos países que mais regrediu desde 2015 em termos de imunização da população, com índice de pouco mais de 70% de cobertura para difteria, tétano e coqueluche. Cerca de 800 mil crianças estariam sem proteção hoje no país para essas doenças. O estudo também apontou que a queda na cobertura universal de vacinas para crianças foi de 23% entre 2015 e 2019, a mesma taxa de redução registrada na Venezuela, país em crise humanitária. Apenas a Líbia, que está em guerra, e Samoa, registraram uma queda superior aos índices do Brasil.

Nosso país é referência mundial na prevenção de doenças, graças ao PNI (Programa Nacional de Imunização), do Ministério da Saúde, que se consolidou em 1973, com a oferta gratuita de todas as vacinas recomendadas pela OMS. Em 1977, o PNI publicou o primeiro calendário nacional de vacinação, que trazia como obrigatórias quatro imunizantes para os recém-nascidos no primeiro ano de vida: a vacina contra a poliomielite, a BCG (Bacilo Calmette-Guérin), a tríplice bacteriana (contra difteria, tétano e coqueluche) e a tríplice viral (contra sarampo, caxumba e rubéola).

Este é o recado que o Brasil precisa dar à população: a ciência salva vidas e o país não pode retroceder. O sarampo, por exemplo, era tratado como eliminado no Brasil até 2016, mas em 2018 voltou a oferecer perigo para a população. Não podemos correr esse risco com a covid-19.

Em décadas recentes, países que enfrentaram crises financeiras aumentaram seu investimento em ciência para retomar seu desenvolvimento e crescer em longo prazo. Temos a oportunidade de salvar vidas e a nossa economia, apostando nas vacinas e, sobretudo, na ciência e na informação. Esta não é uma questão política, esse é um compromisso que o Brasil precisa assumir em nome da vida. Abolir o negacionismo à ciência é ceder luz ao progresso. Esse é o primeiro passo que o governo deve dar para sairmos do luto e vislumbrarmos um futuro de esperança.

Mara Gabrilli foi eleita senadora pelo PSDB de São Paulo em 2018. Neste mesmo ano também foi eleita para representar o Brasil no Comitê sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência da ONU (Organização das Nações Unidas). É publicitária, psicóloga e fundadora do Instituto Mara Gabrilli. Já foi secretária municipal da capital paulista, vereadora da cidade de São Paulo e deputada federal por dois mandatos.

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