Eleger uma bancada negra nacional é o desafio do movimento negro em 2022

Após o furacão de destruição social e econômica pós-golpe parlamentar de 2016, em que a população negra foi o alvo central, qual o sentido de buscar uma aliança com uma figura como Geraldo Alckmin? Com quem se pretende conciliar novamente?

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Há três semanas, pude participar de uma junção histórica na cidade de Olinda, em Pernambuco. Sem ampla repercussão midiática, mas profundamente conectado com a mudança mais progressiva do cenário político nacional o avanço da representatividade negra no parlamento , realizamos o Encontro Nacional da Coalizão Negra por Direitos, que articulou organizações antirracistas de base, intelectuais e parlamentares negras e negros de todas as regiões do Brasil. Após três dias de debates, o desafio lançado foi a construção de bancadas negras nos legislativos estaduais e, principalmente, no Congresso Nacional.

Se é verdade que avançamos na eleição de 2020, também sabemos que concretizar essa meta em 2022 não será fácil, em meio ao processo eleitoral mais importante desde o fim do regime militar. O racismo está no cerne do bolsonarismo, que articula autoritarismo e militarismo de Estado, neoliberalismo econômico, negacionismo histórico e o pensamento meritocrático que naturaliza a miséria e a desigualdade racial como problemas individuais. Observamos através de lutas concretas, mas também por meio de dados estatísticos, que a população autodeclarada negra é o segmento social mais coeso na oposição ao governo federal. Como nos Estados Unidos, onde o conflito racial foi determinante para a derrocada de Donald Trump, a maioria negra no Brasil – fato que nos diferencia qualitativamente de lá , será decisiva para virar essa página triste da nossa história.

Superar esse projeto exige organização e poder de mobilização. E foi por isso que as nossas reflexões estratégicas foram iluminadas pelo professor Hélio Santos. Com 76 anos de caminhada, podemos chamá-lo carinhosamente de um dos membros da nossa velha guarda, que com muita sensibilidade empenha-se no processo de síntese geracional do movimento negro. Hélio foi enfático ao afirmar que “a roda das relações raciais girou no Brasil”, ou seja, mesmo em meio a uma situação reacionária, os avanços conquistados pelo nosso movimento nas últimas décadas seguiram incentivando a afirmação e auto-organização negra. Já afirmei algo similar nessa Tribuna, no que defini como “processo estrutural de reposicionamento da luta antirracista em nosso país”, que consiste no avanço do antirracismo em diferentes esferas das relações sociais e institucionais e se apoia no avanço da conscientização negra.

Em quem desfrutou de alguma ascensão ou nas camadas socioeconômicas mais baixas do nosso povo, percebemos que, cada vez mais, negras e negros compreendem a importância de relacionar a batalha diária por sobrevivência a sua identidade racial. Essa mudança é a causa do curto-circuito no mito da democracia racial brasileira, que apesar de cambaleante segue fornecendo a energia do poder branco, mas, abre espaço para a adesão a um projeto político antirracista em escala nacional. “Dosar a ousadia juvenil com a sabedoria ancestral em defesa de um projeto de justiça racial e reparação”, foi a síntese da mensagem de Hélio e partir daí é que penso nosso desafio.

Em meus desejos mais sinceros, a dosagem desses dois elementos, para além da formação da nossa bancada negra nacional, seria a construção de uma candidatura feminista negra à Presidência da República. No entanto, não por falta de quadros capazes, mas sim pelas peculiaridades desta quadra histórica, penso que o caminho para acelerar esse reposicionamento estrutural antirracista é apoiar Luiz Inácio Lula da Silva. O fato é que, para nós, a discussão programática em torno dessa opção é o ponto essencial. As contradições dos três governos e meio (dois mandatos de Lula e um mandato e meio de Dilma) foram brutais sobre o nosso povo. Nesse período, ficamos entre a alegria da conquista das ações afirmativas nas universidades e a brutalidade do salto no encarceramento e do extermínio da nossa juventude, entre ações de solidariedade com o continente africano e uma ocupação militar no primeiro país a abolir de forma revolucionária a escravidão, o Haiti.

A política da conciliação de classes com a burguesia tem consequências trágicas para o povo negro. Já no final da década de 1980, Hamilton Cardoso, um dos fundadores do Movimento Negro Unificado, dizia que o fenômeno da conciliação de classes na verdade era a conexão entre os setores privilegiados da classe trabalhadora, ou seja, a sua minoria branca, com as elites que permaneciam intocadas, bem como a ordem das desigualdades raciais. Nesse sentido é que pergunto: após o furacão de destruição social e econômica pós-golpe parlamentar de 2016, em que a população negra foi o alvo central, qual o sentido de buscar uma aliança com uma figura como Geraldo Alckmin? Com quem se pretende conciliar novamente? Se pesquisas já demonstram que o impacto eleitoral dessa aliança é muito restrito, por que não olhar para a construção de uma aliança que expressasse politicamente a maioria da população?

Não há como pensar a nossa estratégia de construção de uma bancada negra nacional deslocada do cenário desenhado para a disputa presidencial, até por que o desdobramento dessa conciliação no ambiente político é a formatação de arranjos que tendem a priorizar o centrão, que representa o conservadorismo, logo, a antítese da luta antirracista. A formação de novas parlamentares negras – no feminino, por que elas são a vanguarda desse processo e o fortalecimento dos diversos segmentos do movimento negro nas periferias expressa o desejo de não sermos meros tripulantes do trem da mudança, sentados no último vagão da locomotiva que pretende trazer esperança ao nosso país. Do contrário, sem o povo negro no comando, sem uma visão antirracista iluminando o caminho, não acharemos a direção para a construção de um Brasil soberano, democrático e igualitário. Em 2022, lutemos pelo avanço da nossa representação parlamentar, mas, acima de tudo, por um projeto político antirracista capaz de construir as bases da superação da lógica colonialista que nos governa.

Matheus Gomes tem 29 anos e é vereador de Porto Alegre pelo PSOL. Atua desde os 17 anos no movimento negro, estudantil e periférico, e atualmente tem inserção em diferentes coletivos e entidades, como o Afronte, o Nós Por Nós Solidariedade e Movimento Negro Unificado. É licenciado e mestrando em história pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), onde pesquisa a participação negra e periférica nas Jornadas de Junho de 2013. Em 2020, foi eleito vereador com a quinta maior votação da capital gaúcha.

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