E os jovens que não têm uma porta para sair?

Episódio de abuso psicológico no BBB trouxe à tona uma importante discussão sobre saúde mental. A pauta, infelizmente, é negligenciada pelo atual governo

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No dia 7 de fevereiro, acompanhamos atentos o jovem Lucas Penteado abandonar a 21ª edição do Big Brother Brasil. A saída aconteceu após uma série de situações de abusos psicológicos que foram televisionados e deixaram milhões de telespectadores perplexos no país inteiro.

Lucas, que hoje tem 24 anos, é ator, poeta, MC e slammer. É um daqueles jovens sorridentes, brincalhões, que costumam fazer sucesso nas rodas de conversa. No programa, no entanto, ele viveu um pesadelo. Foi isolado, teve sua sexualidade questionada e escuta negada direta e indiretamente pelos participantes do reality show.

A situação fez uma pauta importante tomar proporções maiores do que vinha tomando em anos recentes. A saúde mental se tornou um dos assuntos mais pesquisados e conversados, em decorrência da pandemia. Por causa deste BBB, a pauta está alcançando um público que não enxergava ou evitava conversar sobre o assunto no Brasil.

É certo que apenas uma parcela da sociedade não conversava sobre isso. Existem movimentos e profissionais engajados no processo de humanização do sistema de atendimento à saúde mental e, como de praxe, o atual governo já se colocou como um dos principais inimigos dessa política.

No final de 2020, o Ministério da Saúde deixou escapar sua intenção de revogar quase uma centena de portarias e regulamentos que estruturam, desde os anos 90, a Política Nacional de Saúde Mental.

Lucas foi vítima de abusos psicológicos televisionados, que amplificam, de toda a forma, as violências que sofreu. Acontece que ele teve uma porta para sair. Fez a escolha certa, e fugiu de seus abusadores. Mesmo tendo acesso aos recursos disponibilizados pela produção — equipe médica e terapêutica, que já faziam dele, naquele momento, privilegiado diante da realidade brasileira —, Lucas não aguentou e saiu. Pela sua sanidade, Penteado abriu a porta que lhe devolveria, de alguma forma, a paz que a vivência no programa havia lhe furtado. Mas e os milhões de jovens no Brasil que não têm acesso a uma porta de saída?

As portas que devemos criar precisam estar, necessariamente, vinculadas a uma política nacional de saúde mental, que garanta atendimento psicológico humanizado

Ano passado, a OMS (Organização Mundial de Saúde), em conjunto com a United for Global Mental Health e a Federação Mundial para a Saúde Mental, pediu aumento de investimentos em saúde mental. Isso porque dados da Opas (Organização Pan-Americana da Saúde) apontaram em 2020 que o mundo atravessava, junto com a pandemia, uma crise generalizada de saúde mental. São quase 1 bilhão de pessoas vivendo com algum tipo de transtorno mental e quase 3 milhões morrendo devido ao uso abusivo do álcool. A cada 40 segundos uma pessoa comete suicídio. A maioria destas, arrisco dizer, sequer recebe atenção da família e dos amigos. O poder público executa a negligência que finda esse ciclo de forma constrangedora, e como são dores não televisionadas — diferentemente do caso de Lucas —, são totalmente abafadas.

A faixa etária também parece ser um fator determinante. De acordo com a OMS, metade das doenças mentais começa em idade próxima aos 14 anos; o suicídio aparece como a terceira principal causa de morte entre adolescentes mais velhos (de 15 a 19 anos).

Quando fui deputado estadual pelo Amapá, apresentei Projeto de Lei que criava uma ampla rede de proteção às pessoas que vivem com algum tipo de doença mental no estado. Entre outras providências, o PL nº 3791/06 garantia prioridades e assegurava que, quando da construção de hospitais gerais no estado, deveria ser requisito imprescindível a existência de serviços de atendimento para os pacientes que padecem de sofrimento mental/psíquico. Mais recentemente, atuei de forma incisiva para evitar o “revogaço” promovido pelo governo por meio do Ministério da Saúde. O ato prometia retirar uma série de garantias e direitos desses pacientes, através de uma canetada.

Nossas políticas são falhas, e mesmo quando pautadas e criadas aqui, pelo Legislativo, carecem de estrutura e atuação do Executivo. Nossos filhos, irmãos, amigos não estão longe de serem Lucas. Vou além, nós mesmos, afogados em uma pandemia, não estamos longe de sofrer e ficar suscetíveis a abusos psicológicos.

O que podemos fazer para criar portas? Em primeiro lugar, precisamos criar portas que não sejam de saída, mas de acolhida. A fuga do sofrimento psíquico nem sempre funciona a médio e longo prazo. As portas que devemos criar precisam estar, necessariamente, vinculadas a uma política nacional de saúde mental, que garanta atendimento psicológico — e, quando houver necessidade, psiquiátrico — humanizado. Lavar as mãos sobre esse tema é a única forma de higienização que não pode ser incentivada nos dias de hoje.

Randolfe Rodrigues é senador do estado do Amapá pela Rede Sustentabilidade, é líder da oposição. Atua no movimento estudantil desde os 13 anos de idade. É professor, graduado em história, bacharel em direito e mestre em políticas públicas pela UFC (Universidade Federal do Ceará). Foi deputado estadual por duas vezes. Em 2010 foi eleito o mais jovem senador daquela legislatura, e foi reeleito em 2018.

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