Do vírus à vacina: tempos dignos de ficção científica

Estamos num navio à deriva, sem capitão. Não fosse a ideologização da pandemia, hoje não teríamos que nos lamentar pelas mais de 260 mil mortes

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. A maior parte de nossos conteúdos são exclusivos para assinantes, mas esta seção é de acesso livre sempre. Aproveite para experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

Qualquer semelhança não é mera coincidência. O ano de 2020 chegou com um vírus mortal, que espalhou medo e caos pelo mundo todo, fechou cidades e países, devastando economias. Poderia ser roteiro de filme, mas é baseado em fatos reais.

É muito provável que se pudéssemos assistir às decisões tomadas em gabinetes de presidentes dos mais diferentes países, algo encontraríamos em comum: a incerteza de que qualquer plano poderia realmente funcionar. Não é somente um vírus que circula por mais de uma centena de países, mas a dificuldade em contê-lo também é global.

Muitos viram, de maneira aturdida, o novo coronavírus levar o caos para dentro dos hospitais, enquanto medidas consideradas impopulares, mas necessárias, eram tomadas. Lugares conhecidos por serem grandes centros turísticos, fecharam museus, parques, restaurantes e até aeroportos. Era um momento em que todos, países ricos ou pobres, viram o quão impotentes eram diante de um inimigo que mal conheciam e que não era visível.

Isso explica uma gangorra entre abre-e-fecha, tem-aula-não-tem-aula, fase de várias cores que ora determina uma coisa, ora desfaz tudo para estabelecer outra. E como não poderia deixar de ser, os fatores político, ideológico e eleitoral vão fazendo seus estragos. Não apenas no Brasil, mas também fora dele. É só acompanhar a postura resistente do presidente francês Emmanuel Macron para um terceiro confinamento que atingiria todo o país, no momento em que a França registra cerca de 20 mil novos casos diários de infecção pelo coronavírus. Receio dos efeitos de uma medida mais rígida sobre a economia e o consequente resultado das urnas em 2022? Muitos especialistas dizem que sim.

No Brasil, assistimos à ideologização do vírus e da vacina. Não somos os únicos, portanto, a ficar reféns desse insano debate que aqui já passou pela cloroquina, pelo spray milagroso, pela “gripezinha” e afins. Mas certamente fomos muito mais longe com esses devaneios. Alguém seria capaz de fazer as contas de quantas vidas poderiam ter sido poupadas até aqui (já são mais de 260 mil mortes pela covid-19 no país) se desde o início, mesmo havendo dúvidas sobre a melhor e mais eficaz medida a ser tomada, nós não tivéssemos que assistir disputas de retóricas e holofotes? E mais: mesmo havendo o interesse em 2022, se ele não se sobrepusesse ao bom senso da indiscutível contribuição da ciência em uma pandemia? Se não tivéssemos perdido tanto tempo com o que não era importante e investíssemos mais energia em planejamento e estratégia de combate a um vírus mortal?

A ciência nos deu a maior lição da pandemia: tempos difíceis exigem trabalho sério, paciência e persistência, algo que está em falta em muitas outras áreas

É bem verdade que se voltarmos um pouco na história, na gripe espanhola do século 20, vamos observar que houve um festival de panaceias, negacionismos e insistência no uso de medicamentos sem comprovação científica. Sem contar a tal sombra de que o vírus foi inoculado propositadamente por alguém de determinado país com alguma finalidade que só Deus sabe ou melhor, vamos deixar Deus de fora dessa loucura toda. Mas eu ainda gostaria de entender por que passamos pelos erros já cometidos como se eles não existissem.

Se no Brasil não é novidade alguma que os mais vulneráveis sempre sofrem mais, era questão de tempo para a conta chegar mais rápido na mesa dos que já se viam desamparados pelo Estado.

No entanto, desta vez, há um agravante. Na teoria, não vivemos em um navio sem capitão, só que na prática, temos um capitão que sempre vai dar uma voltinha logo ali em suas viagens na maionese, deixando o barco à deriva.

Dessa forma, o vírus se esbalda, adoecendo ou matando pessoas. Claro que não vamos obliterar fatos de que fazer restrições em um país de dimensões continentais não é fácil. Impor medidas de distanciamento e higiene entre pessoas que vivem em acomodações apertadas – quando vivem assim e não nas ruas – e mal têm água para tomar banho, é um enorme desafio. Paralisar o comércio em meio ao desemprego, pode significar uma conta muito difícil de fechar para a área econômica. E convencer as pessoas de que não existe economia que resista a cemitérios lotados é quase como entrar num ringue para brigar.

Os Estados Unidos, país que ocupa o primeiro lugar no número de mortos pela covid-19, com mais de 500 mil vidas perdidas nesta batalha, hoje vivem à sombra de repetir o trauma econômico que enfrentaram na Grande Depressão (1929). Mas, no saldo de mortes, a pandemia já matou mais americanos do que a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais e a Guerra do Vietnã juntas. Essa, sim, é uma perda irrecuperável.

Em recente entrevista à ABC News, o epidemiologista Anthony Fauci, conselheiro do presidente Joe Biden para assuntos de saúde, afirmou: “Se olharmos para trás, historicamente, fizemos pior do que quase qualquer outro país, e somos um país rico e altamente desenvolvido”. A isso se dá o nome de erro de prioridades.

Mas, infelizmente, neste país por onde passa a linha do Equador, as coisas também vão de mal a pior. Por aqui, “a crise tá virando zona”. O que deveríamos chamar hoje de velho normal está por todos os cantos como se não houvesse razão para preocupações. Festas, aglomerações, viagens... E vamos esticando a corda sem saber quando ela arrebenta.

Por todo lado que se olha, está difícil encontrar fôlego. Que o diga aquele profissional da saúde que trabalha 16 horas por dia, sem equipamento necessário e sem descanso. A única certeza que ele tem é de estar do lado certo da história: trabalhando com base na ciência.

Aliás, de toda a epopeia da atual condição humana, é a ciência que surge com as histórias mais positivas nesta pandemia. Foi em razão de um desespero mundial que epidemiologistas tiveram recursos e condições para mapear o progresso do vírus, que os médicos puderam diagnosticar a doença e que os bioquímicos chegaram no desenvolvimento da vacina.

Não à toa, uma pesquisa recente da British Science Association com 1.000 jovens de 4 a 18 anos revelou que 59% dos entrevistados estão dispostos a seguir carreiras nas ciências biológicas.

Como médico, acredito que foi mesmo a ciência que nos deu a maior lição da pandemia: tempos difíceis exigem trabalho sério, paciência e persistência, algo que está em falta em muitas outras áreas.

Carlos Bezerra Júnior está em seu quarto mandato na Câmara Municipal de São Paulo pelo PSDB. Formado em medicina, ele já foi deputado estadual por dois mandatos e secretário municipal de Esportes e Lazer. Como deputado, foi presidente da Comissão de Direitos Humanos e presidiu a CPI do Trabalho Escravo. É autor da lei paulista de combate ao trabalho escravo, conhecida como “Lei Bezerra”, que é considerada referência mundial sobre o tema pela Organização das Nações Unidas. É também o autor da lei que criou o Mãe Paulistana, maior programa de redução da mortalidade materna e infantil nos hospitais públicos da cidade de São Paulo. Foi preletor em eventos da ONU em Nova York e Genebra. É autor do livro “Fé cidadã – Quando a espiritualidade e a política se encontram”, pela Editora Mundo Cristão.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

Tribuna