Crises e estabilidade cambaleante: onde mora o perigo

Não são apenas ameaças imediatas de golpe que colocam uma democracia em risco

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Nesta semana, vimos algo inédito na história do Brasil quando três comandantes das Forças Armadas deixaram seus cargos. A versão oficial diz que eles foram demitidos pelo presidente da República – até porque Jair Bolsonaro não iria aceitar que o princípio da hierarquia fosse colocado em xeque.

Mas os três militares deixaram um recado claro vazar: não seriam apoiadores de nenhuma aventura golpista do governo. Tudo ocorreu às vésperas da data que marcaria os 57 anos do golpe militar. E o que mais assombra a maior parcela da população são os vestígios autoritários que ainda estão na memória daqueles que viveram os anos de chumbo e não deixam, acertadamente, a história ser esquecida ou distorcida.

Um autoritarismo que também não é esquecido nos dias atuais, mas sempre de maneira mais latente, mais disfarçada, com argumentos para confundir os mais incautos. Como aquela máxima que diz que um bom soldado tem um bom general, o contrário também é verdadeiro. Na atual conjuntura, acredito que a maioria dos militares, ausentes ou presentes no governo, prefere a democracia a uma ditadura sob a regência do presidente que hoje está no poder.

Por isso, quando me perguntam se acredito em um golpe, além de considerar o palpite anterior, penso que, sem o apoio da maioria parlamentar e do PIB nacional, a chance é nula.

Curioso é que o mesmo que disse que “o Brasil não pode virar uma Venezuela” é também aquele que mais ampliou a participação dos militares no poder. A presença das Forças Armadas em cargos de primeiro e segundo escalão superou até mesmo o contingente no regime militar. Na Venezuela, cujos fiadores da permanência no poder de Nicolás Maduro são os militares, eles comandam dez dos 34 ministérios do país. Podemos não virar uma Venezuela, parafraseando o presidente, mas que estamos com algumas de suas cartilhas nas mãos, isso estamos. E, no mínimo, devemos refletir sobre o que significa a saída de um ministro que dirige as Forças Armadas em um governo dominado por militares, tendo seus comandantes batido em retirada logo na sequência. Estabilidade cambaleante? É o que transparece desta decantação, afinal a principal base deste governo está sendo alvo das ações do próprio presidente.

Mas certamente o governo vai se esforçar para mostrar o contrário disso, e o presidente se cercará de um comando das Forças Armadas que seja cada vez mais aderente a suas ideias. A questão é que quem mostrar-se publicamente contrário a posições do capitão-mor é também aquele que colocará a cabeça a prêmio. Isso não aconteceu nem uma, nem duas vezes, afinal há pessoas que conseguem conviver apenas com quem pensa e se comporta de maneira igual. Qualquer nota dissonante soa muito ruidosa e coloca em risco a autoridade de quem está com a batuta, sobretudo porque nele se destacam a capacidade intelectual limítrofe e certo grau de psicopatia.

Parece que estamos sempre em estado de guerra, numa tentativa permanente de corroer a democracia por dentro

É certo que ele já fez muitos acenos ao autoritarismo, e também aos militares, inclusive quando deputado federal, ganhando certo destaque como admirador do regime. E exatamente dois anos atrás, ou seja, no dia 3 de abril de 2019, a ONU (Organização das Nações Unidas) recebia um telegrama de Bolsonaro em que ele afirmava que "não houve golpe de Estado" em 1964. Ele disse ainda: as mais de duas décadas de ditadura no país foram necessárias para "afastar a crescente ameaça de uma tomada comunista do Brasil e garantir a preservação das instituições nacionais, no contexto da Guerra Fria".

Essa foi uma defesa cabal de permanência no poder por mais tempo do que inicialmente previsto. O que faz supor, somados os últimos acontecimentos, que Bolsonaro não tem desejo de sair tão cedo da sala que ocupa no Palácio do Planalto. Seu guru, Donald Trump, também ensaiou passos semelhantes ao insistir na acusação, sem provas e rechaçada pela Justiça eleitoral, de fraude nas eleições que culminaram em sua derrota, mas enfrentou a resistência de uma democracia bem mais estruturada que a nossa, e teve que deixar a Casa Branca contrariado.

Há rumores, há palpites, mas não há nada muito claro sobre o que enfrentaremos em 2022, principalmente porque no meio do caminho há uma pandemia e uma gestão da crise sanitária alta e duramente criticada por diversos setores da sociedade, incluindo a caserna que estava insatisfeita com a gestão do general Eduardo Pazuello no Ministério da Saúde.

Certa vez, li uma afirmação da historiadora Lilia Schwarcz, autora dos livros “Sobre o autoritarismo brasileiro” (2019) e “Brasil: uma biografia” (2015), em que ela dizia que “esse é um presidente que não precisa dar golpe, ele próprio é um estado de golpe”. Então, talvez devêssemos usar um certo tempo para refletir sobre do que se ocupa mais o presidente, que se não está atacando o Supremo, estará atacando a Câmara ou o Senado, ou os governadores ou a imprensa. Parece que estamos sempre em estado de guerra, numa tentativa permanente de corroer a democracia por dentro. E é aí, de fato, que mora o perigo.

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Tribuna