A Greve Global pelo Clima e o papel dos parlamentares

O Brasil precisa construir a luta climática com uma identidade própria, já que é um país-chave na discussão mundial

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Há algumas décadas, a representação preferida para simbolizar o aquecimento global era a imagem de um urso polar solitário em uma calota de gelo cercada por água. Uma referência distante, sem conexão direta com a vida cotidiana da população. Hoje a situação é diferente. Basta assistir a um noticiário para saber de algum evento extremo ocorrendo pelo mundo. Na verdade, nem é preciso ligar a televisão ou abrir um site: basta sentir o bafo da temperatura elevada fora de época, ou ver a chuva torrencial que provoca deslizamentos e desastres; basta abrir a torneira e ver a água que não sai por conta de secas, ou receber a conta de luz muito mais cara por conta da “escassez hídrica”. O fato é que nós viramos o urso polar.

Neste contexto, o mais recente relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) veio num bom momento. Não para nos deixar tranquilos, mas para reforçar o alerta: a exceção está se tornando a regra. Os especialistas do IPCC identificam uma tendência preocupante de aumento na temperatura e multiplicação de catástrofes causadas pelas mudanças climáticas. Já estamos no nível de 1,2ºC, o que torna quase impossível a meta de não ultrapassarmos 1,5°C, um aumento muitíssimo elevado, nas próximas décadas. Eles já não têm mais dúvidas de que, se continuarmos do jeito que está, a nossa situação irá piorar radicalmente em um futuro próximo. Não estamos mais falando de catástrofes no fim do século, mas nos próximos anos, na nossa década.

Foi para agir contra essa perspectiva de destruição que surgiu a Greve Global pelo Clima. Realizada pela primeira vez em 2018, a ação é organizada internacionalmente pelo Fridays for Future, movimento estruturado a partir da ativista sueca Greta Thunberg. Em 2019, a Greve se espalhou para 150 países e mobilizou milhões de pessoas na luta contra a catástrofe climática. Neste ano, a greve ocorrerá em 24 de setembro. É uma luta pela vida, pela continuidade da humanidade, que precisa ter espaço na agenda dos movimentos sócio ambientalistas do nosso país.

Contudo, não podemos apenas importar um modelo de movimento para o Brasil. É preciso construir a luta climática com a nossa cara, já que somos um país-chave nessa discussão mundial. Temos uma natureza plural e riquíssima que está sendo sistematicamente destruída. Quem sofre diretamente as consequências da devastação ambiental são os povos originários, a população negra, periférica e ribeirinha. Quando algum evento extremo atinge o nosso país, é sobre estes corpos que pesa a violência dos negacionistas climáticos. O racismo estrutural, a desigualdade social e os impactos da emergência climática se entrecruzam.

Nesse sentido, a corajosa luta dos povos originários contra o marco temporal nos mostra o caminho. O acampamento Luta pela Vida, organizado pela Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), reúne milhares de indígenas em Brasília na luta contra as mudanças nos critérios para demarcação de terras indígenas. Mesmo diante da repressão e do absurdo silêncio dos grandes canais de mídia, o acampamento segue firme e de pé, se constituindo hoje como a principal trincheira contra o governo Bolsonaro e seus aliados anti-ecológicos.

Há algumas décadas, a representação preferida para simbolizar o aquecimento global era a imagem de um urso polar em uma calota de gelo cercada por água. Agora, nós viramos o urso polar

E é inspirado na força dos povos originários da terra que temos travado uma intensa luta a nível local, fazendo do nosso mandato uma tribuna para reverberar as articulações socioambientais. Apesar de ser um governante polido e aparentemente moderado, Eduardo Leite tem “passado a boiada” na legislação ambiental gaúcha. O estado que era reconhecido por ter a lei estadual mais restritiva sobre o uso de agrotóxicos, agora liberou o uso de substâncias proibidas em dezenas de países.

Além disso, o governo estadual age como lobista do setor de mineração. Há alguns meses a Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura chegou a fazer uma publicação na sua página oficial louvando o setor, dizendo que havia mineração até na bomba do chimarrão — postagem que foi apagada depois de uma repercussão muito negativa nas redes. Na contramão do que aponta o IPCC, o governador fez do Rio Grande do Sul o novo favorito na rota carbonífera, abrindo espaço para a implementação do projeto da Mina Guaíba, que pretende ser a maior mina de carvão a céu aberto do Brasil, caso seja instalada na região metropolitana de Porto Alegre. Leite parece ignorar o que ocorre a pouco mais de 200 km da capital: o município de São Sepé tornou-se o segundo do país a decretar Estado de Emergência Climática devido à exploração de carvão.

O que favorece o governador é a aliança anti-ecológica estabelecida com a prefeitura de Porto Alegre. Sebastião Melo (MDB) e seus vereadores aliados atuam a todo custo para facilitar a entrega de áreas naturais para a exploração imobiliária, como a área de proteção ambiental da Ponta do Arado, onde vivem indígenas Mbya Guarani. Os mais de 70 km de extensão da Orla do Guaíba, conhecido como um dos mais belos pores-do-sol do país, viraram zona de especulação financeira. Na prática, querem privatizar a paisagem da nossa cidade, erguendo espigões, construindo condomínios de luxos e grandes empreendimentos comerciais. Não há, até o momento, nenhum plano de proteção ambiental deste curso d’água que abastece centenas de milhares de gaúchos e possui um bioma riquíssimo, que há décadas sofre com a poluição.

É neste contexto complexo que tenho atuado no legislativo nos últimos oito meses. O parlamento, em todos os níveis, está repleto de representantes dos interesses daqueles que lucram com a destruição da natureza. E é por isso que optei, ao lado de diferentes coletividades, por construir uma atuação com base no tripé da fiscalização da legislação ambiental, o combate aos projetos anti-ecológicos e a mobilização social. É urgente e vital propormos projetos que possam indicar para a outra direção, repensando as cidades a partir de uma lógica integral, ecológica e em harmonia com a natureza. No entanto, o momento exige a construção de uma grande barreira àqueles políticos e setores empresariais despreocupados com a reprodução da vida e da natureza nas próximas gerações. A Greve Global pelo Clima é uma oportunidade para avançarmos nessa luta.

Matheus Gomes tem 29 anos e é vereador de Porto Alegre pelo PSOL. Atua desde os 17 anos no movimento negro, estudantil e periférico, e atualmente tem inserção em diferentes coletivos e entidades, como o Afronte, o Nós Por Nós Solidariedade e Movimento Negro Unificado. É licenciado e mestrando em história pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), onde pesquisa a participação negra e periférica nas Jornadas de Junho de 2013. Em 2020, foi eleito vereador com a quinta maior votação da capital gaúcha.

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