100 dias de uma travesti em uma Câmara Municipal

O preconceito e conservadorismo não conseguiram silenciar e nem impedir o avanço da agenda política de nosso mandato

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. A maior parte de nossos conteúdos são exclusivos para assinantes, mas esta seção é de acesso livre sempre. Aproveite para experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

Há um ditado popular que alerta: “o mineiro tira a roupa, mas não tira o crucifixo”. Esse aforismo aponta para o caráter conservador e religioso presentes na identidade cultural de Minas Gerais. Aqui na capital, Belo Horizonte, é possível perceber esse traço da mineiridade em vários espaços, entre eles na Câmara Municipal. Darei apenas dois exemplos: 28 dos 41 vereadores eleitos fazem parte da chamada Frente Parlamentar Cristã e, antes de iniciar as reuniões no plenário, é obrigatório, segundo o regimento, a leitura de uma passagem bíblica. Mas aí vem o paradoxo: Belo Horizonte, que tem o conservadorismo cristalizado em muitas práticas, elegeu uma travesti como a pessoa mais votada da história de suas eleições. Neste texto, contarei como foram os meus cem primeiros dias de mandato, destacando a relação com os setores mais conservadores, os avanços políticos, os enfrentamentos e… a transfobia.

Os nossos primeiros meses na Câmara podem ser resumidos em uma frase da Clarissa Cotrim, chefa do nosso gabinete: “em menos de cem dias, nosso mandato já arrumou briga com uma mineradora, com duas construtoras e com mercados de animais”. Confesso que me assustei ao ouvir essa frase, pois ela me lembrou de algo que escutei algumas vezes nesses cem dias: “Duda, tome cuidado com a sua vida, você está mexendo com setores poderosos...” Não sofri até agora nenhuma ameaça de morte por ter feito esses enfrentamentos políticos, mas assumo meu medo, sobretudo pelo fato de o Brasil infelizmente figurar entre os países com mais assassinatos de ativistas ambientais no mundo. Sim, segundo relatório divulgado pela ONG Global Witness, Colômbia, Filipinas e Brasil são os territórios mais letais para defensores do meio ambiente.

Embora eu não tenha sido ainda ameaçada de morte por defender as áreas verdes de Belo Horizonte, sofri ameaça por outro motivo: ser uma travesti eleita para a Câmara de Vereadores. Após ganhar a eleição em 2020, o maior grupo de propagação de ódio da internet brasileira enviou-me dois e-mails com ameaças de morte. Tal grupo se articula no Dogolachan, fórum da deepweb que também foi utilizado pelos assassinos do Massacre de Suzano, que resultou na morte de cinco alunos e duas funcionárias da Escola Estadual Professor Raul Brasil, em São Paulo. Os e-mails endereçados a mim traziam a mensagem de que iriam me assassinar na escola em que eu trabalhava, transformando tal espaço em um “mar de sangue”. O caso está sendo investigado pelas polícias civil e federal.

O medo diante dessa realidade violenta que formata o país me serviu como remédio, para me proteger, e não como um veneno, para me imobilizar. Nesse sentido, nos cem dias de mandato, nosso gabinete não se intimidou e partiu para a luta em defesa dos direitos socioambientais em Belo Horizonte. Posso citar duas batalhas importantes: convocamos audiência pública para debater e tentar frear o avanço do processo minerário na Serra Curral, descortinando os impactos hídricos e o racismo ambiental que envolvem o empreendimento; e denunciamos o corte de quase 1.000 árvores na Mata da Represa (no bairro Havaí), importante espaço verde da cidade, cobrando explicações da prefeitura e do grupo imobiliário que quer construir cinco prédios na área. A notícia positiva é que a prefeitura, após mobilização popular, suspendeu por tempo indeterminado esse empreendimento e o desmatamento na mata.

Entre nós, travestis e transexuais, usamos a frase ‘até no céu haverá transfobia’ para ilustrar que há preconceito em todos os espaços que transitamos

Durante a campanha eleitoral, defendi que lutaria para fomentar e fortalecer em Belo Horizonte o conceito de saúde única, o qual opera com a ideia de que as saúdes humana, animal e ambiental estão interligadas de maneira indissociável. Tendo esse conceito como ferramenta basilar de nossa atuação política, apresentamos uma indicação ao prefeito Alexandre Kalil, pedindo a presença do médico veterinário nas equipes do “Programa núcleo de apoio à saúde da família e atenção básica” a fim de que ocorra a promoção da convivência saudável entre humanos e animais. Debatemos também, no plenário da Câmara, nosso projeto de lei que objetiva proibir a venda de animais em locais onde se comercializa alimentos para consumo humano. Infelizmente esse projeto foi arquivado por ter sido considerado inconstitucional pela Comissão de Legislação e Justiça. Mas não desistimos do projeto. Vale aqui lembrar que a atual pandemia tem relação direta com o mercado de animais.

Nesses cem dias de mandato, tive que enfrentar também a transfobia. No dia da posse, um vereador da Frente Cristã foi ao microfone parabenizar a mulher mais votada e citou o nome de outra parlamentar, ignorando, de maneira transfóbica, minha identidade. No Dia Internacional da Mulher, a presidenta da Câmara formou a mesa diretora apenas com mulheres, entre as quais estava eu. Um vereador, indignado com a cena, foi ao microfone e parabenizou “as mulheres de cromossomo XX” e disse que não iria tolerar um homem sentado com mulheres. Para atacar minha existência, usou um discurso biológico que, além de preconceituoso, ignora a diversidade cromossômica presente na natureza humana, a qual não se resume apenas em XX ou XY, mas há também XXX , XXY, XO, entre outras possibilidades que formam, do ponto de vista biológico, as pessoas intersexuais.

Entre nós, travestis e transexuais, usamos a frase “até no céu haverá transfobia” para ilustrar que há preconceito em todos os espaços que transitamos. Nesse sentido, é óbvio que nos locais políticos há muita transfobia, sobretudo em câmaras municipais conservadoras como a de Belo Horizonte. O preconceito, no entanto, não conseguiu silenciar e nem impedir o avanço da agenda política de nosso mandato. Prova disso é que nesses cem dias, começamos a desenhar com a prefeitura um programa de empregabilidade de pessoas trans e um projeto de distribuição gratuita de absorventes nas escolas municipais. Além disso, vimos avançar o nosso projeto de lei que cria a “Semana municipal dos povos indígenas”, o qual busca combater o apagamento da cultura indígena no cenário urbano. E, por último, é importante destacar que assinamos, conjuntamente com a bancada do PSOL e com um vereador da Rede, o projeto de lei que objetiva implementar a renda emergencial para população em vulnerabilidade de Belo Horizonte no atual contexto pandêmico.

Entre ameaças de morte, transfobias e conservadorismos, a gente vai, conforme cantou o poeta, sobrevivendo sem nenhum arranhão da caridade de quem nos detesta. Sigo viva e forte para as próximas batalhas políticas. Há braços!

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

Tribuna