O progresso necessita da diversidade

O que falta para que mulheres, negros, pessoas com deficiência e LGBTIs ocupem todos os espaços?

Mulheres, negros, pessoas com deficiência e doenças raras, gays, lésbicas, transgêneros... Juntos, compomos uma parte considerável do globo terrestre. Um contingente colossal de quem vota, paga imposto, consome. Não é questão de soberania, é puramente matemático: somos maioria no planeta Terra.

Diferentemente do que nos foi doutrinado, a diversidade não é composta por uma dita minoria que não pode ter voz e alcance. Ao contrário, nunca foi tão claro que, se as sociedades não aceitam aqueles que movimentam o mundo, os “diferentes”, ela é quem precisa ser revista — para não falir e colapsar. Esse é o recado que a humanidade vem tentando dar ao preconceito, ao ódio e à intolerância. A morte de George Floyd só ecoou essas vozes. Vidas negras importam sim! Vidas de todas as formas importam.

As ditas minorias, que sabemos ser gigantes, não sofrem de forma vertical e isolada. O preconceito é horizontal e as pessoas somam vulnerabilidades. O movimento #BlackLivesMatter conjuga esse pensamento quando propõe que pessoas brancas e negras se unam no combate ao racismo.

Você, que me lê no momento, realmente pode não ter culpa pela escravidão. Mas você tem responsabilidade no que se refere a ela. Todos nós temos. Ser antirracista é se apropriar de uma conduta humana, empática e, sobretudo, civilizada. Não se trata de militar por uma única bandeira. Opressões estão interligadas e só podem ser combatidas se avançarmos juntos. Pessoas não se limitam a um rótulo e ninguém coexiste em um microcosmo.

Sempre uso a mim mesma para abordar esse assunto, pois cheguei na política carregando comigo uma somatória de discriminações. Além de mulher em um universo majoritariamente masculino, carrego a deficiência — e na cadeira de rodas já tive de driblar o machismo, a misoginia e a crença de que minha condição física pudesse interferir na minha capacidade de trabalhar pelo país. A verdade é que todo corpo que fuja de um padrão estabelecido é subjugado e muitas vezes violado, de maneira explícita ou não.

Quando um jogador de futebol, por exemplo, é chamado de macaco nos campos, ele está sofrendo um preconceito grotesco e escancarado. Escancarado à torcida, à mídia, ao esporte como um todo. Mas quando uma mãe busca matricular o filho em uma escola e escuta que alunos com deficiência não são felizes ali, que o melhor é buscar uma “instituição especial”, a escola está de forma velada dizendo: “não aceitamos pessoas com deficiência aqui, procure o seu lugar”.

Racismo e discriminação são retratos da falência não só da sociedade, mas agora também de potências mundiais que não se curvarem à luta pela tolerância e respeito à diversidade humana

Nós, pessoas com deficiência, junto aos negros, gays e mulheres de forma geral, estamos em todos os lugares. O que falta para ocuparmos todos os espaços?

Segundo estatísticas da Organização Mundial de Saúde, a cada dez pessoas no mundo, uma possui deficiência. A cada cinco pessoas com deficiência, três são mulheres. O mundo conta com 1 bilhão de pessoas com deficiência, das quais 600 milhões são mulheres. E os maiores percentuais de pessoas com deficiência se concentram nas raças negra e amarela. Em todos os grupos raciais, são as mulheres as mais acometidas por deficiências.

A INWWD (International Network of Women with Disabilities), formada em 2008 e composta por organizações, grupos e redes de mulheres com deficiência em âmbito internacional, apontou que 40% das mulheres com deficiência em todo o mundo são vítimas de violência doméstica e 12% são vítimas de estupro.

Aqui no Brasil, de acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), dentre 200 milhões de brasileiros, temos 52% da população formada por mulheres — mais da metade (58%) são negras. E são essas mesmas mulheres as que mais sofrem opressão e violência. Nos últimos 10 anos, de acordo com o Atlas da Violência de 2018, a taxa de homicídios de mulheres não negras diminuiu 8%. No mesmo período, a taxa de homicídio de mulheres negras aumentou 15%.

Ainda segundo dados do Mapa da Violência de Gênero, da revista Gênero e Número, entre 2014 e 2017, no Brasil, 16.777 mulheres negras, lésbicas ou bissexuais registraram ter sofrido algum tipo de violência enquanto estavam fora de casa. Dentre mulheres negras, brancas, amarelas e indígenas, as negras representam 47% das ocorrências entre aquelas que se relacionam com outras mulheres.

Por esses dados fica claro que a desigualdade, a intolerância, o ódio e todas as formas de preconceito e violação são perversamente endereçadas. Sabemos que essas vítimas têm classe social, cor, deficiência, orientação sexual ou gênero. Negar isso ou não se importar é o mesmo que chancelar nossa incapacidade de exercer humanidade.

Nesses últimos dias, presenciamos empresas e marcas em todo mundo se unirem para movimentar um boicote à publicidade em plataformas como o Facebook, que ainda teima em fechar os olhos para a proliferação de discursos falsos, racistas e odiosos. O “Stop Hate for Profit” pode ter como alvo principal a rede de Mark Zuckerberg, mas o recado se estende para marcas, empresas, figuras políticas e personalidades no mundo: se a diversidade não é aceita, você não poderá mais lucrar com ela.

Racismo e discriminação são retratos da falência não só da sociedade, mas agora também (graças a Deus!) de potências mundiais que não se curvarem à luta pela tolerância e respeito à diversidade humana.

Finalmente começam a perceber que se uma vida é desrespeitada, é a humanidade que caminha para trás.

Mara Gabrilli foi eleita senadora pelo PSDB de São Paulo em 2018. Neste mesmo ano também foi eleita para representar o Brasil no Comitê sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência da ONU (Organização das Nações Unidas). É publicitária, psicóloga e fundadora do Instituto Mara Gabrilli. Já foi secretária municipal da capital paulista, vereadora da cidade de São Paulo e deputada federal por dois mandatos.

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