Não bastam cotas, é preciso condições iguais na política

A sociedade brasileira tem dado passos importantes rumo à diversidade em cargos legislativos e executivos, mas ainda temos muito a avançar. É necessário investir mais nas campanhas e também na formação de candidatos de grupos considerados minoritários

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Temos sido um Brasil conduzido por homens. Não só isso, há décadas, nossa política esteve nas mãos de homens que, geralmente, seguem o mesmo arquétipo: brancos, mais velhos e com histórico familiar na política. A notícia boa é que em tempos recentes, mesmo que de forma incipiente, esse cenário vem sendo desconstruído, com candidatos atípicos ocupando cargos públicos e indo na contramão desses modelos. O eleitor tem feito sua escolha valer nas urnas, com a vitória de candidatos negros, mulheres e representes da comunidade LGBTQIA+. Essa é uma prova de que a sociedade quer mudanças na política, sobretudo, com mais diversidade nos cargos executivos e legislativos. Por outro lado, os números mostram que ainda temos muito a avançar para conquistar de fato uma pluralidade entre nossos representantes.

Um levantamento da Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) aponta que o Brasil teve 15 pessoas transexuais e travestis eleitas em 2020 — duas delas em São Paulo, a maior cidade do país. De acordo com a organização, ao todo, foram 294 candidaturas trans registradas em todo o país. Motivo para comemorarmos, mas também para refletirmos. Falamos de uma população vulnerável e que ainda vive à margem de muitos direitos. Afinal, nosso país segue sendo uma das nações que mais mata pessoas trans no mundo. Só nos dez primeiros meses de 2020, 151 pessoas trans foram assassinadas, 27 casos a mais do que o total registrado em 2019.

Quando o assunto é mulher, a participação política feminina ainda segue abaixo dos 30% estabelecidos por lei. Ou seja, apesar da sensação de que as mulheres ganharam mais espaço no primeiro turno das eleições 2020, os números mostram que esse salto foi pequeno. Segundo a plataforma 72horas.org, do total de prefeitos eleitos no Brasil, apenas 12% são mulheres, contra 11,7% nas eleições de 2016. Já em relação às vereadoras, o aumento foi de apenas 2,5%. Se seguirmos nesse ritmo, ainda levaremos 20 anos para equiparar mulheres e homens eleitos. É muito tempo!

O Brasil precisa apostar em pessoas que viveram na pele o racismo, a homofobia e diversas formas de discriminação

De acordo com dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), as vereadoras eleitas em 25 capitais foram de 13% para 18% do total, em comparação com 2016, o que é considerado um avanço. Ainda assim, há uma desproporção em relação à porcentagem de candidatas mulheres, que foi de 31% a 36%, dependendo do local.

Já as candidaturas de negros, de acordo com o TSE, dos mais de 5.400 prefeitos eleitos, aproximadamente 1.700 candidatos se declararam pretos ou pardos, o que corresponde a 32% do total. O número é superior a 2016, quando 29% dos candidatos eleitos eram negros, segundo a classificação do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Apesar do avanço de representatividade, a proporção ainda é distante dos 56% que esse grupo representa na população brasileira. Por mais vagas que se criem, a disputa com homens padrões ainda é desigual. Isso sem falar que, assim como ocorreu em 2018, neste ano já aparecem indícios dos chamados laranjas, recrutados apenas para atingir o cumprimento das cotas obrigatórias de candidaturas negras e femininas.

Apesar de já existir a reserva mínima de 30% das vagas nos partidos para mulheres, bem como a reserva de recursos destinados para candidaturas femininas e de pessoas negras, ainda não alcançamos grandes resultados nos Executivo e Legislativo.

Quando pensamos nas pessoas com deficiência na política, o abismo é ainda maior. Dados do TSE mostram que 6.592 pessoas com alguma deficiência se candidataram a algum cargo na eleição municipal deste ano. O número equivale a apenas 1% da população com deficiência. De acordo com o IBGE, o Brasil possui 45,6 milhões de brasileiros com deficiência. Ou seja, a baixa representatividade desses candidatos ainda é uma realidade. Falamos de cidadãos tolhidos de galgar a carreira política porque as barreiras enfrentadas nascem muito antes, com a falta de oportunidades para estudar e ocupar o mercado de trabalho.

Em tempos de tanta intolerância e polarização, temos a chance de enriquecer nossa democracia, propondo intercâmbios, contrabalanceando ideias, correntes de pensamentos e formas diferentes de trabalhar e enxergar o Brasil. A sociedade brasileira tem dado passos importantes no reconhecimento da diversidade na política, mas é preciso mais. Mais investimento nas campanhas e também na formação política de grupos considerados minoritários.

O Brasil precisa apostar em pessoas que viveram na pele o racismo, a homofobia e diversas formas de discriminação. Elas sim possuem a força e o conhecimento de causa para trabalhar por segmentos à margem de representatividade. Afinal, a política é a arte ou ciência de governar. E não se governa sem ouvir a todos, tampouco se representa um povo, deixando pessoas para trás.

Mara Gabrilli foi eleita senadora pelo PSDB de São Paulo em 2018. Neste mesmo ano também foi eleita para representar o Brasil no Comitê sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência da ONU (Organização das Nações Unidas). É publicitária, psicóloga e fundadora do Instituto Mara Gabrilli. Já foi secretária municipal da capital paulista, vereadora da cidade de São Paulo e deputada federal por dois mandatos.

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