Democracia, liberdade de imprensa e a escalada autoritária

Não é a mídia que incomoda Bolsonaro, mas sim a denúncia da sua completa irresponsabilidade como governante

O apelo informal à imprensa enquanto um quarto poder de Estado remonta suas origens ao período da Revolução Francesa. O termo foi cunhado para se referir aos incipientes meios de comunicação da época, sugerindo que a mídia seria o poder cidadão responsável por vigiar os outros três poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário.

Assim como a saúde e a educação, há quem defenda que o acesso à informação também é um direito fundamental, sendo legítimo ao cidadão o direito de informar e receber informações. Atentar contra esse direito fere o espírito republicano e abala os pilares democráticos ao ignorar a imprensa como uma das bases de fundação dessas sociedades.

Em outras palavras, a democracia pressupõe acesso à informação, e ocupar cargos eletivos é assumir, em princípio e a rigor, os valores democráticos. Daí a inadmissibilidade dos reiterados ataques e da escalada de hostilidade de Bolsonaro e apoiadores conta a imprensa.

Enquanto instituição, a imprensa tem papel central nas sociedades democráticas, sendo uma das bases de formação da opinião pública, elemento essencial para o pleno exercício das liberdades republicanas. Ao atacar os meios de comunicação, Bolsonaro agride duplamente as liberdades: a da imprensa de informar e a do cidadão de ser informado. A liberdade de imprensa não é uma benesse governamental, ela é um direito inalienável do povo.

A necropolítica bolsonarista age com método, e um deles é a edificação de inimigos imaginários, numa tentativa de distrair as atenções das mazelas do governo. A crise instalada com a pandemia do novo coronavírus escancarou a incapacidade de Bolsonaro em administrar o país e deu início a uma escalada de violência nos ataques perpetrados contra a imprensa. As habituais ofensas verbais ganharam a companhia de agressões físicas de bolsonaristas a jornalistas.

Bolsonaro não reconhece oposição ao seu trabalho, mas inimigos a serem eliminados durante a implementação do seu projeto de poder pessoal

O trabalho da imprensa brasileira referente à pandemia de covid-19 não difere da tendência de cobertura jornalística dos outros países afetados pelo problema. Assim como colegas de outras nações, jornalistas brasileiros pautam o trabalho nos dados da ciência e em publicações de organismos multilaterais dedicados à pesquisa médica, além de especialistas de áreas correlatas.

Aqui, também se busca informações sobre taxa de contágio, capacidade de absorção de doentes pelo sistema de saúde, disponibilidade de insumos, equipamentos e pessoal para distribuição entre as unidades de atendimento. Infelizmente, pela proporção tomada pela pandemia, também é preciso buscar informações sobre mortes e o colapso dos serviços funerários. Imprensa exercendo o direito de informar e o cidadão de ser informado.

Bolsonaro, pelo contrário, assume uma postura completamente incompatível com a sua posição ao, primeiramente, negar a pandemia e, posteriormente, agir de forma deliberada pelo enfraquecimento das medidas de enfrentamento e pela criação de conflitos desnecessários na sociedade e entre os entes federativos. Contra a necessária união na busca de soluções, há o trabalho incessante do presidente para dividir a nação.

Em suma, não é a imprensa que incomoda Bolsonaro, mas sim a denúncia de sua completa irresponsabilidade, agravada sobremaneira desde a chegada da pandemia ao Brasil. Não fosse assim, a necropolítica bolsonarista não teria como mais um dos seus fundamentos a disseminação sistemática de notícias falsas, as famosas fake news. A insistência na cloroquina, contra todas as evidências científicas, ilustra de forma patológica essa fixação pela mentira.

Bolsonaro procura reconstruir a realidade a partir de seus próprios simulacros enquanto método de dominação de narrativas com fins totalitários. Não reconhece oposição ao seu trabalho, mas inimigos a serem eliminados durante a implementação do seu projeto de poder pessoal. A escalada autoritária está inserida em seu método de açodamento das instituições.

A sociedade civil começa a se organizar diante da inércia institucional para com a escalada autoritária e grave ameaça à democracia representada por Bolsonaro. Um limite perigoso foi ultrapassado com as agressões desferidas contra jornalistas que de forma legítima exerciam o seu ofício. Ao ser confrontado com a realidade, Bolsonaro ataca a imprensa. Sua base, cada vez mais radicalizada e alienada, agora se utiliza do terror e da violência para intimidação.

O Brasil atravessa uma crise sanitária sem precedentes em sua história, que exigirá enormes esforços da classe política para ser superada. Bolsonaro é totalmente incapaz de conduzir o país diante dos problemas econômicos e sociais associados à pandemia. O derretimento de sua popularidade é resultado direto da ineficiência de seu governo em lidar com a situação e um prenúncio de mais turbulências pela frente. A radicalização é o suspiro de um líder moribundo.

Afastar Bolsonaro da Presidência é um imperativo ético, moral e civilizacional. Mantê-lo no cargo é ignorar o potencial genocida de seu governo. Por tudo acima descrito, e por diversos outros crimes, dia 19 de maio, terça-feira, o ato Janelas Pela Democracia: Impeachment Já! exibirá o rechaço da sociedade aos arroubos totalitários de Bolsonaro e reafirmará a adesão do povo brasileiro aos valores democráticos e republicanos da Constituição Federal de 1988.

A iniciativa, organizada pela oposição democrática formada pela Rede, PDT, PSB e PV, é uma atividade de mobilização e união popular em defesa da democracia e para manifestar apoio aos pedidos de impeachment protocolados contra Jair Bolsonaro pelos diferentes crimes cometidos na Presidência da República. A sociedade não assistirá passivamente à ruína das instituições.

Randolfe Rodrigues é senador do estado do Amapá pela Rede Sustentabilidade, é líder da oposição. Atua no movimento estudantil desde os 13 anos de idade. É professor, graduado em história, bacharel em direito e mestre em políticas públicas pela UFC (Universidade Federal do Ceará). Foi deputado estadual por duas vezes. Em 2010 foi eleito o mais jovem senador daquela legislatura, e foi reeleito em 2018.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

Tribuna

Já é assinante?

Entre aqui

Continue sua leitura

Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: