A resposta da diversidade nas urnas municipais

As eleições, por conta da covid-19, já serão diferentes. Mas esta é a oportunidade de inovar de fato — não só na migração das campanhas para o ciberespaço, mas incluindo, inovando, pensando em todos

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Em menos de dois meses teremos eleições municipais para escolher prefeitos e vereadores. É o momento de avaliar as diversas propostas às nossas cidades e ponderar soluções que de fato priorizem o bem estar dos municípios e das pessoas – aliás, de todas as pessoas. Afinal, política é a arte ou ciência de governar. E não se governa bem deixando pessoas para trás.

Em 2004, quando ainda militava em uma ONG (organização não-governamental) que fundei para apoiar paratletas e pesquisas para a cura de paralisias, percebi que as pessoas com deficiência não conseguiam acessar praticamente nenhum serviço das cidades porque eles eram repletos de barreiras. Elaborei um projeto de criação de uma secretaria na cidade de São Paulo com o foco na inclusão das pessoas com deficiência e mobilidade reduzida. José Serra, que assumiu o comando da prefeitura paulistana em 2005, acreditou na ideia e me convidou para assumir o desafio de promover a acessibilidade e a inclusão na maior cidade da América Latina.

Nesta época, entre outros feitos, conseguimos reformar cerca de 400 km de calçada da capital, inclusive a da Avenida Paulista, que se tornou a via mais acessível da América Latina. Tempos depois, já vereadora de São Paulo, aprovamos a PEC (Proposta de Emenda Constitucional) lei nº 14.675/2008, conhecido como Plano Emergencial de Calçadas, que obriga a Prefeitura a reformar as calçadas em rotas estratégicas — locais da cidade onde se concentram serviços importantes e com alto fluxo de pedestres, como escolas, hospitais, bancos, creches, etc.

Você pode estar pensando que essa é uma pauta segmentada. Mas não é. Uma cidade que é boa para quem tem algum tipo de mobilidade reduzida ou qualquer deficiência, seja temporária ou não, é muito melhor para quem não tem. Então trabalhar pela acessibilidade não é trabalhar para cadeirantes. É para garantir o direito de ir e vir de todos. Segmentar trabalho não é comigo, mas igualar oportunidades sim.

Nesse sentido, é dever de quem representa o povo pensar no todo, fazendo reflexões do tipo: o que a cidade pode fazer a favor das pessoas? Calçadas planas, acessíveis e seguras? As escolas podem ser inclusivas para todos os alunos? A comunicação da minha campanha e do meu mandato será feita para qualquer cidadão, inclusive àqueles que não ouvem e não enxergam? E a oferta de transporte público, hospitais e lazer? Atenderá a todos com segurança e agilidade? E os idosos, como incluí-los nos programas da cidade? Mulheres, jovens e a população LGBTI estão todos no radar das ações do município?

São muitas as reflexões que precisam ser feitas para criar uma agenda positiva com soluções para as cidades. E esse é um compromisso que os candidatos precisam ter no radar ao elaborar seus planos de governo.

Já passou da hora da política falar menos e ouvir mais. Um mar de minorias que são gigantes cansou de ser personagem de novos candidatos, mas de velhos discursos

Tempos atrás, quando comecei a traçar o meu plano de trabalho para minha candidatura ao Senado, passei a ser questionada sobre minorias, algo que para mim sempre foi muito orgânico, já que sou considerada uma. “Quem você vai defender, Mara?”, “os gays terão vez em seu mandato?”, “e os negros?”, “e para as mulheres, quais são suas propostas?”.

Minha resposta para todas essas perguntas foi uma só: vou trabalhar pelas pessoas. Pelo direito de todas as pessoas. Essa sempre foi minha conduta desde que entrei para a vida pública. A verdade é que nunca fiz questão de trabalhar um rótulo. A cadeira faz parte de mim, mas ela não representa a amplitude do nosso trabalho.

Em meu gabinete, por exemplo, temos um recorte que considero muito real da nossa sociedade. Tenho assessores que carregam corpos, competências, habilidades e ideologias diferentes. Tem cego, surdo, gago, autista, gay, negro, oriental, idoso, lésbica, heterossexual, pessoa com síndrome de Down, evangélico, pessoas com doenças raras, esclerose múltipla, católico, espírita, loira, morena, careca... E eu não preciso levantar uma bandeira para cada um deles. Minha forma de representá-los no Parlamento é realizando um trabalho com honestidade e decência, sem deixar de ouvir ninguém.

Sempre vale lembrar que os direitos de cada ser humano independem de raça, cor, etnia, idade, origem, deficiência, sexo, religião, condição econômica ou social. Em ano de eleição, temos a chance de lembrar a dívida histórica com grupos mais vulneráveis e promover melhorias nas cidades que farão a diferença na vida de todos. O primeiro passo começa escolhendo bons representantes na municipalidade, votando em prefeitos e vereadores de condutas inclusivas e inovadoras, que respeitam as diferenças e trabalham pelo bem-estar de cada cidadão, dentro de sua individualidade. A vida acontece nas cidades e elas precisam ser acolhedoras para viver, trabalhar, estudar, morar — e por que não — amar?

O mundo ainda caminha hoje em torno de um vírus, e as eleições, por si só, já serão diferentes por conta disso. E esta é a oportunidade de inovar de fato — não só migrando das ruas para o ciberespaço durante a campanha, mas incluindo, inovando, pensando em todos. Caso contrário, a única mudança nessas eleições será a troca do santinho de papel pela quantidade exorbitante de lives realizadas por candidatos em suas plataformas digitais.

Já passou da hora da política falar menos e ouvir mais. Um mar de minorias que são gigantes cansou de ser personagem de novos candidatos, mas de velhos discursos. Que as urnas mostrem quem de fato está comprometido em combater retrocessos e trabalhar para todos.

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