A história ensina: fascismo não se discute. Fascismo se combate

A criação de frentes em defesa da democracia é um sinal do amadurecimento da sociedade civil brasileira

O amadurecimento democrático da sociedade brasileira pode ser percebido pela movimentação ocorrida nas últimas semanas que resultaram em diferentes frentes de defesa da democracia diante dos reiterados ataques de Bolsonaro e sua escalada autoritária. De uma ponta a outra do espectro político, pontes de diálogo foram construídas com o objetivo único de impedir a implosão do Brasil diante da ruptura institucional ensaiada pelo governo.

A despeito de diferenças ideológicas e projetos de desenvolvimento nacional, partidos políticos, movimentos sociais, associações de classe, instituições do mercado, cidadãos e cidadãs lançaram nos últimos dias iniciativas cujo objetivo é a aglutinação das forças democráticas para a criação de uma frente ampla voltada à manutenção da normalidade institucional e do ambiente democrático no Brasil, impedindo a escalada neofascista verificada no país.

A beligerância de Bolsonaro e apoiadores tem se traduzido na intensificação dos ataques às vozes contrárias ao governo — especialmente a imprensa — e na materialização da violência contra opositores. As cenas de agressões flagradas na Praça dos Três Poderes contra enfermeiros e jornalistas, por exemplo, ilustram as inspirações fascistas com que se procura espalhar o terror na sociedade e ameaçar a resistência democrática. Mas afinal, o que é o fascismo?

De difícil conceituação pelos estudiosos do tema, o fascismo pode ser abordado como um sistema autoritário de dominação caracterizado por uma ideologia de culto ao chefe, com um aparato de propaganda submetido ao controle de informações, pelo aniquilamento das oposições e uso da violência e terror na implementação do projeto de poder, entre outras características. Com a devida atualização histórica, nada muito longe do momento atual.

A legitimidade dos movimentos pode ser medida pela miríade de visões de mundo reunidas, tendo todas elas como foco principal a democracia

Originalmente surgido no período compreendido entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, o fascismo dominou o debate político primeiro na Itália. Mas foi na Alemanha nazista que se desenvolveu e se espalhou para outras nações e continentes. O Brasil não ficou de fora, sendo a experiência do Movimento Integralista seu ensaio por estes trópicos. Felizmente a aventura foi rechaçada no nascedouro, livrando-nos de novos horrores além daqueles que já carregamos.

De toda forma, a força do fascismo não pôde ser ignorada e prova disso foi a imensa frente ampla criada em âmbito global contra os fascistas. Liderado por Winston Churchill, o mundo se uniu e impediu o florescimento do arbítrio em escala planetária. Nações tão antagônicas como Estados Unidos e União Soviética, ou rivais antigos como Inglaterra e França, colocaram as suas diferenças de lado e combateram juntas o fascismo e seus aliados. O resultado todos nós sabemos qual foi.

Mas não apenas no âmbito institucional que o fascismo foi combatido. A sociedade civil também se organizou e lutou pela democracia. As brigadas civis da resistência holandesa e francesa, os partisans, por exemplo, são exaltadas na historiografia do período e servem de inspiração até os dias atuais.

A história ensina que não se deve esperar a ação das instituições para conter o fascismo. O mesmo se aplica diante da escalada autoritária de Bolsonaro. Esse é o caminho que está sendo construído! Movimentos como “Estamos Juntos”, “#Somos70Porcento”, “Basta”, “Somos Democracia” e “Direitos Já” procuram ocupar o vácuo das instituições na mobilização popular pela defesa dos valores democráticos e republicanos contra a agenda fascista de Bolsonaro.

As adesões reúnem uma amostra heterogênea da sociedade e a legitimidade dos movimentos pode ser medida pela miríade de visões de mundo reunidas, tendo todas elas como foco principal a democracia. Entre os signatários das diferentes iniciativas temos magistrados, empresários, artistas, políticos, lideranças populares e atletas, além de trabalhadores e trabalhadoras das mais diversas categorias profissionais. Pessoas que não se curvam ao arbítrio. A velocidade com que essas iniciativas se espalharam pela sociedade é outra prova de nosso amadurecimento democrático e repulsa à necropolítica genocida e fascistóide de Bolsonaro. As críticas direcionadas a essas articulações — pela amplitude das alianças — longe de cumprirem um papel difamatório, evidenciam a disposição para o diálogo entre os setores democráticos na busca pelo aprimoramento das iniciativas de resistência à ruptura institucional.

O mundo, e particularmente o Brasil, mais uma vez encontra-se na encruzilhada da história. A pandemia do novo coronavírus já alterou profundamente a sociedade global e as consequências para o nosso futuro ainda estão incertas. Nosso caso em especial suscita muitas preocupações, afinal não temos apenas que lidar com os milhares de mortos decorrentes da falta de um plano de Bolsonaro para enfrentamento da epidemia. A democracia brasileira também adoeceu. E nós não permitiremos mais esta morte decorrente da necropolítica genocida de Bolsonaro.

Randolfe Rodrigues é senador do estado do Amapá pela Rede Sustentabilidade, é líder da oposição. Atua no movimento estudantil desde os 13 anos de idade. É professor, graduado em história, bacharel em direito e mestre em políticas públicas pela UFC (Universidade Federal do Ceará). Foi deputado estadual por duas vezes. Em 2010 foi eleito o mais jovem senador daquela legislatura, e foi reeleito em 2018.

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