A educação como foco para comunicação não virar desinformação

Precisamos rever o nosso sistema educacional para entendermos o real impacto das fake news

Muito além de “likes”, comunicar para mim sempre foi sinônimo de educar, inspirar, gerar engajamento positivo. Em tempos de fake news, proponho aqui uma reflexão sobre um tema que tem tudo a ver com a propagação de notícias falsas, mas que ainda é muito negligenciado em nosso país: educação e desigualdade digital.

De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), até 2018, uma em cada quatro pessoas no Brasil não tinha acesso à internet. Em números totais, isso representa cerca de 46 milhões de brasileiros que não acessavam a rede. Com a pandemia e a necessidade de se estudar em casa, a desigualdade digital no Brasil ficou ainda mais evidente, com alunos sem conseguir assistir a aulas em homeschooling e vestibulandos sendo colocados à margem de oportunidades por não terem as mesmas condições para estudar em casa e se preparar para exames como o Enem.

Vivemos um paradoxo contemporâneo muito perverso, porque progredimos em termos de tecnologia, mas continuamos atrasados na educação mais básica. Talvez mais retrógrados do que nunca nesse sentido, com professores se desdobrando para resgatar o interesse dos alunos pela leitura e pela busca de fontes confiáveis de notícias que não sejam oriundas de redes sociais. Apesar de as crianças terem acesso a tecnologias cada dia mais cedo, a maior parte de nossos estudantes ainda têm dificuldades em decodificar e interpretar textos simples. E isso é reflexo de uma educação analógica que carece de investimentos do Estado.

O resultado disso são cidadãos cada vez mais distantes de fontes confiáveis de informação e menos capacitados para armazenar dados e fazer sinapses. A interação ocorre muito mais por redes sociais, que trazem a informação fatiada, enviesada e de acordo com os algoritmos, o que é algo que deve ser levado em consideração em qualquer debate que envolva a disseminação de fake news. Afinal, as bolhas de interação criam pontos de vista cada vez mais limitados, onde as pessoas passam a simplesmente compartilhar. E, muitas vezes, compartilham conteúdo falso.

A nós, formadores de opinião, cabe trabalhar por uma rede de informação menos sectária e mais ética, sem negligenciar a educação

Ao mesmo tempo em que a internet abriu possibilidades para a democratização do conhecimento, não preparamos as pessoas para se tornarem receptores aptos a detectar o que é básico: distinguir o que é uma mentira. Nas últimas eleições esse fenômeno foi notório.

Para se ter uma ideia, uma pesquisa do Datafolha, em 2018, mostrou que quase metade dos eleitores usuários do WhatsApp acreditavam nas notícias que recebiam pelo aplicativo. Para 47%, as informações que chegavam eram confiáveis. No entanto, estudos comprovaram que boa parte desse conteúdo era falso.

Durante a campanha ao Senado, eu mesma fui alvo desse tipo de episódio, com uma avalanche de notícias falsas a meu respeito. O que era mais comum entre os grupos que compartilhavam as fake news é que a maioria esmagadora não buscava uma fonte oficial para checar a informação. Não buscavam o meu site para conhecer minha história, meus posicionamentos.

O que muito me preocupa nesse cenário é que os jovens são extremamente suscetíveis a esse tipo de movimento na rede. Eles estão num verdadeiro limbo de oportunidades. No primeiro trimestre de 2020, de acordo com o IBGE, a taxa de desemprego entre pessoas de 18 a 24 anos ficou em 27,1%, bem acima da média geral de 12,2% do país no período. Sem oferta de trabalho, de estágio e de acesso a educação, cultura e lazer, os jovens ficam cada vez mais vulneráveis a discursos desconstrutivos disseminados na rede. Sem oportunidades, não se expande horizontes. E onde não se vê possibilidades, não há esperança de mudar. Definitivamente, essa não deve ser a juventude que buscamos para construir um país igual e próspero.

Para acabarmos com a disseminação de fake news na sociedade brasileira, é necessário, sobretudo, pensar em educação, em comportamentos que queremos inspirar. E isso começa pelo poder de voz que cada representante público detém. Se o conteúdo não é factual, não cultiva algo bom, não informa de maneira construtiva e não é pautado pelo respeito aos direitos humanos, não vale ser propagado. Uma geração, que é o futuro do nosso país, estará com um celular na mão pronto para compartilhar o que for.

Quando se dá exemplos é importante saber que há pessoas que passarão a pensar exatamente da sua forma. E há pessoas que, de tão expostas a certa fala, passarão a repeti-la por conta própria. A nós, formadores de opinião, cabe trabalhar por uma rede de informação menos sectária e mais ética, sem negligenciar a educação, que ainda é a maior ferramenta de progresso de uma nação. O valor da tecnologia se ressignifica a todo tempo, mas o conhecimento é sólido, imutável e transformador de verdade.

Mara Gabrilli foi eleita senadora pelo PSDB de São Paulo em 2018. Neste mesmo ano também foi eleita para representar o Brasil no Comitê sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência da ONU (Organização das Nações Unidas). É publicitária, psicóloga e fundadora do Instituto Mara Gabrilli. Já foi secretária municipal da capital paulista, vereadora da cidade de São Paulo e deputada federal por dois mandatos.

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