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Um radicalismo que vale a pena: a radical defesa do diálogo

É positivo que hoje a população esteja mais antenada na política, mas precisamos evitar dar voz a uma minoria barulhenta que leva o debate a níveis tóxicos

Minha decisão de ingressar na vida pública, desde o momento em que decidi me candidatar a um cargo eletivo e, principalmente, a partir da minha eleição, me fez conhecer de perto a forma como a sociedade tem se relacionado com a política. Sem dúvida nenhuma, hoje a população está muito mais antenada e participativa, o que pude perceber tanto nas inúmeras agendas que fiz em Minas Gerais e em todo o país para debater política, com a presença de milhares de pessoas ao longo do ano, quanto nas redes sociais, onde assuntos relacionados à política frequentemente dominaram os debates.

Essa mudança é claramente positiva. Afinal, é a vigilância constante da sociedade que impõe limites a quem está no poder. Não queremos mais a inércia que reinou por décadas e permitiu que criminosos se apropriassem da política apenas com o intuito de enriquecimento próprio e perpetuação no poder dos próprios grupos.

Porém, me preocupa a postura adotada por parte da população, que acredito ser apenas uma minoria barulhenta, que extrapola nas reações e leva o debate político para um nível bastante tóxico, que só prejudica esse recente amadurecimento da relação da sociedade com a política.

Não estou falando aqui da simples e tão falada "polarização". Acredito que a política brasileira de certa forma sempre foi polarizada. Vivemos duas décadas de polarização entre PT e PSDB, mas não víamos o nível de toxicidade atual. E não acredito que polarizar ideias é necessariamente ruim. Muitas vezes só conseguimos ter acesso à amplitude das consequências de determinada decisão se colocarmos na mesa todas as hipóteses possíveis, de um lado a outro.

Portanto, não me preocupa que o debate político atual envolva, talvez como nunca envolveu antes, uma pluralidade de ideias que por muitas vezes são opostas. O que me preocupa é a superficialidade e agressividade que esse debate político muitas vezes tem tomado, o que impede que o confronto de ideias se transforme em algo construtivo e produz justamente o contrário: o afastamento entre quem pensa diferente e um bloqueio a ideias divergentes.

Não por um acaso, esse agravamento aconteceu em paralelo à substituição da polarização PT x PSDB por uma polarização Lulismo x Bolsonarismo, que personificou o embate em líderes populistas que optam por um discurso inflamado e, em muitos aspectos, parecido. Ambos promovem o culto à própria personalidade, adotam um discurso divisionista da sociedade em "nós" vs. "eles", demonizam todos aqueles que os criticam, afrontam à liberdade de imprensa e por aí vai. E é curioso como esse comportamento se assemelha em ambos os espectros ideológicos, a princípio, opostos.

Se há algo em que devemos ser radicais é na promoção do diálogo, no aprofundamento das ideias e na oposição aos comportamentos destrutivos

Atribui-se ao filósofo francês Jean-Pierre Faye a autoria da teoria da ferradura, que defende que, ao contrário de estarem em extremos opostos de um espectro político que muitos acreditam ser linear, extrema direita e extrema esquerda estão bem próximas, como nas extremidades de uma ferradura. Quanto mais próximo do extremo, mais se parecem e comungam de muitas ideias e práticas, como o totalitarismo, culto ao Estado, protecionismo e isolacionismo.

Da mesma forma, percebo que esse comportamento extremo, que ignora fatos, adere a teorias conspiratórias e mantém um discurso agressivo e superficial ao seguir cegamente o seu líder, também se repete de forma bastante parecida entre lulistas e bolsonaristas.

Sou um deputado representante de um partido liberal e independente, crítico ao desastre econômico e aos atos criminosos e antidemocráticos dos anos do PT, mas também crítico às patacoadas e ao viés autoritário de Bolsonaro, ainda que eu comungue de muitas ideias de sua equipe econômica. Desta forma, sou atacado com frequência pelos dois lados, e fico sempre impressionado com a enorme semelhança entre eles.

Sou alvo frequente dos lulistas, e da esquerda em geral, ao defender ideias liberais, o fim da cultura do estatismo, a prisão de criminosos julgados e condenados e pautas pouco populares, mas necessárias, como o ajuste fiscal, reformas da Previdência e administrativa, e a reestruturação do ensino superior público brasileiro.

Sempre que falo sobre esses temas, surgem reações e comentários como: "Esse animal do NOVO", "Rato de laboratório", "Traidor da juventude", "Isenção zero. Nem vou me dar ao trabalho de ler", "Playboy que nunca precisou usar serviços públicos", "Discurso das elites banqueiras", e tantos outros menos publicáveis.

Por outro lado, ao criticar a incoerência e falta de preparo de Bolsonaro, seu viés autoritário, as constantes decisões que mostram que ele governa para os seus, os ministros inconsequentes, e o fato de o governo ser quem mais atrapalha o próprio governo, viro alvo de bolsonaristas.

Nestes casos, aparecem comentários como: "Esquerda travestida de direita", "Rosto perfeito do oportunismo e da canalhice", "Isentão", "Filhotinho do Soros", "Esquerda disfarçada", "Socialistinha enrustido", e também inúmeros outros que não passariam no filtro editorial.

Além do lado tragicômico de, ao mesmo tempo, eu ser chamado de "isentão" e de "isenção zero", de "socialista" e de "representante dos bancos", fica a reflexão de para onde estamos caminhando, como sociedade, quando aceitamos e replicamos sem pudor comportamentos deste tipo.

Para o Brasil dar certo, precisamos definitivamente continuar a renovação dos nossos políticos, iniciada em 2018. Mas também precisamos amadurecer como sociedade e não mais tolerarmos, e muito menos repetirmos, reações que apenas nos dividem e nos afastam da transformação em uma democracia plena. Se há algo em que devemos ser radicais é na promoção do diálogo, no aprofundamento das ideias e na oposição aos comportamentos destrutivos.

É dessa forma que tenho buscado atuar no Congresso e que continuarei atuando nos próximos 3 anos. Espero que os leitores desta coluna, da qual me despeço com este artigo, possam também ser radicais defensores dessa ideia.

Obrigado ao Nexo e aos leitores que me acompanharam neste espaço, e um feliz 2020 a todos!

Tiago Mitraud foi eleito deputado federal pelo Novo de Minas Gerais em 2018. É Líder RenovaBR, foi diretor executivo da Fundação Estudar e presidente da Brasil Júnior. Formou-se em administração pela UFPR e fez pós-graduação na Harvard Business School.

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