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Por uma juventude presente

É fundamental acelerar o ritmo de inclusão de jovens na escola para construir uma sociedade mais justa, democrática e economicamente forte

    Os 1,1 milhão de jovens que estão hoje fora do sistema educacional representam 1,1 milhão de sonhos esmagados e futuros perdidos. Se o Brasil continuar avançando no lentíssimo ritmo atual, levaremos cerca de 200 anos até termos todos os jovens de 15 a 17 anos na escola.

    Até no estado mais rico do Brasil, São Paulo, a escola não está chegando até o aluno. Existe um enorme abismo, fruto de contextos amplos como desigualdade e pobreza, assim como da inabilidade da nossa educação de se atualizar às necessidades das novas gerações. É a história retratada na Galeria de Estudos e Avaliação de Iniciativas Públicas (Gesta) por jovens como o Paolo, que parou de ir para a escola porque sentia vergonha e não tinha condições dignas para se alimentar, muito menos para comprar um caderno; e do Vinícius, que se sentia oprimido na escola. É a realidade com a qual cresci, na Vila Missionária, vendo inúmeros amigos saírem da escola — algumas porque engravidaram, outros porque se envolveram com drogas, e outros ainda porque simplesmente perderam a esperança e deixaram de ver sentido nos estudos.

    Como o ciclo de política pública é lento e as ações estruturantes demoradas, resolvi destinar 100% do recurso de emendas, ao qual todos os parlamentares têm direito, no valor aproximado de R$ 15 milhões/ano, para essa causa no meu estado. Lancei, na segunda-feira (12), não por acaso o Dia Internacional da Juventude, um edital para selecionar de forma transparente e isenta, com base em critérios técnicos, até 25 propostas com foco no jovem e no combate à evasão e abandono escolar.

    Acredito que interromper o ciclo da desesperança da juventude é fundamental, se almejamos a construção de uma sociedade mais justa, solidária, democrática e participativa e também economicamente mais forte, com maior produtividade do trabalho, competitividade e inovação. O jovem é o portador do futuro. Os que, em especial, são da periferia vivem no abandono social. O desengajamento educacional, fruto dessa situação, impacta gerações inteiras, mas também o desenvolvimento global do país.

    Com a ajuda de um comitê técnico, ao longo dos quatro anos do mandato vamos escolher os projetos com maior potencial de impacto, acompanhar minuciosamente a aplicação desse recurso público, e avaliar cada projeto escolhido, garantindo que estamos de fato contribuindo para melhorar a frequência escolar.

    É perversa a aritmética da desigualdade brasileira, como qualifica o estudo "Políticas públicas para a redução da evasão e do abandono escolar", organizado por um grupo de especialistas liderados pelo economista Ricardo Paes de Barros. O problema é nacional, mas, como esperado, adquire contornos mais graves nas mais distantes periferias. Na área rural do Nordeste, por exemplo, apenas 8% dos filhos negros de mães analfabetas completam o ensino médio.

    Nosso objetivo é estimular os gestores a formular políticas públicas mais eficientes e possibilitar que nossos jovens voltem a sonhar e a construir seus futuros, independentemente de suas origens.

    Mais grave ainda é que, a cada geração que se perde, perpetua-se o ciclo da pobreza, da desigualdade e da violência. O futuro desses jovens fica comprometido. Jovens que não concluem o ensino médio, somados, deixam de ganhar R$ 35 bilhões/ano em renda. A taxa de desemprego entre os jovens com idade de 18 a 24 anos foi de 27,3% no primeiro trimestre de 2019. Não ir para a escola causa também um prejuízo social incalculável às famílias que sofrem com a violência e com a exclusão de moradia, emprego e saúde.

    Nosso quadro educacional é desolador e falhamos no alcance das promessas. O Plano Nacional de Educação de 2014 estabeleceu metas, prevendo que, até 2016, todos os jovens na faixa de 15 a 17 anos deveriam estar na escola. Já estamos em 2019 e continuamos com pelo menos 10% dos jovens fora da escola. O PNE também prevê que, até 2024, 85% dos jovens devem estar  matriculados no ensino médio especificamente mas, até hoje, somente 68,7% deles estão — um atraso inaceitável. Em São Paulo, apenas 79,4% dos jovens dessa faixa etária estão matriculados nas séries correspondentes à idade e 78,3% daqueles com 19 anos concluíram o ensino médio.

    O Brasil precisa ser mais inclusivo, melhorando sua posição relativa no universo de 98 nações que o estudo do Paes de Barros compara, valendo-se da ampla base de dados da Unesco. Cerca de 74% desses países têm conseguido aumentar a porcentagem de jovens no ensino médio em um ritmo superior ao do Brasil. Atualmente, estamos atrás de 63% deles.

    Quantas gerações teremos perdido até que algo efetivo seja feito?

    Nossas emendas vão contemplar projetos que, por exemplo, ampliem a rede de transporte escolar, para garantir a inclusão dos jovens que moram nas regiões mais afastadas, e também projetos de apoio à inovação e tecnologia na educação, para garantir uma educação atual e conectada com o futuro do mercado de trabalho. Já na área da saúde, que deve representar 50% das emendas, vamos priorizar projetos de prevenção ao uso de drogas, prevenção de gravidez na adolescência e assistência a jovens vítimas de violência física e psicológica — que são fatores que ainda tiram nossos jovens da escola e que não têm nada a ver com a qualidade da escola.

    O processo é aberto à participação de órgãos da administração pública ou organizações sem fins lucrativos de São Paulo. É importante que os proponentes estejam em condições de atender às exigências e requisitos definidos pela Lei de Diretrizes Orçamentárias para repasse de verbas dos governos estadual e federal e aos critérios do edital. Nosso objetivo é estimular os gestores a formular políticas públicas mais eficientes e possibilitar que nossos jovens voltem a sonhar e a construir seus futuros, independentemente de suas origens. Como sociedade, não temos o direito de lutar por menos.

     

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