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O que eu aprendi no meu gabinete itinerante

A política acontece no coletivo, e é nas ruas que conseguimos debater propostas concretas e ver a democracia de verdade florescer

Cresci ouvindo o meu pai reclamar e, às vezes, brigar com as pessoas que vinham todo ano eleitoral pintar o número de algum candidato no nosso muro. Essa prática é comum especialmente em regiões periféricas e marcadas por ocupações, como é o caso do bairro onde cresci. O problema é que ninguém conversa com as pessoas ou pergunta em quem vão votar. A divisão da comunidade entre os candidatos “da região” é feita pelos cabos eleitorais.

De certa forma, esse foi o meu primeiro contato com a política e, evidentemente, foi um contato nada inspirador. Quando, anos depois, decidi me filiar a um partido e me candidatar, uma das maiores certezas que eu tinha é que não iria perpetuar essa política cheia de falsos intermediários e excludente das pessoas comuns.

Já nos primeiros meses como deputada, comecei o Gabinete Itinerante com o sonho de percorrer o Estado de São Paulo. O objetivo era falar sobre as minhas ações em Brasília e ouvir as ideias e necessidades das pessoas, especialmente aquelas que, assim como eu, cresceram achando que política não era para a gente. Antes mesmo de ter um carro, comprei um trailer para abrigar uma biblioteca ambulante, que logo ficou lotada com livros sobre os mais diversos temas – ainda hoje recebemos doações de livros quase que semanalmente! E assim, todos os meses, vou para diferentes pontos do Estado e do município de São Paulo, levando sempre apresentações culturais, formação política, um convidado especial e muito debate.

Quando estamos olho no olho e debatemos propostas concretas, podemos até não concordar em tudo, mas é mais fácil ouvir e respeitar. Nas ruas, temos democracia de verdade

Compartilho com vocês os principais aprendizados que venho tendo com essa experiência:

1. O propósito da política está no coletivo

No curso de Ciência Política aprendemos que Aristóteles dizia que o objetivo da política é a felicidade individual e coletiva dos indivíduos que fazem parte da comunidade. Quando estou cercada de pessoas que saíram de suas casas em um sábado à tarde para passar horas falando sobre os mais diversos temas sinto que, de certa forma, juntos nós encontramos propósito e, por que não, felicidade na política. O que ouço me ajuda, e muito, na minha atuação parlamentar, seja nas reuniões com o governo estadual ou municipal ou no desenho dos projetos de lei. O Gabinete Itinerante se tornou para mim a principal fonte de motivação do mandato, porque é ali que sou lembrada do porquê de eu ter escolhido esse caminho.

2. Presença digital não é suficiente

Entre Brasília e São Paulo há um abismo enorme. Eu e meu time nos esforçamos diariamente para divulgar nossas ações e posicionamentos nas redes sociais. No entanto, é no Gabinete Itinerante que percebo quão distante a política está das pessoas. Muitas pessoas não têm ideia sobre as responsabilidades de um deputado federal, por exemplo. Por isso, sempre começamos os nossos encontros com um aulão que explica conceitos como comissões, PECs e emendas. O ideal seria que aprendêssemos sobre tudo isso na escola. Mas enquanto a educação cívica e política encontra barreiras ideológicas, encontros como esse são fundamentais para que as pessoas se sintam capacitadas a acompanhar e se posicionar sobre o que acontece em Brasília.

3. Os haters definitivamente estão nas redes sociais, mas não nas ruas

Muita gente me pergunta como eu lido com o ódio nas redes sociais. Minha luta é contra a desigualdade e essa posição nem sempre se encaixa na cartilha cartesiana de um lado ou de outro. Apanho, consequentemente, de todos os lados. É comum que militâncias organizadas invadam minhas redes para me xingar e me difamar. Descobrimos recentemente que 2/3 dos perfis que me mencionam no Twitter têm 90% de chance de serem robôs. Enquanto isso, na minha caravana pelas ruas, a realidade é bem diferente. Já conversei com muitas pessoas que discordavam dos meus posicionamentos, mas o que estava ali era discordância, e não ódio. Quando estamos olho no olho e debatemos propostas concretas, podemos até não concordar em tudo, mas é mais fácil ouvir e respeitar. Nas ruas, temos democracia de verdade. Nas redes, muito barulho e poucas soluções.

4. A democracia precisa ser participativa

Aprendi a usar o espaço do Gabinete Itinerante para testar e pensar projetos. O primeiro Gabinete Itinerante que fizemos foi sobre financiamento da educação e eu apresentei as minhas propostas para o Fundeb. Educadores, economistas e alunos fizeram críticas e apresentaram muitas novas ideias. Fiz o mesmo com os temas de meio ambiente, violência contra as mulheres e ensino técnico e profissional. Em um dos gabinetes mais especiais e emocionantes até agora, discutimos políticas para dependentes químicos em uma quadra na minha comunidade. O Walter Casagrande foi nosso convidado e, dentro e fora da quadra, estavam meninos que sonhavam em ser jogadores de futebol, moradores, pessoas que trabalham na rede pública de atendimento e pessoas que hoje são dependentes químicos. É desse dia que eu lembro cada vez que eu ouço alguém falar sobre construção coletiva.

5. As pessoas querem participar

Reúno entre 50 e 250 pessoas em cada encontro. Gente que está disposta a passar o sábado falando sobre política, inclusive levando seus filhos e bebês para não deixarem de participar. Ou seja, tem gente disposta a se engajar de verdade na política, para além do ativismo de sofá que é tão comum hoje em dia. O que faltam são oportunidades acessíveis para que a população possa participar e construir junto com os políticos. O Gabinete Itinerante é divertido, emocionante e produtivo porque leva cultura, leitura e um bom debate para as pessoas. A cada edição, cresce o número de voluntários e de pessoas que me falam que, por conta do encontro, pensam em se candidatar ou se engajar de alguma forma.

Para mim, a parte mais importante do meu trabalho não se dá em Brasília, mas sim nas ruas, ouvindo, discutindo e conhecendo de perto a vida e a realidade das pessoas. Por isso, te convido a participar do nosso próximo Gabinete Itinerante. Passa lá!

Tabata Amaral

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