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O levante contra o governo da burrice

A cada atitude truculenta, a cada malfeito, a cada agressão, a administração de Jair Bolsonaro desencadeia uma mobilização social cada vez mais potente

Ao tentar explicar com uma patética matemática de chocolates a decisão do governo Bolsonaro de patrocinar cortes no orçamento dos institutos e das universidades federais, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, expôs seu completo desdém pela educação e pela vida pensante no Brasil.

Além do valor enganoso do corte de 3,5% declarado na cena, que na realidade incidirá sobre cerca de 30% das despesas discricionárias para manutenção e serviços essenciais das instituições, a performance do ministro e do presidente da República não podia ser mais deplorável. Enquanto o ministro dizia que o recurso seria guardado para ser gasto depois, segurando três chocolates e meio, o presidente se afobou para comer com sofreguidão a outra metade do chocolate, entregando na literalidade da infeliz metáfora o contrário do que se dizia.

Rapidamente se acendeu uma ampla reação na sociedade brasileira contra essa política de desmonte da educação, na esteira de insatisfações com o desempenho e outras medidas do governo, tais como a reforma da Previdência e a flexibilização do porte de armas.

A resposta mais contundente veio no último 15 de maio, quando centenas de milhares de pessoas ocuparam as ruas em mais de 200 cidades de todo o país. O tsunami da educação foi um levante de jovens estudantes, professores e trabalhadores do setor, mas também de diversas outras expressões sociais, inclusive muita gente que não faz parte de movimentos organizados.

Dos Estados Unidos, país que venera, Jair Bolsonaro tratou de desqualificar os atos, chamando os manifestantes de “idiotas úteis” e “massa de manobra”. Na véspera, percebendo que os cortes poderiam ter um preço alto demais, o presidente recuou em conversa com líderes da sua base no Congresso Nacional, mas logo em seguida foi desmentido pela própria Casa Civil. Prevaleceu o interesse do poder econômico fiado por Weintraub, o ministro mãos de tesoura.

No plano de fundo da trama, a criminalização das universidades federais – tachadas como lugares de “balbúrdia” pelo ministro – e o seu sucateamento proposital podem mirar um projeto de mercado, conforme o modelo chileno, elogiado pelo ministro, que passou por um processo generalizado de privatização durante a ditadura militar de Augusto Pinochet.

A propósito, as revoltas de estudantes secundaristas no Chile contra a mercantilização do ensino deram origem à histórica Rebelião dos Pinguins, em 2006, com repercussões que se estendem até hoje. Só recentemente, em 2018, a educação superior passou a ser de acesso gratuito universal naquele país.

O exemplo das ocupações estudantis chilenas foi uma reconhecida inspiração para jovens do estado de São Paulo, em 2015, que resolveram ocupar suas escolas para barrar o projeto de reorganização escolar imposto pelo então governo de Geraldo Alckmin. Com lemas como “mais escolas, menos prisões”, “a escola é nossa” e “não tem arrego”, os estudantes foram duramente reprimidos pela Polícia Militar, a mando do governo estadual, o que acendeu uma forte rede de apoio e solidariedade, fazendo com que o governo finalmente desistisse do projeto.

Na manhã do #15M eu vi na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, uma multidão multicolorida, com a presença marcante de juventudes periféricas, encorajadas a defender a educação e a democracia

Em 2016, após o golpe que retirou Dilma Rousseff da Presidência sem crime de responsabilidade, as ocupações estudantis ressurgiram em centenas de escolas e universidades de várias partes do Brasil em protesto contra uma série de medidas, como a reforma do ensino médio e a PEC do teto dos gastos (depois consumadas pelo governo Temer), a franquia do projeto Escola sem Partido e diferentes políticas estaduais de ataque à educação.

Já na era Bolsonaro, os ataques são combinados com uma narrativa escancarada de emburrecimento e a manipulação de notícias falsas para desacreditar a educação pública, de forma similar àquela que lhe garantiu a vitória nas urnas. Nessa lógica, não bastam os cortes apenas do ponto de vista orçamentário. É necessário estereotipar e ameaçar áreas cruciais como sociologia, artes e filosofia, perseguir o trabalho docente, asfixiar a política de ciência e tecnologia, corroer o patrimônio com a falta de recursos para manutenção básica de instalações, minar a credibilidade das instituições federais de ensino.

É o governo da burrice, avesso ao pensamento crítico, apavorado com a capacidade autônoma de produção de conhecimento, politização e cidadania ativa que possa emergir de uma educação de qualidade. E mais: é um governo que não suporta a democratização dos espaços com a chegada crescente de estudantes negros, indígenas, quilombolas e de origem popular, graças a políticas públicas de expansão de vagas e ampliação do acesso ao ensino superior no Brasil.

Mas é o governo da burrice também porque a cada atitude truculenta, a cada malfeito, a cada agressão, desencadeia um levante social cada vez mais potente. Na manhã do #15M eu vi na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, uma multidão multicolorida, com a presença marcante de juventudes periféricas, encorajadas a defender a educação e a democracia. E me emocionei ao ouvir o hino das ocupações estudantis de 2015, de autoria do cantor Dani Black, sendo cantado com alegria por muita gente ao meu redor: “Ninguém tira o trono do estudar / Ninguém é o dono do que a vida dá / E nem me colocando numa jaula / Porque sala de aula essa jaula vai virar”. A mobilização continua e promete ser ainda maior no dia 30 de maio. Todas às ruas!

 

Áurea Carolina

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