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O guia do corporativista no Congresso Nacional

Alguns grupos específicos têm um método para pressionar parlamentares a atender seus interesses. Mas não adianta: não vou ceder a eles

    Desde o início do meu mandato, há quase nove meses, já lidei com dezenas de grupos de interesse que estão semanalmente no Congresso para levar seus pontos de vista aos parlamentares e tentar influenciar nossos posicionamentos e votos nas matérias em tramitação.

    A atuação de qualquer cidadão, da sociedade civil organizada ou qualquer grupo é legítima, e vejo como dever dos congressistas e suas equipes ouvir e entender o ponto de vista de quem quer que seja. Tal processo faz parte da democracia, desde que esta atuação seja feita sem violar qualquer princípio ético, é claro, como oferecer contrapartidas aos parlamentares em troca do voto ou defesa de determinado interesse.

    Já aprendi muito e mudei ou amadureci minha opinião a respeito de vários temas após conversas com esses representantes, ao passar a compreender melhor determinado assunto a partir das informações trazidas.

    Todos se esquecem, no entanto, que toda vez que um grupo específico é privilegiado pela legislação, quem paga a conta são os demais brasileiros

    Porém, sou muito crítico à atuação de determinados grupos específicos que, em vez de buscarem informar e convencer os parlamentares, atuam basicamente pelo instrumento da pressão. Buscam influenciar o voto não por meio do argumento, mas sim achacando deputados nos corredores, comissões e redes sociais.

    Infelizmente, não são poucos os grupos que atuam com este modus operandi. Preenchem as salas das comissões para intimidar os parlamentares, muitas vezes interrompendo as falas contrárias aos seus interesses com gritos e cantos de guerra.

    Mas a principal característica dos que atuam assim é que suas demandas são invariavelmente corporativistas. Os interesses claramente são para beneficiar apenas aos seus grupos específicos, em detrimento da maior parte da população brasileira, que é quem vai pagar a conta das demandas dessa turma.

    Lamentavelmente, essa atuação historicamente tem sido bastante efetiva e o resultado é que vemos na legislação brasileira inúmeras leis claramente criadas como fruto desses atos, como a criação de reservas de mercado, incentivos fiscais, aumentos salariais e o surgimento de carreiras públicas que não precisariam existir.

    É pela defesa da maioria difusa e silenciosa da população que tenho me colocado desde que fui eleito, não aceitando pressões e me posicionando sempre de forma contrária a grupos que só querem benefícios para si próprios.

    Como consequência, mesmo em pouco tempo em Brasília já me tornei alvo da atuação de diversos deles. Nesse período, pude ver que as características e formas de atuação são bastante parecidas. Tão parecidas que resolvi fazer esta cartilha, para que todos compreendam como essa pressão é exercida. Segue o Guia do Corporativismo de Pressão no Congresso:

    1. Visite os gabinetes entregando brindes como agendas, réguas, canetas e caderninhos com o mote "Eu defendo a categoria X". Em troca, solicite uma reunião com o parlamentar. Caso o assessor diga que não é possível marcar imediatamente, insista que sua demanda é muito mais importante que todas as outras e deve ser atendida primeiro.
    2. Nas reuniões com parlamentares, faça falas “passivo-agressivas” dizendo que é melhor o deputado votar pela sua demanda ou toda a categoria profissional irá fazer campanha contrária a ele, e ele nunca mais irá se eleger – já assumindo que todo parlamentar quer unicamente se reeleger ou que dependa destes grupos para tal.
    3. Quando o parlamentar explicar o porquê de ser contrário ao projeto de lei em questão, diga que, antes de o deputado votar contra o projeto, ele deveria é abrir mão dos privilégios dos políticos, mesmo se ele for o deputado mais econômico do Congresso e já tiver aberto mão de todos os benefícios.
    4. Às vésperas das votações do projeto que vai beneficiar (apenas) a sua categoria, faça campanhas virtuais. Organize os integrantes do seu grupo para que cada um deles: (a) Faça envio massivo de e-mails e mensagens de WhatsApp para a caixa de todos os 513 deputados federais, com um texto "personalizado", dizendo "Caro(a) deputado(a), como seu eleitor exijo que vote a favor do projeto de lei XXXX." (Não tem problema inserir o (a), vai que o parlamentar não percebe). (b) Faça postagens sobre a importância da aprovação do projeto que beneficia (apenas) a sua classe e marque os deputados. (c) Escreva comentários agressivos em todos os últimos posts publicados pelo parlamentar que é contrário à proposta. (d) Envie mensagens ameaçadoras aos parlamentares contrários dizendo que eles perderão o seu voto na próxima eleição (mesmo que ele nem seja do seu estado). (e) Crie cards com a cara dos deputados que votam de forma contrária à sua posição, com um alvo na cara, dizendo que ele é fascista ou comunista (ou os dois), por não estar de acordo com a sua opinião.
    5. No dia da votação, frete um ônibus para Brasília trazendo profissionais da sua categoria, vestidos com um uniforme. Pode ser uma camisa com frases marcantes ou a farda da corporação, e faça parecer com que as 30 pessoas reunidas estejam defendendo os interesses de toda a população.
    6. Imprima cartazes com frases de ordem demonstrando que você não se importa com a crise fiscal, apenas com a sua própria categoria. Veja algumas sugestões: (a) “Dinheiro para _insira aqui a sua categoria_ não é gasto, é investimento” (b) “Os profissionais _insira aqui a sua categoria_ precisam ser valorizados!” (c) "Privatização é coisa de ladrão!" – essa opção é especial para categorias de empresas estatais ineficientes e deficitárias.
    7. Organize os profissionais uniformizados na sala das comissões para intimidar os parlamentares. Sempre que um congressista opinar de maneira divergente, instigue vaias e gritos.
    8. Se o projeto for votado em Plenário, organize sua turma nas galerias. Leve placas, bandeiras e outros elementos que chamem atenção nas câmeras.
    9. Não esqueça de cantar o hino nacional quando o seu projeto – que beneficia apenas a sua classe e faz todos os demais brasileiros pagarem a sua conta – for aprovado.

    Por mais que alguns itens pareçam piada, este guia é um resumo bastante fidedigno de situações que são rotina para quem acompanha o dia a dia da Câmara dos Deputados. Infelizmente, elas são o reflexo de uma sociedade que acredita que o Estado é a fonte da solução de todos os seus problemas e de parlamentares que não têm coragem de contrariar aqueles que estão ali os pressionando. Todos se esquecem, no entanto, que toda vez que um grupo específico é privilegiado pela legislação, quem paga a conta são os demais brasileiros.

    Já falei outras vezes e não canso de repetir: podem fazer a pressão que for, não cederei a elas. O compromisso do meu mandato será sempre a defesa daquilo que beneficiará a todos os brasileiros e não somente às corporações.

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