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Não basta ser novato na política, é preciso defender novas ideias

Essa mudança de práticas é necessária para mostrar a diferença de mentalidade entre quem está na Câmara para servir o povo e aqueles que estão aqui para se servir do povo

As eleições de 2018 eram aguardadas com grande expectativa por todos nós. Desde 2013, quando a população brasileira saiu às ruas para manifestar a sua insatisfação com o atual modelo político e de Estado brasileiros, essa seria a primeira chance de demonstrarmos nas urnas que realmente estava na hora de mudar nossos representantes. Em 2014, não estávamos prontos. Por mais que já houvesse uma insatisfação clara nas ruas, ainda não havíamos tido tempo para prepararmos nossa via de atuação institucional, a única capaz de oferecer alternativas viáveis para as eleições.

Analisando os resultados das urnas, acredito que é possível ser otimista. É claro que não renovamos 100% dos nossos políticos, não haveria como. Mas demos passos importantes para que candidatos de renovação comecem a ocupar espaços antes reservados quase que exclusivamente para oligarcas e, vez ou outra, celebridades da música e do esporte.

No Senado, a renovação deu um baile: 85% das vagas em disputa foram ocupadas por novatos. Nos estados, enquanto muitos mantiveram o status quo, tivemos gratas surpresas como Romeu Zema, em Minas Gerais. Tivemos um bom começo na Câmara, mudando praticamente metade dos deputados federais. Dos 243 eleitos pela primeira vez naquela Casa, 115 estão, como eu, começando seu primeiro mandato na política.

Agora, mais do que simplesmente carregarmos o título de representantes dessa onda de renovação, precisamos provar que somos verdadeiramente diferentes, nas práticas e nas ideias.

No campo da prática, infelizmente não foi tão difícil nos diferenciarmos até aqui. Na verdade, eu preferia que algumas das medidas que tomamos fossem mais comuns, mas é incrível o quanto pequenas atitudes surpreendem quem está acostumado a acompanhar a Câmara há anos.

Desde o fim de outubro, eu e a bancada do  Novo  viemos diversas vezes a Brasília para treinamentos com servidores da Câmara e especialistas em assuntos que serão pauta nas votações. Preenchemos 100% das vagas do meu gabinete por meio de um processo seletivo que recebeu mais de 4.000 inscritos para 6 vagas (na bancada do Novo, foram mais de 12 mil inscritos). Abri mão de todos os subsídios e benefícios, como auxílio-mudança, auxílio-moradia, apartamento funcional, reembolso de despesas médicas e regime especial de previdência. Cortamos também as vagas de assessores e a cota parlamentar em mais de 50%.

No nosso gabinete, decidimos transformar o layout. Tiramos as divisórias, pois não precisamos fazer reuniões de portas fechadas, e eliminamos aquilo que representava diferenças entre o deputado e assessores. Até a “cadeira de deputado” foi devolvida, pois sou contra esses tipos de símbolos e regalias que fazem com o que deputado se sinta especial demais, em vez de ser aquilo que ele é: um servidor público, representante do povo.

Essa mudança de práticas é necessária para mostrar a diferença de mentalidade entre quem está na Câmara para servir o povo e aqueles que estão aqui para se servir do povo. Atitudes assim aproximam o cidadão de seus representantes e fazem com que as pessoas voltem a se conectar com a política. Isso abre espaço para que cada vez mais pessoas passem a considerar fazer parte dela. Tenho certeza que exemplos assim farão com que muitos cidadãos, que nunca cogitaram se candidatar, participem dos pleitos de 2020 e 2022.

Porém, mudar somente as práticas não é suficiente. Precisamos também mudar as ideias hoje defendidas no parlamento. E nesse campo, talvez estejamos ainda mais atrasados do que no das velhas práticas. Ainda é enorme o vão que separa as ideias defendidas no Legislativo brasileiro e as práticas de sucesso dos países mais desenvolvidos do mundo.

Defendemos também menos interferência e mais liberdade para vivermos e empreendermos

Sobre isso, a boa notícia é que muitos dos representantes da renovação, entre os quais os oito deputados do Novo, defenderão ideias que nas últimas décadas não eram sequer cogitadas por nossos representantes.

Defendemos uma reorganização completa do modelo de Estado brasileiro, que hoje é gigante, deficitário, atrasado e paternalista. Uma instituição cuja existência é focada em muitos aspectos na perpetuação desse próprio modelo de Estado, e não na prestação de serviços para a população.

Precisamos de um Estado que esteja verdadeiramente a serviço da população, que adote medidas que estimulem a melhoria constante de seus serviços e o desenvolvimento — e não a estagnação — de seus servidores. Um Estado que se modernize em seus processos e sistemas, adotando tecnologias já amplamente difundidas no mundo, mas ainda ausentes no Brasil. Um Estado que não confunda o seu papel com o de empreendedores, e deixe de ser dono de empresas, hoje utilizadas para empregar aliados políticos e servir de mecanismo para corrupção. Enfim, precisamos de um governo enxuto, que funcione e que caiba dentro daquilo que a sociedade brasileira é capaz de pagar.

Defendemos também menos interferência e mais liberdade para vivermos e empreendermos. Temos hoje uma cultura onde somos regulados em praticamente tudo, por legislações que às vezes parecem piada. Regras que determinam desde como deve ser a planta de nossas casas até a possibilidade de restaurantes oferecerem sal à mesa aos seus clientes.

Estima-se hoje que existam mais de 5 milhões de leis no Brasil, somando as legislações federal, estaduais e municipais. É impossível evoluirmos quando até a entrada das pessoas em grupos de WhatsApp já virou objeto de legislação. Precisamos, portanto, trabalhar para revogar leis, reduzindo especialmente aquelas que tiram a autonomia dos cidadãos para tomarem decisões relativas à sua liberdade individual e à sua capacidade de gerar riqueza.

Por último, defendemos que o Estado se concentre em poucas áreas, justamente aquelas que afetam a igualdade de oportunidades entre os indivíduos: saúde, segurança, educação e no direcionamento das políticas econômicas.

É assim, com novas práticas e novas ideias, que pretendemos iniciar um novo momento na política brasileira, fazendo valer a esperança que foi em nós depositada pela população nas urnas.

 

 

Tiago Mitraud

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