Cuidar de nós para salvar a Amazônia 

A mobilização pela floresta deve passar por um outro ideal democrático, que leva em conta a cooperação com as comunidades tradicionais e a experiência da coletividade

Finalmente entendemos que o Brasil está em chamas. Teremos que nos refazer das cinzas, com a força criativa das culturas que produzem formas resilientes de existência, em um mundo cujo sentido de permanência é justamente a sua inexorável transformação.

Aprenderemos a (r)existir com os povos indígenas e os coletivos de hip hop, com as redes feministas e as rodas de capoeira, com os camelôs e as benzedeiras, com as periferias e os terreiros, com os agricultores familiares e os poetas marginais.

Esses grupos mostram que é preciso ser polivalente para continuar sendo quem se é, como ensina o mestre quilombola Nego Bispo. Ao invés de cultivar uma suposta identidade paralisada no tempo e no espaço – resposta fácil das aparências –, cabe a nós trabalhar a imprevisibilidade, a privação e o encontro com a alteridade como impulsos de preservação e expansão da nossa mais autêntica condição humana, necessariamente singular e universal.

A política deveria ser esse exercício. Muito mais do que projetar instituições para mediar a convivência e buscar saídas não violentas para os nossos conflitos, acredito que o ideal democrático é, fundamentalmente, um processo educativo em que transformamos nossas visões e condutas a partir da experiência vital da coletividade. No limite, é a possibilidade de equilíbrio entre as todas as criaturas, para que possamos conhecer nossos potenciais sem fazer guerra nem explorar ninguém – não apenas no curso linear de uma vida, mas sobretudo na dimensão das infinitas gerações do tempo.

A crise climática deve ativar em nós uma necessidade de desidentificação radical com a lógica do desenvolvimento.

É claro que esse ideal não se verifica na lógica convencional de poder que se impôs ao longo da história. No entanto, ele está presente em muitas práticas coletivas. Longe de qualquer idealização dos grupos que conseguem acioná-lo, o que está diante de nós é a certeza de que outra política é possível, mesmo quando a realidade parece nos levar a ciladas identitárias e predatórias, baseadas na competição e no empobrecimento afetivo e intelectual.

As cosmologias do bem viver, que orientam as formas de vida de vários desses grupos, são prova de que o ideal democrático da coletividade é eficiente para cuidar das águas, das matas, dos animais, das pessoas. Com a Amazônia e o cerrado ardendo de forma alarmante, essa evidência veio à tona para um Brasil que se assustou com a fumaça tóxica. São os povos e comunidades tradicionais, tão massacrados pelos sistemas de ganância, os principais guardiões da biodiversidade. A viabilidade das políticas socioambientais depende do diálogo e da cooperação com os mais antigos defensores do meio ambiente.

A sabedoria desse cuidado vem de uma sobrevivência cultural que faz do território o corpo e o espírito da vida em comunidade, como lembraram as milhares de mulheres indígenas que marcharam em Brasília em meados de agosto de 2019, junto com a poderosa multidão da Marcha das Margaridas. Sem uma profunda sintonia entre território, corpo e espírito, elas sabem, não é possível conservar as nascentes, educar as crianças, reverenciar a ancestralidade, produzir alimentos saudáveis ou construir a democracia.

No mobilização para salvar a Amazônia, a mudança começa por compreender que a existência da floresta depende da existência completa, complexa e dinâmica dos povos e comunidades tradicionais. Esses grupos devem ser determinantes nos lugares institucionais, mas não como fontes de consulta ou de legitimação para as decisões políticas. Enquanto forem percebidos como objetos de políticas, sem autonomia e poder sobre as suas próprias histórias, o extermínio da vida continua a passos largos.

A chave é reconhecer a floresta – seus povos, saberes, cosmologias – como um conjunto de sujeitos políticos. Não há mediação possível enquanto se pensar que a produção de commodities para exportação é mais necessária do que a existência dos ecossistemas.

As ameaças de eliminação dos grupos que insistem em defender tamanha virada política se agravam com a consolidação da cultura bolsonarista no imaginário social e nas instituições brasileiras. Essa violência, que está na origem colonialista da nossa formação, passa a ser autorizada com um alcance renovado. Aumenta em escala e intensidade. Mas ainda não é maior do que a capacidade de regeneração das culturas antissistêmicas ou contracolonizadoras, para usar um termo de Nego Bispo.

A crise climática deve ativar em nós uma necessidade de desidentificação radical com a lógica do desenvolvimento. Somos capazes de recuperar a disposição de ser coletividade e de cuidar de todas as formas de vida ao nosso redor.

 

Áurea Carolina foi eleita deputada federal pelo PSOL de Minas Gerais em 2018. Antes disso, foi a vereadora mais votada de Belo Horizonte em 2016. Atua em movimentos sociais desde a adolescência e é formada em ciências sociais pela UFMG, onde concluiu também mestrado em ciência política. Além disso, fez especialização em gênero e igualdade pela Universidade Autônoma de Barcelona.

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