A escola pública é cemitério de sonhos no Brasil

Em um país tão desigual como o nosso, onde a grande maioria dos adultos é analfabeta funcional, não podemos esperar que as famílias sejam responsáveis por ampliar o horizonte das nossas crianças

A importância dos sonhos e da motivação para a formação de pessoas capazes de prevalecer sobre circunstâncias adversas é uma constatação neurocientífica. Steven Pinker, doutor em psicologia e professor de Harvard, explica que, ao desejarmos algo – projetando em nossa mente a ideia com imagens coloridas –, criamos novas conexões neuronais e aumentamos, assim, a nossa capacidade cerebral. Quando elaboramos projeções no pensamento, a mente acredita que estamos vivendo aquela situação e organiza o corpo para aproveitá-la. O poder é tamanho que o cérebro estimula a produção de neurotransmissores e fortalece o sistema imunológico. Grandes feitos nascem primeiro na mente e depois ganham vida fora dela. Podemos sonhar agora com um amanhã que ainda não chegou.

Da teoria à prática, o caminho é inóspito. Basta olhar algumas escolas públicas, que logo se percebe a distância entre a ciência e a dura realidade das salas de aula. Enquanto crianças pequenas sonham com até mesmo duas  ou três profissões, os alunos chegam ao ensino médio sem um sonho sequer. Diversas vezes, ao questioná-los se tinham algum sonho, qualquer que fosse, apenas um de cada dez alunos levantava a sua mão. Ao conversar com os alunos que não conseguiam expressar um sonho, logo vinham as razões. Familiares, vizinhos e, até mesmo, professores tinham lhes dito que pessoas de sua cor, gênero, orientação sexual ou origem não faziam faculdade. Muitas das histórias que ouvi tinham afirmações na linha de: "coloque-se no seu lugar", "olhe de onde você é", "pessoas como você não fazem medicina", "ser cientista é coisa de rico”. Diante de tantos “nãos” – afinal de contas, ninguém de suas famílias ou comunidades havia conquistado algo pelos estudos –, esses jovens foram deixando de sonhar e perdendo a motivação pelos estudos.

Em seu livro "Breves respostas para grandes questões", o astrofísico Stephen Hawking conta que, desde criança, era apaixonado por entender como as coisas funcionavam e, por essa razão, sonhava e permanecia fascinado por descobrir os mistérios do mundo. A “mente humana é uma coisa incrível (...). Porém, toda mente necessita de uma fagulha para atingir seu pleno potencial (...). Muitas vezes, essa centelha vem do professor”. O que acontece é que, com a desvalorização da carreira docente e a falta de exemplos próximos de pessoas que transformaram suas vidas pelos estudos, a escola acaba se tornando um cemitério e não a incubadora de sonhos que deveria ser.

Se continuarmos matando os sonhos dos nossos jovens, estaremos matando junto a possibilidade de um futuro diferente.

Em um país tão desigual como o nosso, onde a grande maioria dos adultos é analfabeta funcional, não podemos esperar que as famílias sejam responsáveis por ampliar o horizonte das nossas crianças. Se a escola não apresentar os mundos que existem para além dos muros das periferias, se não apresentar as diferentes profissões que existem, se não motivar o aluno, com exemplos e encorajamento, a acreditar no poder do estudo e a sonhar, é muito pouco provável que isso aconteça.

O papel da motivação no desempenho escolar dos estudantes, aliás, foi tema de levantamento realizado pela Consultoria Mckinsey com base nos dados da prova do Pisa (Programa Internacional de Avaliação Escolar, na sigla em inglês) de 2015. Os pesquisadores identificaram uma relação entre as habilidades socioemocionais e o desempenho dos estudantes no exame, que teve foco na área de ciências. Motivação, pertencimento e mentalidade de crescimento impactaram diretamente as notas. A conclusão mais expressiva da pesquisa reforça a importância dos professores que incentivam seus alunos a sonharem alto. Alunos pobres com motivação bem calibrada conseguiram aumentar 50 pontos na prova e, assim, alcançaram melhor desempenho do que estudantes ricos sem motivação.  

São nossas trajetórias pessoais, assim como a grande literatura sobre o poder dos sonhos que nos fazem lutar por uma escola que de fato ensine e instigue nossos jovens a sonhar. Uma escola que prepare seus alunos para o mercado de trabalho, para o exercício da cidadania e para a vida. Uma educação integral que dê igual valor às habilidades cognitivas e socioemocionais. Porque, se continuarmos matando os sonhos dos nossos jovens, estaremos matando junto a possibilidade de um futuro diferente.

*Esta coluna foi pensada e escrita em parceria com o cientista político e professor Israel Batista, eleito deputado federal em 2018 pelo PV do Distrito Federal.

Tabata Amaral foi eleita deputada federal pelo PDT de São Paulo em 2018. Antes disso, formou-se em ciência política, com bolsa integral, pela Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Pesquisa e atua em temas ligados à educação.

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