Coluna

Vladimir Putin e os inevitáveis limites da autocracia

    A decisão desastrosa de invadir a Ucrânia ilustra o risco de regimes autocráticos se verem presas de seu próprio impulso repressor e de manipulação da informação

    À medida em que evolui a situação na Ucrânia, parece claro que, quaisquer que fossem os objetivos de Vladimir Putin ao invadir o país vizinho, eles estão hoje mais distantes do que estavam antes da invasão. A Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e o Ocidente estão mais unidos, a identidade nacional e o nacionalismo ucranianos mais robustos, e a economia russa em frangalhos – tudo isso em grande medida em função da reação à iniciativa do ditador russo.

    Mais ainda, se quem pagará esses custos será em larga medida o povo russo – para não falar, claro, dos ucranianos, as grandes vítimas dessa tragédia –, o próprio Putin não escapa ileso. Uma catástrofe geopolítica e econômica naturalmente gera insatisfação interna, que pode ser reprimida, tal como mostram as Coreias do Norte e Venezuelas, mas a um custo alto. Por improvável que ainda seja a remoção de Putin do poder, é mais que razoável supor que tal probabilidade é hoje mais alta do que antes da guerra.

    Portanto, parafraseando o aforismo atribuído ao célebre diplomata francês Talleyrand (ao que parece erroneamente), Putin cometeu não apenas um crime abjeto, mas algo para ele ainda pior: um formidável e grotesco equívoco.

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    Filipe Campante é Bloomberg Distinguished Associate Professor na Johns Hopkins University. Sua pesquisa enfoca temas de economia política, desenvolvimento e questões urbanas e já foi publicada em periódicos acadêmicos como “American Economic Review” e “Quarterly Journal of Economics”. Nascido no Rio, ele é PhD por Harvard, mestre pela PUC-Rio, e bacharel pela UFRJ, todos em economia. Foi professor em Harvard (2007-18) e professor visitante na PUC-Rio (2011-12). Escreve mensalmente às quintas-feiras.

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