Coluna

Segregação, capital social e a persistência da desigualdade

    Maior número de conexões e amizades com pessoas de renda mais alta facilita a mobilidade social através de contatos, acesso à informações, oportunidades de emprego ou simplesmente aspirações

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    Uma das características dos países de alta desigualdade é a segregação espacial. Pessoas pobres vivem em bairros onde a maioria das pessoas são pobres, enquanto pessoas ricas moram em regiões onde seus vizinhos também são ricos. Isso faz com que crianças pobres cresçam tendo como amigas e amigos outras crianças pobres. A mesma coisa acontece com crianças de alta renda. Mas será que essas conexões importam? Será que as redes de amizades explicam, em parte, o fenômeno de mobilidade social?

    Diversos pesquisadores argumentam que o capital social (as relações dos indivíduos com redes sociais e comunidades) explica resultados econômicos e sociais ao longo da vida. O livro do sociólogo Robert Putnam, “Our Kids: The American Dream in Crisis”, coloca o capital social como um dos principais fatores para explicar a desigualdade nos EUA. Porém, mensurar capital social é algo difícil. Em geral, não conseguimos mapear as conexões sociais que umas pessoas têm com outras em grande escala. Por isso, grande parte dos estudos existentes sobre o tema usam a escola ou o bairro em que um indivíduo cresceu para testar se o local de residência importa para determinar a renda no longo prazo.

    Mas a barreira de mensuração do capital social foi quebrada por um grupo de pesquisadores liderado pelos economistas Raj Chetty e Matthew Jackson. Em colaboração com pesquisadores do Facebook, eles utilizaram dados de 21 bilhões de conexões na plataforma para criar medidas de capital social e conexões em nível de código postal para os EUA. Os novos trabalhos “Social Capital I: Measurement and Associations with Economic Mobility” e “Social Capital II: Determinants of Economic Connectedness”, publicados na revista Nature, reportam os primeiros resultados desse grande esforço.

    Os trabalhos têm como fonte de informação as redes sociais de 72 milhões de usuários do Facebook nos EUA com idades entre 25 e 44 anos. A grande novidade da pesquisa está em conseguir calcular uma medida de conexões econômicas entre indivíduos pobres e ricos. Os autores mostram que há uma forte correlação entre a classificação de status socioeconômico de uma pessoa e a classificação de status socioeconômico de seus amigos no Facebook. Ou seja, pessoas mais ricas são conectadas na rede social com pessoas mais ricas.

    Na segunda parte do trabalho, os autores usam as medidas de mobilidade social que foram estimadas por Raj Chetty e coautores no trabalho “The Impacts of Neighborhoods on Intergenerational Mobility I: Childhood Exposure Effects”. Eles mostram que um maior número de conexões na rede social com pessoas de mais alta renda está associado com maior mobilidade de renda. Os autores argumentam que um maior número de conexões e amizades com pessoas de renda mais alta facilita a mobilidade através de contatos, acesso à informações, oportunidades de emprego ou simplesmente aspirações. O resultado é robusto ao controle de outras características locais que podem afetar a mobilidade intergeracional e acontece mesmo quando os autores analisam amizades que foram formadas na infância para resolver o possível problema de causalidade reversa.

    Uma das características dos países de alta desigualdade é a segregação espacial. Pessoas pobres vivem em bairros onde a maioria das pessoas são pobres, enquanto pessoas ricas convivem com outros ricos

    No segundo trabalho “Social Capital II: Determinants of Economic Connectedness”, Chetty e coautores perguntam de onde surgem as diferenças das conexões nas mídias sociais? Por que em alguns lugares pessoas mais pobres são mais conectadas com pessoas mais ricas do que em outros? A resposta está nas escolas e organizações locais como igrejas. Aproximadamente metade da desconexão entre indivíduos pobres e ricos é explicada por diferenças em exposição a indivíduos diferentes nas escolas. No entanto, parte da falta de conexões que eles encontram é determinada por vieses nas relações de amizade. Mesmo dentro de uma escola, diferenças étnicas ou religiosas podem influenciar essas conexões. Por isso eles argumentam que políticas de integração podem aumentar as conexões em contextos onde o viés de amizade não seja grande, porém, em situações onde existe segregação mesmo dentro de escolas, políticas de integração não resolverão completamente o problema.

    Os dois trabalhos trazem diversas lições para o Brasil, mesmo que o nosso contexto seja muito diferente. A grande segregação racial e social existente nas cidades brasileiras é responsável por grande parte da falta de mobilidade intergeracional. Essa segregação é bem clara quando olhamos para escolas públicas e privadas e como as interações sociais nessas escolas magnificam as desigualdades iniciais. Programas de distribuição de renda, políticas que reduzam o abandono escolar e esforços que aumentem a proporção de jovens de baixa renda nas universidade são importantes para reduzir a pobreza e a desigualdade. Mas precisamos pensar também como fazer com que jovens de baixa renda ampliem suas redes. Bolsas de estudos para que jovens de baixa renda estudem em escolas privadas ajudam, mas não é viável como política pública em grande escala. Precisamos pensar no outro lado, em como levar filhos de famílias mais ricas para terem contato com jovens que vivem nas favelas e periferias.

    Claudio Ferraz é professor da Vancouver School of Economics, na University of British Columbia, Canadá, e do Departamento de Economia da PUC-Rio. Ele é diretor científico do JPAL (Poverty Action Lab) para a América Latina. É formado em economia pela Universidade da Costa Rica, tem mestrado pela Universidade de Boston, doutorado pela Universidade da Califórnia em Berkeley e foi professor visitante na Universidade de Stanford e no MIT.

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