Coluna

Quem lê tanta notícia? O desinteresse dos jovens pelo noticiário

    A mídia profissional vem perdendo espaço para as redes sociais. O jornalismo feito por profissionais preparados e formados para tal função vem se distanciando do leitor comum

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    O ano era 1967 e o Brasil se viu encantado pelos versos aparentemente descompromissados de “Alegria, Alegria”, que, no entanto, escondiam uma crítica feroz à censura e ao intelectualismo vazio que dava o tom no país, que naquele momento estava sob uma ditadura. Predileta para vencer o Festival da Canção da TV Record, a música de Caetano Veloso ficou em quarto lugar, mas estabeleceu as bases para um movimento que revolucionou a música e a arte brasileiras, o Tropicalismo. Em em dado momento da letra, seu autor faz uma pergunta que, de tão atual, permanece sem resposta: “O sol nas bancas de revista/ Me enche de alegria e preguiça/ Quem lê tanta notícia?”. Se naqueles tempos, em que o volume de informação passava longe do que hoje está ao alcance dos nossos dedos nessa “Era da Informação”, já havia um desinteresse nas notícias, atualmente os números mostram que a falta de interesse por elas só cresce.

    O Digital News Report 2022, pesquisa do Instituto Reuters para Estudos de Jornalismo em Oxford, o mais completo levantamento sobre consumo de notícias, confiança e tendências do jornalismo do mundo, revela que o interesse em notícias caiu drasticamente em todos os locais pesquisados: de 63% em 2017 para 51% em 2022. E, além do desinteresse, há também um crescente número dos que dizem deliberadamente evitar ler notícias e dos que desconfiam de seus conteúdos cada vez mais: a pesquisa evidenciou que a confiança nas notícias caiu em quase metade dos 46 países pesquisados e aumentou em apenas sete, comparando-se a 2019, o período anterior pesquisado. Tal como dizia Caetano Veloso as notícias continuam misturadas “em caras de presidentes/ Em grandes beijos de amor/ Em dentes, pernas, bandeiras/ Bomba e Brigitte Bardot/ (...) Por entre fotos e nomes...” e talvez por isso, ou para além disso, as pessoas seguem se importando com elas cada vez menos.

    Fato é que a notícia trazida pela pesquisa preocupou a imprensa de todos os países pesquisados. Extensa e recheada de informações relevantes, ela revelou, sobretudo, aquilo que qualquer observador mais atento da realidade já sabia: a mídia profissional vem perdendo espaço para as mídias sociais, o jornalismo feito por profissionais preparados e formados para tal função vem se distanciando do leitor comum, que prefere a notícia comentada pelo seu influencer predileto, e o entretenimento vem ganhando dianteira diante da análise crítica e acurada do que acontece ao nosso redor. Analistas das áreas de comunicação, marketing, cientistas sociais, psicólogos, dentre outros estudiosos do comportamento humano, têm as suas teorias para explicar este fenômeno, mas é real que as pessoas estão se afastando do bom jornalismo e buscando com mais força o entretenimento, e isso é mais acentuado entre os jovens.

    Desde que o Digital News Report começou a rastrear a principal fonte de notícias dos entrevistados, as redes sociais vêm substituindo os sites de notícias como fonte primária para o público mais jovem, sendo que 39% dos nativos digitais (de 18 a 24 anos) em 12 dos mercados avaliados, agora usam as mídias sociais como sua principal fonte de notícias, em comparação com 34%, que preferem ir direto para um site ou aplicativo de notícias. O estudo também mostrou que os chamados nativos digitais são muito mais propensos a acessar notícias usando fontes de “porta lateral”, como mídias sociais, sites agregadores e mecanismos de pesquisa do que os grupos mais velhos. O relatório confirma a tendência de esse público privilegiar cada vez mais informações em áudio e vídeo e em redes como Instagram, TikTok, YouTube ou Spotify. E realmente as mídias sociais estão com tudo: 64% do público brasileiro afirma receber notícias pelas plataformas, sendo o YouTube a principal delas, utilizado por 43% dos brasileiros para notícias, seguido de perto por WhatsApp (41%) e Facebook (40%).

    As pessoas estão se afastando do bom jornalismo e buscando com mais força o entretenimento. E isso é mais acentuado entre os jovens

    Além de preferir acessar as notícias via as redes sociais, o público jovem mundial, juntamente com uma proporção significativa de pessoas menos instruídas, diz que evita notícias porque acha difícil compreendê-las, indicando que a mídia deveria simplificar a linguagem e explicar mais detalhadamente ou contextualizar mais claramente histórias complexas. O Brasil está em segundo lugar onde isso mais acontece entre pessoas abaixo de 35 anos, empatado com os EUA e perdendo para a Austrália. Uma outra justificativa para o desinteresse em relação às notícias está ligada à repetição de determinados assuntos, como os políticos e referentes à pandemia (43% dos entrevistados da amostra). E por fim, e talvez a razão mais importante, é que as notícias têm tido uma influência negativa no humor das pessoas: quatro em cada dez entrevistados disseram que passaram a evitar as notícias pelos efeitos negativos que elas lhes causam, e os brasileiros estão entre os que mais adotaram esse hábito. Aproximadamente um terço da população pesquisada (36%), principalmente aqueles com menos de 35 anos, disse que as notícias prejudicam o humor e 29% afirmam que sentem um desgaste significativo com a quantidade de notícias recebidas.

    Que ninguém aguenta mais “tanta notícia” todos já sabemos, mas, por outro lado, elas continuam circulando e, como evidenciou o relatório, são acessadas pelas mídias sociais, onde se misturam com as fofocas, as fake news, com o universo paralelo das opiniões, da propaganda e do marketing. “Todas as faixas etárias veem as notícias como igualmente importantes para aprender coisas novas. Mas vemos que nossos grupos mais jovens são um pouco mais motivados do que os grupos mais velhos pela forma como as notícias são divertidas e compartilháveis”, afirma Kirsten Eddy, um dos co-autores do relatório. “As redações não estão totalmente equipadas para lidar com uma audiência de mídia social. A geração mais jovem não vai acessar sites de notícias para ler. Então, temos que ir onde eles estão. Temos que entender como eles querem ler suas notícias”, avalia o jornalista indiano Shadma Shaikh, comentando o resultado do levantamento.

    O entendimento das razões pelas quais os jovens acessam notícias que não se apresentam nos modelos tradicionais, mas aquelas que lhes contam histórias, enredando-os num universo mais “lúdico”, passa por uma infinidade de fatores, mas um dos mais evidentes está ligado à chamada “economia da atenção”, ou seja, tem a ver com o sentido que eles estão atribuindo às notícias como algo que os ajuda a compreender onde estão, quem são e para onde vão. Nesse mar de informações, é preciso ofertar razões aos jovens para que enxerguem as notícias como ferramentas indispensáveis para que possam fazer escolhas mais conscientes e, sobretudo, escolhas que lhes tornem protagonistas de seu tempo e de sua história. É preciso que eles percebam que prestar atenção ao noticiário é algo que vale a pena. E, para isso, é preciso rever a matéria da qual as notícias são feitas, e as fake news estão aí para nos dar o exemplo. Não é preciso dizer mentiras para chamar atenção aos absurdos da vida, para o inusitado, o diferente, o criativo e inovador. É preciso ser um observador atento do que se passa e do que nos atravessa como seres humanos. A matéria jornalística precisa ser a mesma matéria da qual são feitas as histórias: de tudo o que é humano – inclusive do que não parece ser – das emoções, do espanto, e também do desconsolo. Afinal de contas, passam os dias, “o sol é tão bonito”, e os jovens continuam “caminhando contra o vento/ sem lenço e sem documento/ sem nada nos bolsos ou nas mãos”, querendo apenas, “seguir vivendo”. Talvez as notícias tenham que perguntar: por que não?

    Januária Cristina Alves é mestre em comunicação social pela ECA/USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo), jornalista, educomunicadora, autora de mais de 50 livros infantojuvenis, duas vezes vencedora do Prêmio Jabuti de Literatura Brasileira, coautora do livro “Como não ser enganado pelas fake news” (editora Moderna) e autora de “#XôFakeNews - Uma história de verdades e mentiras”. É membro da Associação Brasileira de pesquisadores e Profissionais em Educomunicação - ABPEducom e da Mil Alliance, a Aliança Global para Parcerias em Alfabetização Midiática e Informacional da Unesco.

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