Coluna

Para ver com olhos livres é preciso olhar, focar e reparar 

    De nada adianta olhar pra cima (ou pra baixo, para os lados) se não tivermos olhos livres, olhos de ver

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    Impossível pensar (e no meu caso trabalhar) com Educação para as Mídias e não comentar o sucesso estrondoso do filme recém-lançado pela Netflix “Não olhe para cima”, de Adam McKay, que já é um dos mais vistos da plataforma aqui no Brasil e no mundo. Muito se falou a respeito – dez entre dez colunistas comentaram a obra – mas sempre é bom destacar aspectos que podem contribuir para uma reflexão mais aprofundada sobre o tema principal do filme: a relação das pessoas com a informação, com aquilo que se vê, ouve e se repassa.

    Sem perigo de spoiler, vale destacar uma das falas finais do cientista Randal Mindy (interpretado por Leonardo DiCaprio): “O que aconteceu conosco? O que aconteceu com a nossa comunicação?”. A pergunta que não quer calar, aquela que fazemos todos os dias quando vemos, lemos ou ouvimos alguém negando a ciência, as evidências, os fatos concretos. A nossa comunicação está confusa, despedaçada, descontinuada, sem sentido e sem direção. Daí sermos alvos fáceis para as notícias falsas e todo tipo de desinformação que nos distrai do que realmente interessa: a razão pela qual estamos aqui, sendo quem somos, fazendo o que fazemos.

    Inevitável assistir ao filme e não lembrar de Oswald de Andrade, nosso grande escritor e um dos promotores da Semana de Arte Moderna de 1922 (cujo centenário comemoramos neste ano), que em 1924 escreveu o “Manifesto da poesia Pau-Brasil”, no qual afirmava: “Nenhuma fórmula para a contemporânea expressão do mundo. Ver com olhos livres” (grifo dele). Nada tão atual. Para ver o mundo em que vivemos em sua miríade e multiplicidade é preciso, antes de mais nada, ver com olhos livres. Ver com olhos de pássaro, ver para além do espelho (porque, como diz Caetano Veloso, “Narciso acha feio o que não é espelho”), ver por meio do caleidoscópio. E esse exercício começa quando não nos deixamos encantar pela sequência meteórica (que boa imagem a do filme: um meteoro que irá destruir a Terra!) de imagens que passam a todo momento por nossos olhos, quando entendemos que olhar é a ação mecânica de quem não é cego, mas focar e reparar é o que faz a diferença, permitindo que compreendamos o que estamos vendo. Eis o grande desafio do nosso tempo.

    Nossa comunicação está confusa, despedaçada, descontinuada, sem sentido e sem direção. Somos alvos fáceis para as notícias falsas e todo tipo de desinformação

    Como diz o grande escritor português José Saramago (outra referência impossível de não citar quando se trata de comentar esse filme) em sua obra-prima “Ensaio sobre a cegueira”: “Por que foi que cegamos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem”. Creio que é disso que trata o filme: somos cegos que veem. Negamos a realidade, o meteoro que se aproxima, que destruirá a todos nós. Vivemos essa negação e é ela que, ao final, nos aniquilará.

    Sem querer soar alarmista e tampouco pessimista, creio que é possível ao cego ver, ainda mais se a sua cegueira é a mental. É preciso abrir espaço para a razão, para o jogo incrível que aprendemos a jogar ainda crianças, o “esconde-acha”, aquele que nos permite olhar mais de uma vez para o que estamos vendo e nos convida a virar a imagem do avesso, de ponta cabeça, despedaçá-la, para depois juntar seus pedaços de outro modo. Em 2013 tive o privilégio de escrever o livro “Para ler e ver com olhos livres”, em parceria com Flávia Aidar (editora Nova Fronteira) no qual propomos que o leitor conheça 26 obras de arte de artistas brasileiros contemporâneos, dispostas em páginas duplas, onde se lê uma frase que convida a uma outra leitura da imagem que está na página vizinha. Uma brincadeira divertida “em que cada obra, cada artista, vai abrindo o seu olhar para as muitas e diferentes formas de ver, conhecer e perceber”, dizemos no prefácio do livro. O processo de feitura desta obra me deu a certeza de que de nada adianta olhar para cima (ou para baixo, para os lados) se não tivermos olhos livres, olhos de ver, como pergunta a famosa expressão bíblica: “Vocês têm olhos, mas não veem?”.

    Por isso, penso que antes de sabermos para onde olhar é necessário que aprendamos a olhar. O que implica em abrir mão dos preconceitos, das razões pré-estabelecidas, focando naquilo que Oswald de Andrade nos chamou a atenção: que a nossa identidade cultural não era única, era múltipla e multifacetada, que era preciso olhar os muitos jeitos de falar e se expressar desse Brasil para vê-lo e compreendê-lo e que somente assim poderíamos entender o papel de cada um de nós nesse caldo cultural. Ele nos falava da construção de um olhar crítico eivado de verdades sobre nós mesmos, o olhar contemporâneo, que não tem vergonha de ser quem é, aquele que não está constrangido pelo óbvio, não está restrito, e por isso torna-se capaz de reconhecer a beleza de uma colcha de retalhos.

    Ver com olhos livres é tarefa para uma vida. Para a nossa e para as que virão depois de nós. Citando mais uma vez Saramago em seu “Ensaio sobre a cegueira”: “Estamos a destruir o planeta e o egoísmo de cada geração não se preocupa em perguntar como é que vão viver os que virão depois. A única coisa que importa é o triunfo do agora. É a isto que eu chamo a cegueira da razão”. Sabemos que o medo de morrer nos cega. Tal como em “Não olhe para cima” brincamos de faz de conta à espera de uma mágica que nos livre da colisão com a realidade, com aquilo que fazemos diariamente que nos mata e também ao planeta Terra. Melhor não ver, não olhar. Talvez por isso a mentira, a desinformação, as fake news, estão em voga. Ter olhos de ver tem seu preço, é transgredir, e isso, vamos combinar, dá mais trabalho do que assistir e comentar nas redes sociais um filme da Netflix.

    Januária Cristina Alves é mestre em comunicação social pela ECA/USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo), jornalista, educomunicadora, autora de mais de 50 livros infantojuvenis, duas vezes vencedora do Prêmio Jabuti de Literatura Brasileira, coautora do livro “Como não ser enganado pelas fake news” (editora Moderna) e autora de “#XôFakeNews - Uma história de verdades e mentiras”. É membro da Associação Brasileira de pesquisadores e Profissionais em Educomunicação - ABPEducom e da Mil Alliance, a Aliança Global para Parcerias em Alfabetização Midiática e Informacional da Unesco.

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